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Enredo desconexo

Quando a economia ameaça leve recuperação, o próprio governo se encarrega de confundir a trama

28 out 2019
05h11
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Não estava, mas o roteirista que escreve nossa história achou que o enredo estava chato e resolveu mudar tudo. Assim como a história de Hans Castorp torna-se muito mais complexa quando o jovem descobre que também estava tuberculoso ao visitar o primo no sanatório em Davos, nossa trajetória fica bem mais sinuosa a partir de agora, mesmo que nosso roteirista não tenha, nem remotamente, a genialidade de Thomas Mann.

Até recentemente, nossa perspectiva econômica poderia ser descrita como uma corrida contra o tempo. O relógio da economia andava muito devagar e indagava-se a respeito da viabilidade política de fazer as reformas necessárias num ambiente de semiestagnação. Os economistas pessimistas (com perdão da redundância) acreditavam que a falta de crescimento poderia consumir rapidamente o capital político do governo, que, assim, teria enormes dificuldades para fazer avançar no Congresso as mudanças necessárias para pavimentar o caminho do crescimento sustentável. Por sua vez, os otimistas (sim, existem economistas otimistas, ocasionalmente) imaginavam que os milhões de desempregados poderiam ficar indefinidamente entorpecidos pela fumaça hipnótica exalada da pauta conservadora do Planalto e não se importariam em esperar o tempo que fosse necessário para as reformas vingarem.

O que mudou? Muita coisa. Do ponto de vista do nível de atividade, há sinais cada vez mais frequentes de que a produção e o emprego estão esboçando uma reação. Coisa ligeira, nada para se empolgar. No nível de emprego, por exemplo, o número de pessoas ocupadas passou de 44,04 milhões, em agosto de 2018, para 44,84 milhões, em agosto deste ano. A diferença não é grande, mas esse crescimento é o maior desde dezembro de 2015. O total de empréstimos para pessoas físicas está crescendo a uma taxa anualizada de quase 5%. De novo, não é muita coisa, mas é o crescimento mais alto desde junho de 2015. A produção de autoveículos nos 12 meses acumulados até setembro soma 2,94 milhões. Repetindo: não emociona, mas é a maior desde abril de 2015. São dados pontuais, evidentemente. Mas a queda dos juros é a novidade que pode garantir um impulso adicional a esta recuperação. Não nos leva aos números de 2014, antes da recessão, quando sabíamos que éramos infelizes, mas não sabíamos que a infelicidade poderia aumentar.

Ainda assim, a recuperação pode acelerar e surpreender.

Como a vida nestes trópicos é sempre mais difícil que nas montanhas mágicas, os ares mudaram também na arena política. O governo revela-se doente e dedica-se, agora, a minar sua própria base de apoio partidário. Ressentido com a ausência de uma oposição organizada, resolveu ele mesmo preencher essa lacuna. Para tanto, nada mais eficaz do que estilhaçar o único partido que lhe é fiel. Mais que constrangedor, isso pode comprometer a recuperação incipiente da economia. Depois de desperdiçar tempo e capital político para tentar emplacar a indicação do filho do presidente para a embaixada americana, o governo viu-se compelido a prematuramente distribuir com Estados e municípios os recursos do leilão da cessão onerosa do petróleo para viabilizar a aprovação final da Previdência. Gastou o maior trunfo que tinha nas mãos, em troca do que se pensava ser favas contadas. Isso significa que enfrentará as próximas batalhas legislativas para aprovação de reformas econômicas de mãos vazias e com o próprio partido rachado.

Caso raro de autocombustão. Quando parecia ficar mais fácil, o próprio governo dificulta sua vida. Quando a economia ameaça uma leve recuperação, o próprio governo se encarrega de confundir a trama. É difícil de imaginar um final feliz para esta história. 

ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM

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