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Empresas que buscaram certificado verde por 'moda do ESG' ficaram pelo caminho, diz CEO do Sistema B

Cinthia Gherardi faz balanço sobre os 20 anos do Movimento B, criador da certificação de sustentabilidade; organização elevou rigor para concessão do selo a partir deste ano

14 jul 2026 - 11h39
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Para os gestores do Movimento B, o lucro e o impacto socioambiental positivo devem andar juntos dentro de um ambiente de negócios. A iniciativa internacional, que reúne mais de 10,6 mil empresas em 104 países com foco nesse propósito, completou 20 anos em maio, sendo amplamente conhecida por criar e gerenciar o Sistema B: uma certificação concedida às companhias que cumprem os requisitos de alinhamento às boas práticas de governança defendidas pelo movimento.

O Brasil, onde a iniciativa chegou em 2013, é um dos mercados de maior importância para a organização, explica a co-CEO do Sistema B no País, Cinthia Gherardi, em entrevista ao Estadão. Segundo a executiva, o Brasil foi pioneiro na adesão das grandes companhias ao sistema, resultando no engajamento de outras empresas desse porte na direção de também possuir governança mais robusta em ESG. Atualmente, 338 empresas brasileiras são certificadas como "Empresa B" ou "B Corp".

"Globalmente, o Movimento B é formado por empresas de pequeno porte e começou a ter cada vez mais adesão de empresas grandes e médias. O Brasil, sem dúvida, foi o que puxou (esse movimento). Com isso, outras empresas também foram entrando. Essa parte de influência, de comunicação, de relatórios, de transparência, de governança, veio muito da herança do Brasil", avalia Gherardi.

O aniversário do movimento coincide com a reformulação dos critérios para uma empresa adquirir a certificação do Sistema B, que, em 2026, passa a ter auditoria externa e padrões mais rigorosos definidos em sete pontos: propósito e governança das partes interessadas; trabalho justo; justiça, equidade, diversidade e inclusão; direitos humanos; ação climática; gestão ambiental e circularidade; e assuntos governamentais e ação coletiva.

Por outro lado, coincide também com um período visto pela executiva como de "menor fervura" em torno da busca por certificação no Brasil, após o auge entre 2020 e 2022. Para ela, no País, a agenda de sustentabilidade tem sido pressionada por um esfriamento após eventos como a COP-30, o início do período eleitoral para presidenciáveis, além da recente revogação pela CVM da obrigatoriedade de reportes financeiros de "políticas verdes", considerada pelo Movimento B como "um retrocesso".

Cinthia Gherardi é co-CEO do Sistema B no Brasil
Cinthia Gherardi é co-CEO do Sistema B no Brasil
Foto: Sistema B/Divulgação / Estadão

"Nos últimos três anos, a pauta se normalizou um pouco. Ainda está em ascendência, pois o mercado ainda procura por isso, mas já não naquela fervura na qual todo mundo quer (a certificação). Aquelas empresas que vieram no momento do boom do ESG, muitas delas não tinham ainda a estrutura de governança necessária para conseguir a certificação e ficavam pelo caminho. Então, a taxa de crescimento deu uma reduzida natural, mas continua havendo essa busca por parte das empresas que têm uma maturidade maior."

Leia os principais trechos da entrevista com Gherardi:

O Movimento B acabou de completar 20 anos. Quais foram as principais mudanças em relação à agenda de sustentabilidade das empresas desde então?

Quando falamos de 20 anos atrás, eram pouquíssimos os empresários que pensavam em geração de impacto. Apesar de a pauta já estar mais desenvolvida no início das COPs, ainda não era tão comum no ramo empresarial. Então, o movimento surgiu de uma dor de empresários que, no momento de tentar vender a sua empresa, não conseguiam dar valor à potência daquilo que geravam de benefício para a comunidade e para o planeta. Eles criaram, então, um sistema de métricas para ajudar a materializar tudo. O Brasil foi o primeiro País que teve uma empresa de capital aberto certificada: a Natura (em 2014). Com o passar dos anos, a temática de impacto e de sustentabilidade foi entrando de forma mais estratégica nas empresas. Eu diria que a grande virada de chave foi na época da pandemia. As empresas que vieram antes vinham por propósito, como uma forma de legitimar o que já faziam. Quando a pauta de ESG ganhou corpo entre 2020 e 2022, e o mercado financeiro passou a cobrar por isso, foi quando aumentou exponencialmente a percepção de valor no mercado. Então, as empresas continuam tendo um propósito muito forte, afinal é uma certificação que exige um processo de auditoria, então não é qualquer empresa que consegue, mas aumentou o número de empresas (que buscaram a certificação para) ajudar a agregar valor porque o mercado financeiro, clientes e fornecedores estavam cobrando.

E após a fase de 2020 a 2022?

Há uma curva muito forte de crescimento nesse período, e então, nos últimos três anos, a pauta se normalizou um pouco. Ainda está em ascendência, pois o mercado ainda procura por isso, mas já não naquela fervura na qual todo mundo quer (a certificação). O que vejo agora são empresas com uma maturidade maior de governança (interessadas). Aquelas empresas que vieram no momento do boom do ESG, muitas delas não tinham ainda a estrutura de governança necessária para conseguir a certificação, então ficaram pelo caminho. Aquelas que estavam pela moda ficaram pelo caminho. Então a taxa de crescimento deu uma reduzida natural, porque crescer a uma taxa de 70% ao ano é muito agressivo, mas (a certificação) continua tendo busca por parte de empresas com uma maturidade maior: empresas de capital aberto, empresas que querem obter acesso a capital com investidores que exigem métricas da sua cadeia de valor, empresas incomodadas com o movimento de greenwashing (falsa política de sustentabilidade). Essas empresas têm um olhar de negócio por trás da certificação. A certificação endossa o propósito, mas também endossa o modelo de gestão. Então, vejo que essa maturidade foi mudando: sai de um público mais apaixonado pelo propósito, passa por um público com urgência e chega a um público agora mais maduro.

O selo ganhou bastante notoriedade e importância junto às empresas ao longo dos anos. O que explica isso?

Um dos diferenciais da certificação B é não olhar só para um pedacinho da empresa. Ela consegue atestar que a empresa está olhando para o todo, e com isso ela dialoga com stakeholders (partes interessadas) diversos. Ela vai atestar (compromissos) para um investidor que vai formar uma carteira e precisa decidir em que empresas investir. Com uma empresa que tem a certificação, ele tem um lastro de que aquele discurso é, de fato, auditado. Então, o fato de a certificação ter um olhar mais holístico faz com que isso agregue valor à empresa em diferentes estágios que ela tiver. Ao longo da jornada de certificação, a empresa vai tendo acesso a outros benefícios. A certificação é uma parte do processo, mas não é o fim. Toda vez que uma empresa inicia a sua jornada, ela inicia um processo de melhorias, começa a ter contato com outras empresas que estão nesse movimento. Esse senso de "eu faço parte de um grupo de empresas que está questionando as práticas de mercado e buscando criar uma economia mais inclusiva, habitativa e regenerativa" dá esse sentimento forte de pertencimento. Como é uma jornada longa, sempre que as empresas têm oportunidade, elas falam com muito orgulho que são "Empresa B", porque isso representa o cuidado delas em promover mudanças no mercado.

Ao todo, 338 empresas brasileiras são certificadas como “Empresa B”
Ao todo, 338 empresas brasileiras são certificadas como “Empresa B”
Foto: Sistema B/Divulgação / Estadão

O que as empresas do Brasil apresentam de diferencial ou vantagem competitiva frente aos outros países em relação à adesão aos pilares do Sistema B?

O Brasil foi um mercado pioneiro na parte de adesão de empresas maiores. O movimento é globalmente formado por empresas de pequeno porte: entre 80% e 85%, e começou a ter cada vez mais adesão de empresas grandes e médias. O Brasil, sem dúvida, foi o que puxou isso, muito em virtude da Natura. Com isso, outras empresas foram entrando também. Essa parte de influência, de comunicação, de relatórios, de transparência, de governança veio muito da herança do Brasil. Além disso, uma peculiaridade forte do País é que, como é um mercado muito grande e relevante economicamente, existem muitas empresas familiares que estão na passagem de bastão geracional. Essas novas gerações já chegam com esse olhar da sustentabilidade com métricas. Começamos a ter um crescimento desse perfil de público. Além disso, é muito forte no Brasil haver empresas que surgem como techs, com o objetivo de resolver problemas socioambientais. Essas empresas têm muito mais agilidade e geralmente nascem com um propósito muito forte.

Como o Movimento B viu a revogação, por parte da CVM, dos relatórios financeiros com padrões internacionais para as políticas de sustentabilidade?

Como as empresas de capital aberto que são certificadas não vieram recentemente e já têm um trabalho de longo prazo, temos um diálogo muito profundo com as suas lideranças. Nesse momento, o trabalho que fazemos com elas é interno, reforçando a importância de se posicionarem contrárias a essa revogação e continuarem publicando (os relatórios), independentemente de haver ou não obrigatoriedade. Não sinto que a procura por ser "Empresa B" seja impactada pela obrigatoriedade. O que eu sinto é, infelizmente, um movimento de retrocesso. Porque, sem dúvida, essa transparência é necessária, e toda a regulamentação eleva um patamar, faz com que empresas iniciem a busca pelo ESG. Nós, de fato, lamentamos demais (a revogação).

Após a COP-30, há uma sensação de que o tema esfriou. Como a sra. tem visto isso e atuado junto às empresas?

Sem dúvida, nunca vimos uma movimentação de COP como essa nos anos anteriores. Com o fato de o evento ser no Brasil, todo mundo queria estar lá, falar sobre. E essa era uma das nossas maiores preocupações com o Movimento B: que houvesse uma profundidade de debate e não fossem lá só para "tirar fotos". De fato, a pauta esfriou no pós-COP. Mas a nossa forma de fazer com que essa pauta permaneça relevante nos negócios é mostrar que ela tem um papel estratégico de diferenciação de mercado e de estratégia integrada. Que a empresa tem a ganhar dinheiro, reputação e clientes, se ela entender que a ação climática está no centro, e não é só uma meta a ser cumprida por uma área específica da empresa.

Estamos também em um momento de ano eleitoral, com maior foco em outros temas. É esperado que isso interfira também no engajamento das empresas?

Para o mercado em geral, às vezes gera mais receio de falar sobre temas socioambientais em época eleitoral. Infelizmente, a polarização política em que vivemos gera uma associação equivocada de que uma empresa comprometida pode ser partidária. São coisas completamente diferentes. Nesse contexto do receio do greenwashing, às vezes, as empresas tendem a não comunicar aquilo que elas fazem, principalmente em momentos políticos mais intensos. Mas não é muito o perfil das empresas que estão no Movimento B. Elas já entendem o seu propósito como algo maior, e muitas delas, inclusive, atuam nisso de forma propositiva e com ativismo corporativo, querendo gerar essa provocação. Então, não vejo uma relação direta. Vejo que, talvez, algumas empresas específicas possam ficar mais quietas ou outras possam se manifestar mais, inclusive politicamente. Sempre defendemos que as empresas sejam empresas políticas, que promovam a democracia, mas sempre de forma apartidária, uma vez que têm uma responsabilidade ética junto a seus colaboradores. Somos uma organização que fomenta esse engajamento.

Quais são as principais prioridades do Sistema B para a próxima década, especialmente no Brasil?

O Brasil tem o potencial de ter muito mais empresas certificadas. O Reino Unido, que é muito menor geograficamente e menos diverso, tem 2,5 mil. O que vejo para os próximos anos são formações de alianças, principalmente com associações empresariais que já têm redes locais, para que elas comecem a entender o valor de uma gestão de impacto e, com isso, contribuam para esse crescimento. Essa cooperação é uma das nossas prioridades para escalar. Um outro caminho é começar a fazer com que essas empresas que já estão na rede sejam cada vez mais porta-vozes desse movimento, (com) formação de coalizões e coletivos, e que elas levem propostas que vão influenciar as mudanças em outras empresas e em políticas públicas, porque aí, de fato, o movimento cumpre o seu papel. Não somos um movimento certificador, somos um movimento de transformação. A certificação é uma forma de isso acontecer. O grande diferencial do movimento é a articulação, é ser ponte entre quem tem a solução e quem precisa de algo. Então, o que eu almejo para os próximos 10, 20 anos é que o movimento tenha um crescimento qualificado, com adesão de empresas comprometidas em transformar a sua cadeia como um todo.

Estadão
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