Empresa da Advent é investigada no Brasil por supostos vínculos com o crime organizado
A Caldic, uma distribuidora global de produtos químicos controlada majoritariamente pela empresa de private equity norte-americana Advent International, está sendo investigada no Brasil por supostamente abastecer uma vasta rede de contrabando de metanol, segundo a empresa e documentos oficiais consultados pela Reuters.
No ano passado, investigadores revelaram o que disseram ser um esquema de fraude de US$10 bilhões em postos de gasolina administrados pela maior organização criminosa do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC), que vendia metanol ilegalmente como combustível.
Segundo uma fonte diretamente envolvida na investigação, a Caldic era a principal fonte do metanol em análise.
Embora a polícia não tenha encontrado provas de que a Caldic ou a Advent soubessem que as vendas provavelmente estavam sendo desviadas, disse a fonte, a investigação liderada por promotores do Estado de São Paulo mostra como até mesmo investidores norte-americanos sofisticados podem se envolver com elementos criminosos que se infiltraram em amplos setores da economia latino-americana.
A Reuters é a primeira a noticiar que a Caldic, com sede na Holanda, está sendo investigada por supostos vínculos com o esquema de fraude de combustíveis orquestrado pela organização criminosa PCC.
A GPC Química, outra distribuidora, também está sob investigação por suas vendas de metanol, informou a Reuters em agosto, embora os volumes suspeitos sejam menores do que os da Caldic, disse a fonte.
Fundado há três décadas em um presídio de São Paulo, o PCC se tornou o maior grupo de narcotráfico da América do Sul, com um braço de lavagem de dinheiro que se infiltra cada vez mais na economia formal, abrangendo o setor imobiliário, o de startups de finanças e o de combustíveis.
O PCC tornou-se uma fonte de tensão diplomática, visto que os Estados Unidos (EUA) pressionam Brasília para que o classifique como grupo terrorista, como parte de uma estratégia regional para combater gangues transnacionais envolvidas em "narcoterrorismo".
Os promotores pretendem apresentar acusações no caso do metanol até junho e ainda estão avaliando a extensão e a natureza do papel da Caldic no esquema, disse a fonte, acrescentando que a empresa pode enfrentar um processo civil e os funcionários podem ser acusados criminalmente.
Questionada sobre a investigação criminal, a Caldic divulgou um comunicado de sua subsidiária brasileira, a Quantiq, afirmando que está cooperando com os investigadores e "está firmemente comprometida com os mais altos padrões de conformidade e integridade". No comunicado, a Quantiq afirmou que uma auditoria interna não encontrou nenhuma irregularidade por parte de sua administração.
A GPC Química, que nem confirmou nem negou estar sob investigação, disse à Reuters que conduz seus negócios "em estrita conformidade com a legislação e normativos vigentes."
A Advent, que regularmente está listada entre as dez maiores empresas de private equity dos EUA, não respondeu ao pedido de comentário.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informou ter aberto um "processo administrativo" para investigar as vendas de metanol da Quantiq. Documentos dessa investigação administrativa independente, agora sob sigilo, mostram que ela foi uma resposta à investigação criminal em curso e citam conclusões preliminares do Ministério Público, incluindo emails trocados entre funcionários da Quantiq e indivíduos ligados ao PCC.
Documentos da ANP mostram que o órgão regulador já restringiu as vendas de metanol da Caldic no Brasil e pode revogar a autorização da empresa para distribuí-lo.
O metanol, substância controlada no Brasil, é perigoso para veículos e letal para seres humanos. Desde 2024, a ANP responsabiliza os distribuidores pelo uso indevido do produto químico por seus clientes.
Um dos documentos da ANP de novembro, parte da investigação sigilosa do órgão regulador vista pela Reuters, afirma que quase um quarto das vendas de metanol da Quantiq levantaram suspeitas porque os compradores declarados, incluindo alguns ligados ao PCC, não estavam operacionais, não receberam as remessas ou não tinham um uso claro para os volumes comprados.
O documento alegava que a Quantiq não implementou os protocolos mínimos de conformidade, contribuindo para "a manutenção do comércio irregular de metanol, com potencial risco à saúde pública e ao regular fornecimento de combustíveis". A Reuters não verificou essas alegações de forma independente.
Em resposta a perguntas sobre as conclusões do documento, a Quantiq afirmou que não comentaria especulações, fontes não identificadas ou informações divulgadas seletivamente.
O Ministério Público de São Paulo se recusou a comentar detalhes da investigação em andamento, que está sob sigilo.
CONTRABANDO DE METANOL
Tanto o metanol quanto o etanol são fundamentais para a crescente indústria de biocombustíveis do Brasil. O metanol é utilizado em pequenas quantidades na produção de biodiesel, enquanto o etanol é amplamente utilizado como aditivo e substituto da gasolina em automóveis brasileiros.
O metanol muitas vezes está mais barato que o etanol, então os criminosos podem misturar os dois para aumentar os lucros com a venda de combustíveis, disse Carlo Faccio, diretor executivo do ICL, um grupo do setor criado para combater a fraude de combustíveis no Brasil.
Como parte do esquema bilionário de fraude de combustíveis e lavagem de dinheiro, alvo das autoridades em agosto, membros do PCC adquiriram metanol para adulterar o combustível vendido a distribuidores e postos de gasolina, afirmou o governo na época.
Entre os alvos dos mandados de prisão estavam duas pessoas que trabalharam por mais de uma década na Quantiq, subsidiária da Caldic, segundo documentos da investigação da ANP. Esses indivíduos, que não eram da alta administração, trocaram emails coordenando remessas de metanol com pessoas diretamente ligadas ao PCC, disse a fonte familiarizada com a investigação.
A empresa afirmou que sua própria auditoria não encontrou "indícios de envolvimento de representantes ou da gestão da companhia" no suposto contrabando de metanol, sem comentar mais sobre as alegações específicas. A Quantiq se recusou a fornecer a documentação da auditoria ou quem a realizou, e a Reuters não conseguiu verificar suas conclusões.
CARGAS DESAPARECIDAS
No ano passado, a Quantiq foi a segunda maior importadora de metanol do Brasil, atrás da GPC Química, segundo dados da ANP.
Documentos da investigação da ANP indicam que a Quantiq vendeu cerca de 190 milhões de litros de metanol entre janeiro e agosto do ano passado.
Centenas dessas remessas, importadas pela Quantiq através do porto de Paranaguá, no sul do Brasil, nunca chegaram aos compradores declarados, de acordo com dados de rastreamento financeiro analisados por funcionários da ANP em processo administrativo sigiloso.
A ANP descobriu que a Quantiq também enviou carregamentos de metanol para empresas que não estavam mais em operação ou que não tinham um uso claro para o produto.
Nos casos em que os clientes demonstraram uso, os funcionários da ANP constataram que vários compraram muito mais do que suas necessidades documentadas.
Por exemplo, a Quantiq vendeu cerca de 25 milhões de litros ao longo de oito meses para um comprador que informou à ANP em outubro que utiliza cerca de 630 mil litros de metanol por mês, segundo documentos da ANP. A Reuters não conseguiu apurar o que aconteceu com o restante.
Em novembro, a ANP proibiu a Quantiq de vender metanol enquanto investigava as questões apontadas pela investigação criminal do ano anterior. Na ocasião, a ANP já havia sinalizado uma investigação regulatória sobre problemas semelhantes em 2023, quando alertou a empresa para que reforçasse suas medidas de compliance.
Questionada sobre as últimas descobertas da ANP, a Quantiq afirmou que mantém procedimentos de conformidade e diligência prévia para seus clientes, "incorporando recomendações regulatórias".
Em fevereiro, o órgão regulador permitiu que a Quantiq retomasse algumas vendas de metanol para compradores específicos, com novas salvaguardas, até que emita uma decisão final com base em sua investigação administrativa em andamento.
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