Em telefonema com Trump, Lula reclama que tarifas são infundadas
Em telefonema com Donald Trump, o presidente Lula criticou as tarifas comerciais dos EUA sobre produtos brasileiros, chamando-as de infundadas. Trump concordou em retomar negociações técnicas na próxima semana. Apesar do tom cordial, Brasília vê poucas chances de recuo tarifário imediato em meio a tensões bilaterais, que envolvem suspeitas de interferência norte-americana nas eleições brasileiras. Os líderes também debateram o combate ao crime organizado e saídas para conflitos globais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou nesta sexta-feira com o presidente norte-americano, Donald Trump, informou o Palácio do Planalto, no primeiro contato entre ambos desde que os Estados Unidos decidiram adotar novas tarifas contra os produtos brasileiros.
De acordo com nota divulgada pela Presidência da República, no telefonema, de uma hora e 20 minutos, Lula questionou as novas tarifas, reafirmando que se baseavam em "alegações infundadas" e que afetavam negativamente tanto os consumidores brasileiros quanto os norte-americanos.
"O presidente Trump concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes dos dois países voltassem a se reunir o mais brevemente possível", diz a nota.
Na sequência da chamada, o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, entrou em contato com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, a pedido de Trump, para marcar uma reunião na semana que vem.
De acordo com o ministro, o dia exato será acertado na segunda-feira, mas a intenção é retomar as negociações, suspensas depois do anúncio das tarifas.
Apesar do tom classificado como amistoso e cordial por uma fonte presente à conversa entre Lula e Trump, e do resultado imediato do contato de Greer com Rosa, o governo brasileiro não vê em um futuro próximo uma possibilidade concreta de avanço na questão das tarifas.
"Até a eleição acho pouco provável alguma mudança em relação às tarifas", disse essa fonte. O tom, disse a fonte, foi de mostrar que o Brasil está aberto a retomar negociações a qualquer momento.
O governo dos EUA adotou em julho tarifas de 25% sobre cerca de 4 mil produtos brasileiros, de acordo com um levantamento feito pelo MDIC, o que equivale a cerca de 18% das exportações para aquele país.
A base da decisão norte-americana foi uma investigação sobre supostas práticas comerciais desleais, a chamada seção 301 da legislação comercial dos EUA, e que acusa o Brasil, entre outros pontos, de não controlar o desmatamento e dar vantagens ao Pix contra instrumentos de pagamentos norte-americanos.
Poucos dias depois, os EUA também aplicaram uma tarifa de 12,5% alegando uma legislação fraca para combater o trabalho forçado.
O Brasil rechaça todas as acusações.
Em outros momentos, conversas entre os dois presidentes levaram os EUA a incluírem mais produtos na lista de exceções e mexerem em questões como a aplicação da Lei Magnitsky ao ministro do STF Alexandre de Moraes.
Agora, disse a fonte, apesar de a relação dos dois presidentes continuar boa, há interferência direta de outros atores -- no caso, especialmente do Departamento de Estado, a quem o governo brasileiro atribui diretamente a tentativa de interferência nas eleições brasileiras.
"A chamada de hoje reabre um contato de alto nível, mas tem que ver quais vão ser os desdobramentos no segundo escalão", disse a fonte, que não acredita em uma mudança na postura do Departamento de Estado nas eleições.
Este foi o quarto telefonema entre os dois presidentes desde setembro de 2025, quando ambos se encontraram e conversaram brevemente durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, no que foi o começo de uma relação até então hostil.
Mas, desde aquele primeiro contato, esse é o momento mais difícil da relação Brasil-Estados Unidos. Não apenas pelas tarifas, mas pelo que o governo brasileiro vê como tentativas do Departamento de Estado de interferir nas eleições brasileiras.
Segundo a fonte brasileira, o pleito de outubro foi tratado apenas como uma cordialidade, com Trump comentando, no início da conversa, que sabia que haveria eleições este ano e "como estavam as coisas". Lula respondeu então que tudo estava correndo bem e que o processo eleitoral no Brasil é muito confiável.
Mas, nos últimos meses, a aproximação do Departamento de Estado com a oposição ficou clara. O senador Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário do presidente, foi recebido na Casa Branca por Trump, por interferência do secretário de Estado, Marco Rubio, que mais de uma vez fez manifestações contrárias a Lula.
Além disso, os EUA tentaram enviar ao Brasil dois funcionários do Departamento para "discutir o processo eleitoral" no país, incluindo na programação um encontro com Flávio Bolsonaro. Ambos tiveram o visto negado, o que levou o governo norte-americano a suspender, em parte, o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luisa Viotti.
Ao mesmo tempo, o governo brasileiro retém a aprovação da credencial de Daniel Perez, indicado para ser o embaixador dos EUA no Brasil e muito próximo de Rubio.
A postura do Departamento de Estado, disse a fonte, dificilmente mudará, e é provável que se mantenha a tentativa de interferir de alguma forma nas eleições brasileiras.
CRIME ORGANIZADO E GUERRA
No telefonema, segundo o Palácio do Planalto, os presidentes trataram também da cooperação que Lula quer com os EUA para combater o crime organizado e sobre as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.
Lula tem feito uma série de conversas com presidentes dos países membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas pedindo que ajam nessas questões, entre eles Vladimir Putin, da Rússia, e Xi Jinping, da China.
"O presidente Trump teceu considerações sobre as perspectivas de resolução do conflito com o Irã. O presidente Lula lamentou a inoperância do Conselho de Segurança da ONU e, a exemplo do que sugerira aos presidentes Xi Jinping e Putin, propôs a convocação de uma reunião extraordinária do órgão para encontrar saídas diplomáticas para as crises atuais", diz a nota do Planalto.
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