Copom: mercado vê interrupção no ciclo de corte da Selic, mas afasta chance de alta da taxa
Segundo analistas, resistir à pressão política por novos cortes de juros neste monento ajuda a preservar a credibilidade da política monetária
Após oito meses de quedas, o Copom interrompeu o ciclo de cortes e manteve a taxa Selic em 13,75%, reagindo à piora nas projeções de inflação e às incertezas fiscais. Apesar da pausa, o mercado afasta a chance de alta dos juros a curto prazo, apoiando-se nos sinais de desaceleração econômica e desaquecimento do mercado de trabalho apontados pelo Banco Central. Analistas preveem que a taxa deve permanecer estável por algum tempo, condicionando novos afrouxamentos ao futuro cenário fiscal.
Durou apenas oito meses a sequência de cortes dos juros básicos do País. Nesta quarta-feira, 4, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central interrompeu o ciclo descrito como de calibração dos juros, aberto em março, quando a Selic estava em 15%, e que, com cortes de 0,25 ponto a cada reunião do colegiado, levou a taxa para 13,75%.
O comunicado divulgado após a decisão desta quarta-feira evita antecipar o próximo passo. O Copom não indica se pode retomar os cortes, o que caracterizaria a decisão como uma pausa, e não como encerramento do ciclo. Mas também não sugere alta de juros, uma hipótese que analistas consideraram menos provável após a leitura de um texto que ressalta a desaceleração mais acentuada da atividade, menciona os primeiros sinais de desaquecimento do mercado de trabalho e descreve a Selic como "substancialmente contracionista".
As primeiras avaliações no mercado são de uma aposta de que os atuais 13,75% ficarão estacionados por algum tempo, à espera de alguma sinalização de qual será a política fiscal no novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A manutenção da Selic em 13,75% pelo Copom foi lida por economistas e analistas como uma resposta à deterioração do quadro inflacionário, no qual a projeção do Copom para a inflação no horizonte relevante, agora o segundo trimestre de 2028, subiu de 3,2%, da reunião de setembro, para 3,5%. Ficou, portanto, mais distante da meta central de 3%.
Resistir à pressão política por novos cortes de juros ajuda a preservar, conforme analistas, a credibilidade da política monetária. Para os economistas dos bancos Itaú e Citi, a comunicação amplia o grau de liberdade do comitê, ao passo que outros analistas, de casas como XP, Santander e Asset 1, ressaltam que o comunicado sugere pausa, sem cravar encerramento definitivo do ciclo de cortes, e que o BC procurou afastar o debate de alta.
Para 2027, as expectativas em comum apontam para uma Selic ainda restritiva, com eventual flexibilização condicionada à melhora do ambiente, em especial, ao desenrolar do quadro fiscal, citado por diferentes instituições como fator-chave para expectativas, prêmio de risco e câmbio. Há quem trabalhe com cortes ao longo de 2027, como Daycoval e Capital Economics, enquanto projeções explícitas indicam trajetória de queda moderada. O Barclays, por exemplo, vê a Selic em 12,25% ao fim de 2027.
Na KAT Investimentos, a economista-chefe Elisa Machado afirma que a manutenção da Selic favorece a reancoragem das expectativas de inflação e reflete um cenário que "mudou significativamente" nas últimas semanas, com piora da percepção de risco após o resultado das eleições. "Até recentemente, predominava a expectativa de continuidade do ciclo de cortes da Selic", lembra.
O economista-chefe da Asset 1, Luis Cezário, entende que o Copom estaria distante de considerar a necessidade de voltar a subir a Selic. Ele atribui a principal mudança ao cenário doméstico, citando o ceticismo do mercado com a possibilidade de um ajuste fiscal "crível" a partir de 2027. Ele também cita a avaliação de que o cenário externo se tornou mais adverso e menciona choques de oferta, como petróleo em patamar elevado, El Niño e o fim da jornada 6x1. Porém, pondera, a maior preocupação do comitê com a atividade ofereceu um contraponto, que sugere que a possibilidade de alta dos juros não está na mesa.
No Banco Daycoval, o economista-chefe Rafael Cardoso destaca que, embora haja mudanças no diagnóstico - com avaliação mais adversa do cenário externo e desaceleração doméstica ganhando força -, o texto traz "poucas sinalizações sobre os próximos passos", deixando em aberto o que pode ocorrer nas próximas reuniões.
O economista-chefe do Santander, Marco Antonio Caruso, afirma que o Copom não caracterizou a decisão como encerramento do ciclo de calibração nem sinalizou manutenção prolongada. Para ele, a deterioração do cenário inflacionário desde setembro foi relevante e o comunicado reforçou riscos vindos de petróleo, clima, câmbio e expectativas, incluindo potenciais efeitos de segunda ordem dos choques de oferta. "Isso reforça nossa leitura de que o aperto recente das condições financeiras não deveria ser interpretado apenas como desinflacionário", afirma.
Na XP, o economista-chefe Caio Megale avalia que o Copom sugere que a interrupção do ciclo "agora é necessária para conter pressões inflacionárias", mas "não vê necessidade de uma postura monetária ainda mais contracionista neste momento". Ele aponta que o cenário doméstico descrito no comunicado é "ambíguo para a política monetária", com desaceleração mais forte de um lado e aceleração das medidas subjacentes e expectativas mais distantes da meta, de outro.
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