Copom cita em ata incerteza com guerra e deixa ciclo de cortes dos juros em aberto
Comitê reforçou que passos futuros poderão incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio
BRASÍLIA - A magnitude e a duração do ciclo de calibração da Selic serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações sejam incorporadas à análise, afirmou o Comitê de Política Monetária (Copom) na ata de sua mais recente reunião. O colegiado reforçou estar mantido o compromisso fundamental de garantia da convergência da inflação à meta dentro do horizonte relevante para a política monetária.
"Essa decisão é compatível com o cenário atual, no qual a duração e extensão dos conflitos geopolíticos, assim como sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica e seus efeitos sobre o nível de preços, dificultam a identificação de tendências claras", disse, no 15º parágrafo da ata. O documento foi divulgado nesta terça-feira.
Na última quarta-feira, 18, o Copom reduziu a Selic de 15% para 14,75% ao ano, o primeiro corte da taxa após quase dois anos.
Na ata, o colegiado ponderou que considerou que os eventos recentes não impediriam a materialização da sinalização dada na reunião de janeiro, de que começaria o ciclo de calibração da taxa básica de juros, baseado nas evidências dos impactos da política monetária sobre o nível de atividade e sobre a inflação. Diante disso, detalhou que foram analisadas as opções para o ritmo de início do ciclo, concluindo que nesse momento a redução de 0,25 ponto porcentual seria a mais adequada.
O Copom também relembrou que a sinalização dada em janeiro foi de que a calibração da política monetária manterá seu caráter restritivo, de modo a assegurar a convergência da inflação à meta.
Passos futuros
O Copom reforçou que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros poderão incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo, diante do "forte aumento da incerteza".
O colegiado não explicitou qual deve ser o ritmo de "calibração" da Selic, nem qual o orçamento total para cortes da taxa básica de juros.
Na ata publicada nesta terça-feira, o colegiado também reafirmou que, em meio ao "forte aumento da incerteza", irá conduzir o processo de calibração com "serenidade e cautela" e enfatizou que a decisão de reduzir a Selic é compatível com a estratégia de convergência da inflação para ao redor da meta ao longo do horizonte relevante. "Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego", emendou.
O Copom repetiu as projeções para a inflação já apresentadas no comunicado. O colegiado prevê alta de 3,9% para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2026 e 3,3% no terceiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante da política monetária — ligeiramente acima do centro da meta, de 3,0%. Para os preços livres, projeta altas de 3,7% em 2026 e 3,3% no terceiro trimestre de 2027. Para os administrados, prevê altas de 4,3% e 3,2%, respectivamente.
Todas as projeções partem do cenário de referência, com trajetória de juros do Relatório Focus (publicado em 16 de março) e bandeira amarela de energia elétrica em dezembro de 2026 e 2027. A taxa de câmbio começa em R$ 5,20 e evolui conforme a paridade do poder de compra (PPC). Os preços do petróleo seguem aproximadamente a curva futura por seis meses e, depois, sobem 2% ao ano.