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Comportamento 'grosseiro' de Milei não afeta comércio com Argentina, diz ministro do Desenvolvimento

Segundo Márcio Elias Rosa, por pior que tenham sido as atitudes do presidente argentino, a relação comercial entre os países continuará a existir e precisa ser intensificada

14 ago 2026 - 12h12
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BRASÍLIA - O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, minimizou as tensões diplomáticas entre Brasil e Argentina desencadeadas por declarações recentes feitas pelo presidente argentino, Javier Milei, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo Márcio Elias, o comportamento de Milei não afeta a relação comercial entre os dois países.

No fim de julho, Milei veio ao Brasil para participar da convenção nacional do PL, em São Paulo, que formalizou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. Na ocasião, o presidente argentino chamou o presidente Lula de "presidiário". Dias depois, ele proferiu novas ofensas, chamando Lula de "ladrão" e "corrupto". "É um ladrão, é um corrupto, foi condenado por ser ladrão e corrupto, ficou preso, por isso também é verdade o que disse sobre ser presidiário", afirmou. Milei alegou ainda que Lula teria sido libertado por uma "falha administrativa do processo" e não por ser inocente.

"Por pior que tenha sido o comportamento do presidente argentino, por mais inconveniente que ele tenha sido, ou no mínimo grosseiro, mal educado, não afeta a relação comercial, que precisa existir", disse o ministro da Indústria em entrevista ao Estadão/Broadcast. "Eu não dou para aquele episódio uma dimensão econômica ou comercial. Fica restrito ao plano político", completou.

Argentina e União Europeia (UE), ao lado da China e dos Estados Unidos, são os principais parceiros comerciais do Brasil. O país sul-americano foi o destino de 3,98% das exportações brasileiras no primeiro semestre deste ano e foi a origem de 4,49% das importações feitas.

Márcio Elias Rosa também comentou sobre a distribuição do excedente da produção chinesa no Brasil, argumentando que o mundo todo sofre esse efeito, pois nenhum país é capaz de acompanhar a China. "Não há muito o que o governo fazer. É uma lei do mercado", sustentou.

Leia a seguir os principais pontos da entrevista:

Muitos setores nacionais reclamam da competição supostamente desleal com a China. Como o MDIC age nisso sem ser protecionista?

Nós triplicamos o número de processos de antidumping, inclusive com relação à China. Um tratamento discriminatório da China nós não adotamos. Ou seja, seria fazer o mesmo que os Estados Unidos têm feito conosco em relação à China. Isso não podemos fazer, não faremos, pois isso não se admite. Na Índia (em missão oficial em que o ministro esteve na semana passada), entre os países do Brics, há um consenso de que ninguém consegue acompanhar a produção da China. E quando há uma retração do mercado interno (chinês), todo mundo sofre a consequência, porque ela distribui, ela despeja a produção no mundo inteiro. E a um custo sempre muito baixo, não necessariamente com dumping. Então, ela consegue ser competitiva em todos os continentes. Isso é muito difícil. O mundo inteiro está sofrendo esse efeito, não é apenas o Brasil. E os setores que reclamam aqui têm razão para reclamar, porque eles estão, de fato, perdendo o mercado. Mas não há muito o que o governo fazer. É uma lei do mercado. A China tem excesso de produção e despeja a um preço mais competitivo. O ideal é que nós tivéssemos também uma produção maior, fôssemos mais competitivos.

Como o MDIC tem atuado nas restrições à carne brasileira pela China e também pela União Europeia?

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) é que vem liderando essas duas discussões. Eu pessoalmente falei com o ministro da China, para tentar remover. A cota (porcentual livre de sobretaxa para cada país exportador de carne bovina para o país asiático) que o Brasil tem é o dobro da de outros países. Mas ainda assim é muito abaixo daquilo que a gente exportava historicamente. Neste ano, já estamos conseguindo quase toda a cota, e vamos começar a discutir o ano que vem já. Eu tenho falado com o ministro André (de Paula), do Mapa, que tem liderado a discussão, junto com o Ministério das Relações Exteriores.

A queda das exportações do Brasil para a Argentina pode ser atribuída a essas tensões diplomáticas?

Mesmo em queda, o saldo comercial continua positivo (para o Brasil). Não tem relação com evento recente. Tem relação com a condição econômica da Argentina. É triste o número de empresas que fecham na Argentina e consumiam parte dos insumos que a gente exportava. Assim como os EUA, a Argentina é um destino de bens manufaturados, para o Brasil, é uma pauta mais de valor agregado. A gente olha com muita preocupação. Mas a verdade é que a Argentina não vai bem na economia, já há algum tempo e isso se reflete nesse recuo do comércio exterior. E há um outro detalhe: ela sofre o mesmo problema que o mundo, que é a invasão de produtos chineses.

Mas isso pode se aprofundar em razão das questões do presidente argentino em relação ao presidente Lula?

Não creio. São relações de empresa para empresa. Por pior que tenha sido o comportamento do presidente argentino, por mais inconveniente que ele tenha sido, ou no mínimo grosseiro, mal educado, não afeta a relação comercial, que precisa existir, e que deve existir, a gente tem de intensificar. Eu não dou para aquele episódio uma dimensão econômica ou comercial. Não tem. Fica restrito ao plano político. E a gente tem de trabalhar para remover qualquer distância, qualquer diferença. Se a América do Sul for bem, todos irão bem, o Brasil vai bem. E se o Brasil puder puxá-los, como tem sido nesses últimos três anos, sobretudo, tanto melhor. O que importa nessa relação, no final das contas, sob o ponto de vista econômico e comercial, é o resultado. Isso é que tem valia na relação.

Que balanço o sr. faz desse tempo no MDIC e o que espera para o futuro?

Eu espero que a indústria mantenha algum nível de crescimento. A produção industrial cresceu mais do que crescia nos últimos anos. O Brasil teve o sexto maior crescimento no mundo de produção industrial.

O que falta para a indústria ter o vigor do agro?

Falta os juros caírem. Nós teríamos de ter um Plano Indústria, como tem o Plano Safra. O agro é fundamental para o Brasil, ele adquiriu uma competitividade, uma qualidade que nenhum outro país tem. Não é à toa que ele puxa a economia do Brasil, é notável e é bom que seja assim. Mas não precisa ser só ele. A indústria deveria também seguir por esse caminho. Para isso, ela precisaria contar com alguns instrumentos. Só agora, de três anos para cá, foi que o BNDES retomou, por exemplo, o seu protagonismo. Só agora, de três anos para cá, o Brasil passou a investir em pesquisas e inovação. Vou dar um exemplo: em 2023, a gente estava emplacando 1,6 milhão de veículos por ano. Este ano nós vamos fechar com mais de 3 milhões. Então, o que eu espero até o final do ano é que a indústria conserve o seu crescimento, que o comércio exterior confirme as projeções positivas, sendo o terceiro ano de recorde seguido. Que os juros caiam e todos nós sejamos felizes. Também espero que a gente consiga aprovar no Congresso Nacional essas reformas, por exemplo, o ReData (Regime Especial de Tributação para Data Centers). Aquela regulamentação da inteligência artificial acho que seria fundamental que fosse aprovada. No ano que vem começa a reforma tributária, que desonera investimento e exportação. A chave do Brasil desenvolvido neste século passa pela regulamentação de minerais críticos e pela inteligência artificial, sem repetir os erros do passado. Mineral crítico não é só insumo, não é só commodity, precisa beneficiar minimamente aqui. E a IA, sobretudo generativa, precisa ser feita aqui, em português, com dados do Brasil. Porque senão, como diz o Aloizio Mercadante (presidente do BNDES), você vai perguntar à inteligência artificial quem inventou o avião, ele vai falar que foram os Estados Unidos.

Estadão
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