Como as herdeiras do agro encaram os desafios da sucessão
No Summit Mulheres nas Profissões, empresárias compartilharam trajetórias e apontaram caminhos para o futuro do agronegócio com mais mulheres na linha de frente
As trajetórias de três líderes do agronegócio mostram que assumir um negócio familiar nem sempre significa herdar uma empresa pronta. Priscilla Nasrallah, cofundadora da Lina Frutas, Alessandra Zanotto Costa, sócia do Grupo Zanotto, e Aline Telles, presidente executiva do Grupo Telles, compartilharam suas histórias de sucessão no palco do Summit Mulheres nas Profissões nesta quarta-feira, 5.
Produtora de frutas em Petrolina (PE), Priscilla afirmou que a entrada no negócio aconteceu por vocação. "Eu herdei a terra, mas não herdei a empresa", contou aos risos. O processo de sucessão é feito ao lado do irmão. "Quando conheci a terra, foi um chamado", relembrou.
No oeste da Bahia, Alessandra disse que voltou para a fazenda após o pai adoecer, abandonando os planos de seguir carreira em arquitetura. No entanto, reconhece que a sua história poderia ter sido diferente caso tivesse um irmão homem. "Falo para o meu pai: para sua sorte, você não tem escolha", brincou.
De acordo com a empresária, a entrada na companhia, há duas décadas, marcou uma mudança de rumo baseada na profissionalização e no fortalecimento da governança.
Já a representante da quinta geração da família Telles, grupo cearense que completou 180 anos, Aline lembrou que sempre quis trabalhar ao lado do pai, mas precisou encontrar o próprio propósito.
Após a venda da tradicional marca de aguardente da família, a Ypióca, o grupo concentrou os negócios em embalagens, água mineral e agronegócio. A maternidade foi determinante para repensar seu papel na empresa e assumir a liderança do grupo.
"Com a maternidade achava que estava lá (na empresa da família) só por ser 'sucessora'. Comecei a questionar o que queria. A maternidade me fez repensar", disse.
'O agro se comunica muito mal'
Ao discutir os desafios do agro brasileiro, as executivas elencaram os eventos climáticos, a geopolítica e a escassez de mão de obra como as grandes barreiras do atual contexto nos negócios.
Priscilla avaliou que a fruticultura depende de trabalho manual e enfrenta dificuldades para contratar profissionais qualificados. Como grande parte da produção é exportada, o setor também lida com barreiras comerciais.
Porém, um dos principais problemas está na comunicação, observou. "Quando falo de sustentabilidade, bato no peito. Mas o agro se comunica muito mal", afirmou, ao ponderar que o setor não divulga tão bem os avanços tecnológicos e ambientais da produção brasileira.
Na cotonicultura, Alessandra ressaltou que o Brasil se tornou o maior exportador mundial de algodão graças à inovação. O trabalho do produtor não se limita mais "dentro da porteira" e agora entra fatores externos, como disputas geopolíticas e a concorrência das fibras sintéticas, contextualizou. "O agro do Brasil precisa ser motivo de orgulho para os nossos governantes", disse.
Acompanhando a premissa do evento de alcançar 50% de mulheres no alto escalão, as três painelistas também defenderam maior participação feminina no campo. Alessandra disse nunca ter encarado a questão sob a ótica do machismo e afirmou que os homens devem entrar no debate.
Já Aline destacou que o pai abriu espaço na empresa e que hoje a maior parte das gerências industriais e diretorias é ocupada por mulheres, inclusive em funções tradicionalmente masculinas, como a operação de empilhadeiras.
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