Cliente do Will Bank ‘perde’ dinheiro reservado para pós-cirúrgico do pai após liquidação extrajudicial; veja outros relatos
Ao Terra, consumidores da instituição relataram que perderam o acesso ao saldo, contas e até investimentos feitos no banco
Clientes do Will Bank enfrentam dificuldades devido à liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central, afetando acessos, pagamentos e investimentos; especialistas recomendam acionar o FGC para resgatar valores protegidos.
Um costureiro de 25 anos ‘perdeu’ o dinheiro que tinha reservado no Will Bank para usar no pós-cirúrgico do pai, de 73, após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial da instituição financeira, ligada ao Banco Master.
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A Will estava em Regime de Administração Especial Temporária (Raet) desde novembro do ano passado, quando foi decretada a liquidação do Banco Master. Nesse regime, as atividades da instituição não são suspensas nem interrompidas.
No entanto, enquanto uma solução era negociada, a Mastercard anunciou que parou de aceitar compras feitas por cartões de crédito da companhia após descumprimento das grades de pagamento. Isso tornou a liquidação "inevitável" por causa do esgotamento de recursos do Will, conforme o BC.
Ao Terra, o rapaz que não quis se identificar, contou que tem a conta há dois anos e nunca teve problemas. No final da última semana, seu pai realizou uma cirurgia no fêmur, devido a um desgaste, e precisou colocar uma prótese. A quantia de R$ 1.500 estava em sua conta do Will para gastos que pudesse ter no pós-operatório do idoso, como remédios e uma cuidadora.
“Acontecendo isso, deixa a gente meio que na mão. Aqui é só eu e ele, ficou meio que complicado agora. A gente não sabe para onde correr, não sabe o que vai fazer”, desabafa. “A cabeça aqui está a mil pensando se dá para fazer algo”, complementa. O costureiro afirmou ainda que passou dinheiro de cartão de amigos para poder ter algo nesse processo pós-cirurgia. “Vou ter que me virar para pagar”.
Comerciantes prejudicados
Quem também ficou na mão foi a comerciante Shirley Maria Napoli Aires, de 41 anos, moradora da Zona Norte de São Paulo. Ela conta que a última vez que conseguiu mexer no aplicativo do banco foi na noite de terça-feira, 20, quando fez um Pix para sua manicure.
Ela relata que fez um pedido para seu fornecedor de lingerie, no dia seguinte, mas já não conseguiu realizar o pagamento. Quando publicou nas redes sociais perguntando se mais alguém estava com problemas nas transferências de instituições, outras pessoas afirmaram estar passando pelo mesmo.
“Ainda estava mostrando o saldo na conta e, depois de um tempo, não mostrou mais”, afirma. “Deixou bastante trabalhador revoltado, clientes minhas também que usam a conta para receber o salário, alguns empreendedores também me procuraram, está bem complicado”, destaca. Ela tinha pouco mais de R$ 1 mil na conta.
Clientes ‘perderam’ investimentos
Uma química, de 39 anos, que também preferiu não se identificar, contou que o que a levou a abrir uma conta no Will foi que o CDI (Certificado de Depósito Interbancário) --um título que os bancos emitem quando fazem empréstimos diários entre si para garantir seu caixa positivo-- rendia na época 230%.
“A gente colocou lá R$ 5 mil e deixou rendendo. Felizmente, não era um dinheiro de uma conta emergencial, dinheiro de necessidade básica. A gente colocou lá porque realmente rendia bem no CDI e eu nunca fiz movimentação. Esse dinheiro ficou lá um ano, até que ontem a gente soube da liquidação. E, no primeiro momento, eu fiquei bastante perdida até conseguir entender o que a gente tinha que fazer”, explica.
Uma moradora de Curitiba (PR), de 30 anos, também foi atraída pelo banco por causa de investimentos que pagavam uma taxa maior. Ela colocou cerca de R$ 8 mil em CDB (Certificado de Depósito Bancário) --um título de crédito privado emitido pelos bancos para captar investimentos-- já no fim de 2024, por meio de outro banco, porque o Will pagava 125%.
“Rendeu um pouco acima disso [valor investido] porque não tem tanto tempo assim o vencimento era 2030. Mas agora é entrar com o processo no FGC [Fundo Garantidor de Créditos]. Eu já tinha um outro CDB do Banco Master que já está na fila para pagamento. De alguma forma, também tive uma segurança de investir mesmo sendo um risco maior porque tem a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito”, destaca.
A reportagem procurou o Will Bank, mas a instituição afirmou que não vai se manifestar sobre o caso.
O que fazer agora?
Stefano Ribeiro Ferri, advogado e especialista em Direito do Consumidor, explica que após a decretação da liquidação, o Banco Central determina que a instituição envolvida envie ao FGC a base oficial de dados, com a relação de clientes, saldos e produtos cobertos.
É a partir dessas informações que o Funda apura quanto cada CPF ou CNPJ tem direito a receber. Também é informado o cronograma e a forma de recebimento dos clientes. Caso os portadores das contas notarem algum valor incorreto, é possível contestar.
“O cliente consegue comprovar seus saldos reunindo toda prova documental disponível: extratos bancários e de investimentos, comprovantes de aplicações, contratos, faturas, e-mails do banco e até capturas de tela do aplicativo”, afirma. É importante que o consumidor acompanhe exclusivamente nos canais oficiais do FGC.
Ferri afirma que, mesmo com o banco fora do ar, o cliente tem direito à informação clara, acesso aos seus dados e preservação do patrimônio. "A indisponibilidade total do app, Pix e saques não elimina obrigações do banco nem suspende direitos do cliente", aponta.
Portanto, aqueles que encontrarem dificuldade em acessar os dados de suas contas, podem fazer uma reclamação nos canais oficiais do Banco Central.