CEO da Siemens Healthineers: Não ter saúde integrada é 'enxugar gelo' e ter paciente fora do mercado
Diretora da companhia de medicina diagnóstica no Brasil, Adriana Costa defende IA, práticas sustentáveis e maior integração entre diversos setores da saúde para tratamentos otimizados e reinserção mais rápida de pacientes à vida produtiva
Para a executiva Adriana Costa, diretora da alemã Siemens Healthineers no Brasil, "tempo é ouro" na jornada de um paciente rumo a um diagnóstico precoce e a um tratamento que amplie as suas chances de cura e reinserção ao mercado. E para que esse tempo seja otimizado, ter acesso a uma cadeia sustentável de equipamentos, ao uso de Inteligência Artificial (IA) com integridade e a uma política de diálogo integrado entre diversos setores da saúde é fundamental.
Conjugar essas estratégias no País é o que tem buscado a companhia, explica a executiva em entrevista ao Estadão. A empresa é especializada em equipamentos de medicina diagnóstica, desde aparelhos para exames de raio-X até os de ressonância magnética, e registrou globalmente o faturamento de € 22,3 bilhões no ano fiscal de 2024 (o faturamento relacionado à subsidiária brasileira não foi relevado).
Nos últimos anos, o da empresa tem buscado produzir equipamentos mais eficientes tanto em diagnósticos quanto em sustentabilidade, como uma linha de aparelhos de ressonância magnética que consome menos hélio líquido (apenas 0,7 litro durante a vida útil do aparelho, enquanto equipamentos convencionais exigem reabastecimentos regulares de até 1,7 mil litros) e usa IA para aprimorar imagens, diminuindo em 40% anualmente o uso de energia, ao reduzir o tempo de exame e a necessidade de repetições.
A mesma eficiência é buscada no trabalho integrativo com outras instituições. No Brasil, a companhia tem mantido desde o ano passado uma parceria com unidades públicas e privadas para integrar dados no aplicativo Galileu Saúde, em São Paulo. O sistema, que permite atendimento via teleconsulta e disponibiliza informações compartilhadas entre as unidades ambulatoriais participantes, usa algoritmos de IA para analisar grandes quantidades de dados dos pacientes, para identificar padrões e ajudar em diagnósticos precoces.
No balanço do primeiro ano do projeto, entre os 570 mil pacientes monitorados, houve redução de 41% em idas ao pronto-socorro e menos 35% de internações hospitalares. De acordo com Costa, a integração entre as unidades, que ainda é incipiente no Brasil, é uma de suas lutas, uma vez que ela promove a sustentabilidade ao diminuir o deslocamento em trânsito dos pacientes, facilita o acesso à saúde em locais mais remotos, desonera a rede hospitalar e ajuda que as pessoas estejam saudáveis para a atuação no mercado de trabalho.
"Quantas pessoas estão no sistema de saúde com tratamentos paliativos ou que poderiam ter sido evitados… Estamos enxugando gelo, enquanto não trabalharmos com prevenção", diz. "Enquanto olharmos o sistema de uma forma fragmentada, não vamos chegar a um ecossistema que seja cada vez mais eficiente. Por isso, esse olhar integrado é tão vital para processos que vão criar jornada do paciente de uma forma mais produtiva."
Abaixo os principais trechos da entrevista:
A Siemens Healthineers possui planta no Brasil, mas a maioria dos produtos é importada. Como é o trabalho com as emissões dos transportes?
Nós não temos no Brasil fábricas de reagentes e de máquinas de análises clínicas, por exemplo. Então, temos a preocupação com todo o processo de reduzir os transportes aéreos, usando os marítimos, para ter uma cadeia cada vez mais responsável. E não só na parte de transporte. Hoje, há uma preocupação muito grande da Siemens, quando pensa em uma tecnologia, desde a sua concepção até a chegada na instituição de saúde, em pensar nesses produtos de forma sustentável.
De que forma?
Na parte de ressonância magnética, por exemplo, um dos grandes ofensores de consumo de recursos naturais é o hélio, que é colocado dentro de uma ressonância ao longo da sua vida útil, de 10, 15 anos. Nós desenvolvemos uma tecnologia na ressonância magnética chamada Magnetom Flow, que utiliza somente 0,7 litro de hélio (para toda a vida do aparelho). Há outras vantagens da tecnologia, como uma imagem cada vez mais acurada, a utilização de IA para combinar dados de uma forma muito mais eficiente, o exame que dura menos tempo, para que a instituição não tenha que comprar mais ressonâncias do que o necessário.
E como isso ocorre na parte de eficiência energética, visto que são produtos com alto consumo de energia?
Na cadeia, trabalhamos com desenvolvimento de tecnologias que façam utilização de menor consumo energético. A visão 360° é para toda a cadeia, desde ter equipamentos que facilitem a leitura de exames para um radiologista, diminuindo a repetibilidade, até mesmo (aperfeiçoar) outros equipamentos como os de radioterapia. Por exemplo, hoje os protocolos de um tratamento de radioterapia no Brasil têm de 25 a 26 sessões, a partir do diagnóstico de câncer. Desenvolvemos uma tecnologia que reduz a quantidade de sessões para entre 10 a 12. O que isso tem a ver com a sustentabilidade? Tudo. Além de promover uma melhor experiência do paciente, com menos trânsito de ida até o hospital, esse hospital tem maior produtividade e menor emissão de energia. É um trabalho no qual olhamos a cadeia como um todo.
A sra. mencionou o uso da IA. Então, a empresa está utilizando esse mecanismo a serviço dessa proposta sustentável?
Totalmente. Na saúde, é fácil falar dos desafios, porque eles são inúmeros. (No tema da saúde preventiva), uma mulher já diagnosticada com câncer de mama no estágio 1 e 2 tem uma taxa de cura de mais de 70%. Mas, hoje, quando uma mulher chega no serviço público ou até mesmo no privado, chega com um câncer acima do estágio 3. Isso onera enormemente o sistema de saúde, porque se vai trabalhar com tratamentos paliativos e não tratamentos que vão reinserir essa mulher, inclusive, no mercado de trabalho para gerar renda. No G-20, falamos muito com os grupos de diversidade sobre como ligar a saúde preventiva aos dados econômicos e de sustentabilidade. Sabemos que um grande gargalo nessa jornada do paciente é o tempo. Tempo é ouro para esse tipo de diagnóstico. Só que temos um sistema de dados extremamente fragmentado. O Einstein tem a sua base de dados, o Fleury tem a sua base de dados, o SUS tem uma base de dados, as Santas Casas têm uma base de dados, mas isso não integra os dados para uma interoperabilidade que poderia facilitar uma jornada integrada (ou que permitiria) acoplar os resultados dos exames em qualquer aplicativo, independente da instituição. Hoje, há uma concepção das instituições de que o paciente é sua propriedade, mas o paciente cada vez mais tem que se empoderar da sua vida. É aí que entra a tecnologia a favor disso.
Como isso é feito na Siemens Healthineers?
Por meio da IA, temos um projeto com municípios de São Paulo de interconectividade, com um parceiro, o Galileu Saúde, para fazer a jornada integrada desse paciente, para que ele tenha diagnósticos cada vez mais precoces e para fazer o monitoramento dessa jornada, para reduzir fila e reduzir exames replicados de forma desnecessária.
Como é feita a segurança desses dados?
Hoje, o nosso grande propósito é levar acesso e soluções de saúde a todos e em todos os lugares de forma sustentável, desde o momento da concepção de uma ideia de um produto até a entrega dele. E nosso comitê de sustentabilidade olha as métricas e a evolução do tema ambiental, as várias ações voltadas para o campo social, e toda a parte da governança não só das nossas práticas de integridade, de compliance legal, mas também de data privacy (privacidade de dados) e cyber security (segurança cibernética). Há uma organização de data privacy que cuida de todos os processos que temos no Brasil e na América Latina, para que tenhamos garantia de que tudo o que façamos em termos de transferência de conhecimento de dados seja totalmente suportado pela lei da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).
Há alguma preocupação, por exemplo, de esse diagnóstico ser de algum modo prejudicado ou enviesado, pela IA?
A medicina, hoje, vem falando muito sobre personalização. Há uma potencialidade da IA para ajudar na personalização sem a massificação, desde que tenhamos garantia da governança apropriada para ver esses dados de uma forma inteligente. E isso garante também um outro ponto. Hoje, a área da saúde já tem escassez de mão de obra qualificada. Como a IA pode dar suporte a isso? Ajudando os profissionais de saúde, por exemplo, a terem esses exames cada vez mais simplificados. A máquina vai substituir o humano? Não vai. Ela vai ser uma grande auxiliadora para ver essa personalização de uma forma escalável. Eu não consigo fazer pesquisa de desenvolvimento em cada micropopulação. Então, nesse ponto, a combinação de dados de forma responsável favorece diagnósticos cada vez mais precisos. Sempre falo que a tecnologia precisa ser uma auxiliadora, uma impulsionadora da resolutividade dos problemas, e não o contrário. E ainda vemos muita resistência, inclusive dentro da área (de medicina), para essa utilização.
Quando falamos em medicina diagnóstica, imediatamente pensamos nos custos altos de máquinas e exames, e o acesso à saúde também é um marcador social. Como o mercado tem se preocupado em diminuir essas lacunas?
Felizmente eu vejo uma mudança, ainda que lenta. Sou do time que olha o copo meio cheio, com o potencial que temos de olhar a cadeia, não mais como um custo isolado. Quantas pessoas que estão no sistema de saúde com tratamentos paliativos ou que poderiam ter sido evitados... Estamos enxugando gelo, enquanto não trabalharmos com prevenção. A saúde já representa 10% do PIB. Nos Estados Unidos, está batendo 18% do PIB e está engargalado no sistema. Então, eu preciso entender o custo de um equipamento, a eficiência desse equipamento. Preciso saber que esse equipamento eficiente em um tratamento de um paciente vai impedir que ele volte para o sistema e fique orbitando nele, e dragando custos com medicamentos, com quimioterapia. No caso de um AVC (acidente vascular cerebral), não é só a questão da mortalidade, é da comorbidade posterior ao AVC. Esse paciente, muitas vezes, fica improdutivo no sistema e ele acaba onerando o sistema de saúde previdenciário.
Pela sua análise, então, a falta de um trabalho mais preventivo é algo que acaba impactando a economia?
Quando eu falo que vejo uma mudança é, por exemplo, o público e o privado conversando. Enquanto olharmos o sistema de uma forma fragmentada e sob a perspectiva de um grupo, não vamos chegar a um ecossistema que seja cada vez mais eficiente. Por isso, esse olhar integrado é tão vital para processos que vão criar jornada de paciente de uma forma mais produtiva e mais inteligente, que impacta na cadeia de custo diretamente. Com inteligência de dados e economia, podemos medir a eficiência sobre o quanto colocar uma hemodinâmica (especialidade que trata problemas cardiovasculares) em uma região vai fazer com que caiam os índices de mortalidade e de comorbidades por AVC. Temos dados para isso, e os levamos para as prefeituras, para as Santas Casas, para o Ministério da Saúde, sempre pensando em programas integrados entre a saúde suplementar e a pública.
É um trabalho de advocacy (defesa)?
Total.
A Siemens Healthineers tem encontrado pares no mercado com essa visão?
Temos visto essa mobilização. Eu participo de muitos fóruns com outros CEOs, tanto das instituições públicas quanto das privadas. Transito pelas associações de saúde, sou conselheira da Abimed (Associação Brasileira da Indústria de Tecnologia para Saúde), em que discutimos muito sobre como tornar a saúde mais eficaz. Então, eu já estou na área de saúde há mais de 15 anos, e vejo, felizmente, uma evolução. Ela está vindo pela dor, porque estamos vendo agora mais um fato: os impactos das mudanças climáticas na saúde. Essa é uma outra pauta sobre a qual estamos conversando. O custo disso chega imediatamente para a área da saúde.
Já chegou?
Já. Uma tragédia, por exemplo, como a do Rio Grande do Sul, impacta tragicamente na mudança das comorbidades daquela região ou nas doenças respiratórias relacionadas ao clima. Já vimos impactos imediatos dentro da saúde, fazendo um sistema que já apresenta uma falta de sustentabilidade financeira agravar ainda mais esses índices. Então, por que falamos tanto de sustentabilidade no setor? Porque nós (como empresa) também somos responsáveis por isso. Senão, também estamos contribuindo para o que queremos evitar, que é o aumento dos custos da saúde. Então, sim, há uma mobilização. Precisamos cada vez mais sair do discurso para a prática.
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