Casa Bahia tem prejuízo de R$ 10,1 bilhões e avalia pedir recuperação judicial
Varejista fecha 298 lojas e demite 1,9 mil funcionários em meio à reestruturação; prejuízo ajustado sobe 76%, para R$ 978 milhões
A Casas Bahia registrou prejuízo líquido contábil de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre, fortemente afetado por efeitos não recorrentes, enquanto o prejuízo ajustado ficou em R$ 978 milhões, alta de 76,2% em um ano. Em meio à deterioração dos resultados, a varejista fechou 298 lojas, reduziu o quadro de funcionários e admite avaliar uma nova recuperação extrajudicial ou até um pedido de recuperação judicial.
Apesar do aumento do prejuízo ajustado, a receita líquida cresceu 1,6% na comparação anual, para R$ 6,98 bilhões, e o volume bruto de mercadorias (GMV) avançou 0,5%, para R$ 10,51 bilhões. Nas lojas físicas, porém, o GMV caiu 3,2%, para R$ 6,08 bilhões, refletindo o processo de redução da operação.
Segundo a empresa, o movimento é impulsionado por um "ambiente macroeconômico desafiador para o varejo brasileiro de bens duráveis, caracterizado por elevado custo de crédito e pressão sobre a capacidade financeira dos consumidores".
"Além disso, houve uma redução nos limites de crédito concedidos por seguradoras a fornecedores, o que obrigou a companhia a reduzir seu volume de compras e, consequentemente, operar em uma escala menor", afirmou a empresa na divulgação dos resultados financeiros do segundo trimestre.
Nesse cenário, a empresa admite explicitamente a possibilidade da RJ. "Dentre as medidas avalias pela Companhia e passíveis de potencial implementação estão medidas de reorganização formal de seus passivos e obrigações, incluindo possível nova recuperação extrajudicial ou recuperação judicial", disse.
Reestruturação da empresa
Do prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões, cerca de R$ 9,1 bilhões estão relacionados a efeitos não recorrentes. O maior impacto, de R$ 5,56 bilhões, veio de imposto de renda e contribuição social diferidos. A companhia reconheceu ainda R$ 1,8 bilhão em contingências contratuais, R$ 971 milhões em baixa de ágio, R$ 502 milhões em gastos relacionados à reestruturação e R$ 210 milhões ligados a ativos imobilizados e à reorganização da operação.
A pressão também aparece no resultado financeiro. O saldo ficou negativo em R$ 1,28 bilhão, piora de 11,4% na comparação anual, enquanto as despesas financeiras cresceram 7,3%, para R$ 1,35 bilhão. Segundo a companhia, o resultado reflete, entre outros fatores, o elevado custo de capital no Brasil.
Ao mesmo tempo, a dívida líquida da empresa ficou em R$ 1,2 bilhão no trimestre encerrado em junho e o patrimônio líquido está negativo em R$ 8,2 bilhões. Além do fechamento das lojas e redução no quadro de colaboradores, a Casas Bahia prevê um redimensionamento dos investimentos, com foco em projetos de tecnologia e logística.
Na prática, a companhia deve priorizar a comercialização de produtos por canais digitais próprios, reduzir os estoques e vender participações em ativos para aumentar a liquidez. "Tamanho é consequência, não objetivo.
Em um ambiente de maior custo de capital, a escala deve refletir a capacidade de gerar retorno", disse a empresa no documento de divulgação dos resultados.
Vendas crescem pouco e margem recua
Em meio à reestruturação, a Casas Bahia ainda apresentou crescimento modesto das vendas. A receita líquida avançou 1,6% em um ano, para R$ 6,98 bilhões, enquanto o volume bruto de mercadorias (GMV) consolidado cresceu 0,5%, para R$ 10,51 bilhões. Nas lojas físicas, o indicador recuou 3,2%, para R$ 6,08 bilhões.
O Ebitda ficou em R$ 518 milhões, queda de 9,4% na comparação com o segundo trimestre de 2025. A margem Ebitda caiu 0,9 ponto porcentual, para 7,4%. A companhia também registrou aumento da inadimplência no carnê: a parcela dos pagamentos atrasados há mais de 90 dias chegou a 8,9%, alta de 0,5 ponto porcentual em um ano.
Abstenção de conclusão
A companhia registrou fluxo de caixa livre de R$ 798 milhões no segundo trimestre, ante R$ 852 milhões nos três primeiros meses do ano. Ainda assim, a situação da empresa é tão desafiadora que a auditoria Ernst & Young emitiu um relatório com abstenção de conclusão sobre as demonstrações financeiras.
Os auditores destacaram uma "incerteza relevante" sobre a capacidade de continuidade operacional da companhia, citando o patrimônio líquido negativo e o fato de as obrigações de curto prazo (passivo circulante) excederem os ativos disponíveis (ativo circulante).
"A Companhia depende da implementação bem-sucedida de determinadas medidas operacionais e financeiras para suportar suas necessidades de capital de giro e cumprir suas obrigações nos vencimentos contratados", disse a auditoria, o que reforçaria a necessidade de uma eventual recuperação judicial ou extrajudicial.
Mobilização de funcionários
Na última sexta, 14, o Sindicato dos Empregados no Comércio de Osasco e Região (SECOR) manifestou preocupação com o fechamento repentino de unidades da rede Casas Bahia na região metropolitana de São Paulo.
Em comunicado, a entidade afirma que os funcionários foram pegos de surpresa diante da interrupção das operações e já está adotando medidas para garantir que todos os direitos trabalhistas dos empregados sejam integralmente respeitados.
De acordo com a apuração do Valor Econômico, a companhia demitiu 1,9 mil pessoas neste processo de reestruturação.
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