Brasil busca protagonismo mundial na Feira de Hannover
País é destaque na maior feira industrial do mundo, indo além da imagem de potência agrícola e tentando projetar-se na Alemanha como polo de soluções tecnológicas e energéticas.O Brasil é, neste ano, um dos principais destaques da maior feira de inovação do mundo, a Hannover Messe - e país parceiro oficial do evento, que acontece entre 20 e 24 de abril na Alemanha. O objetivo dos brasileiros na feira é apresentar o país como um pioneiro em energias renováveis e mobilidade elétrica.
"Queremos mostrar que o país não é só uma potência agrícola, mas também um player global para a técnica industrial", diz Patricia Gomes, da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil). Segundo ela, a proposta é destacar o Brasil como exemplo internacional de uma indústria verde, conectada e preparada para os desafios do futuro.
Cerca de 4 mil empresas de 60 países participam da exposição, incluindo nomes como Amazon Web Services, Bosch, Siemens, SAP, Microsoft, Huawei e Accenture. O Brasil marca presença com mais de 300 empresas.
O país é referência na América Latina tanto na eletromobilidade quanto na ampliação da infraestrutura de recarga inteligente. Em 2025, o número de veículos elétricos registrados no país chegou a 224 mil, representando um crescimento aproximado de 40% em comparação com o ano anterior.
A aposta brasileira dialoga diretamente com um dos eixos centrais da Feira de Hannover: a eficiência energética e as tecnologias voltadas ao setor de energia. "Diante da situação geopolítica atual, as discussões sobre fornecimento, resiliência de infraestrutura e soluções alternativas de energia tornaram-se ainda mais relevantes", afirma à DW a porta-voz da feira, Onuora Ogbukagu. Segundo ela, a segurança energética passou definitivamente para o centro do debate.
Acordo Mercosul-UE no visor
O Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia, que entra em vigor em 1º de maio, deve dar um impulso adicional à feira.
"Esperamos que o setor de máquinas e equipamentos seja um dos principais beneficiados pelo acordo", diz à DW Yvonne Heidler, da Associação Alemã da Indústria de Máquinas e Equipamentos (VDMA, na sigla em alemão).
Segundo ela, as exportações alemãs de máquinas para os quatro países do bloco podem crescer dos atuais 3,5 bilhões de euros para até 5 bilhões de euros até 2040.
Guerra no Irã ofusca perspectivas econômicas
As expectativas positivas, no entanto, contrastam com um cenário econômico global desafiador. Segundo uma pesquisa do Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de Munique (Ifo, na sigla em alemão), em março, 78,6% das empresas na Alemanha relataram dificuldades para avaliar como seus negócios vão evoluir no futuro
De acordo com Klaus Wohlrabe, responsável pelos estudos do Ifo, a guerra no Irã aumentou de forma perceptível a insegurança na economia alemã. A incerteza é especialmente elevada na indústria, onde, de acordo com o instituto, o índice chega a 87,7%.
Esse contexto, junto com a crise global nos preços e no mercado de energia, tem diminuído as projeções de crescimento econômico para todo o mundo. Entre as cinco maiores economias do mundo - Estados Unidos, China, Alemanha, Japão e Índia - apenas a Índia registrou taxas de crescimento superiores a 6%, segundo relatórios setoriais. A China cresceu acima de 4%, mas com desaceleração em relação ao ano anterior.
O Brasil tampouco está entre as economias com maior ritmo de crescimento. Segundo o Banco Central (BC), o Produto Interno Bruto (PIB) do país-parceiro da feira deve crescer apenas 1,6% em 2026, após avanço de 2,3% no ano passado.
No entanto, nesta semana, o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou para cima a projeção de crescimento brasileira para 2026, de 1,6% para 1,9%. A entidade disse que o país tem condições de amortecer os efeitos da crise, devido às suas reservas internacionais e ao fato de ser um grande exportador de energia.
Toque brasileiro
Em meio ao cenário desafiador, há pontos positivos. O setor de eletromobilidade no Brasil vem registrando avanços expressivos, dos quais diversas empresas têm se beneficiado. Entre elas estão as alemãs Harting, especializada em soluções de conectividade e equipamentos de recarga, e a SEW Eurodrive, líder mundial em tecnologia de acionamentos; e a brasileira WEG, que atua tanto na fabricação de motores elétricos quanto de sistemas de recarga. As três estão presentes na feira de Hannover.
Maior fabricante brasileiro de máquinas-ferramenta, a ROMI, registrou um crescimento de cerca de 8%. Mais do que isso: das 13 unidades de produção do grupo, duas já estão localizadas na Alemanha. A presença no país se consolidou em 2012, quando o grupo adquiriu a alemã Burkhardt+Weber, sediada em Reutlingen.
"Tenho certeza de que os colegas na Alemanha gostam da ideia de serem um pouco brasileiros", brinca à DW o presidente da ROMI, Luiz Cassiano Rosolen. Segundo ele, na sede da empresa no Brasil, reina o orgulho de ter sob o guarda-chuva do grupo o que ele define como o "Porsche entre os fabricantes de máquinas".
Cassiano estará presente na abertura da Hannover Messe, que contará com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz. Os dois líderes já haviam se encontrado anteriormente durante a Conferência do Clima da ONU, a COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025.
Na ocasião, Merz fez apenas uma rápida passagem pela capital paraense, permanecendo cerca de 21 horas na cidade. Após retornar a Berlim, o chanceler federal causou um desconforto diplomático ao dizer que estava "feliz" em retornar para a Alemanha. Posteriormente, tanto Lula e Merz minimizaram o incidente.
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