BlackRock: Brasil deu 'master class' sobre como surpreender o mercado, diz estrategista
Para Axel Christensen, estrategista-chefe do BlackRock Investment Institute para a América Latina, País está diante de uma 'oportunidade para a vida toda' em meio a mudanças estruturais no mundo
A surpreendente virada eleitoral de Lula provocou forte queda no Ibovespa, episódio definido pela BlackRock como uma lição sobre choques políticos no mercado. Apesar da reação inicial, a gestora vê o Brasil com potencial estrutural e protagonista em transição energética, inteligência artificial e finanças. Para aproveitar essa janela única de oportunidades e destravar crescimento e juros, o país precisará garantir previsibilidade econômica e manter uma disciplina fiscal consistente.
A virada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno da eleição, após a liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro, foi uma "master class" do Brasil sobre "como a política pode surpreender o mercado", na avaliação de Axel Christensen, estrategista-chefe do BlackRock Investment Institute para a América Latina, o "think tank" (grupo de análises) da gestora BlackRock.
A reeleição do petista provocou uma onda de vendas tão forte na segunda-feira, 26, que o Ibovespa, principal indicador do desempenho médio das ações negociadas na B3 (a bolsa de valores do Brasil), acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe as negociações quando a queda passa de um certo limite. O índice encerrou o dia em baixa de 13,88%.
Para Christensen, a execução da política fiscal e de políticas econômicas previsíveis poderá definir qual papel o Brasil ocupará em um momento peculiar no mundo, em que mudanças estruturais estão em andamento, com impacto econômico e social ao longo de vários anos.
Em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast, ele diz que vê o Brasil como protagonista em várias dessas megaforças globais, como ele as chama, citando, por exemplo, a inteligência artificial, a segurança alimentar, a transição energética e o setor financeiro.
"O Brasil está diante de uma oportunidade para a vida toda", diz. Por isso, defende que esta janela de oportunidade permanecerá aberta, a depender das decisões que forem tomadas, não só pelo governo do presidente reeleito, mas de futuros governantes. "Enfatizamos a situação fiscal porque é a chave para destravar dois elementos relevantes aos investidores, que são o crescimento e a taxa de juros", afirma.
Christensen diz que é muito difícil prever como se desdobrará um quarto mandato de Lula, em uma América Latina em que vários países passaram a ter líderes de direita, dos quais o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se aproxima. Mas lembrou que Trump se reuniu várias vezes com o líder chinês Xi Jinping e que ele tem uma relação profissional com a presidente do México, Claudia Sheinbaum, de esquerda.
"O que normalmente sugerimos aos investidores é estarem preparados para diferentes cenários e, no caso dos brasileiros, que sabemos, investem muito localmente, diversificar", afirmou.
A BlackRock, por si só, não olha o Brasil como um mercado cíclico, mas "como uma história estrutural", projetos que levam até 20 anos para se desenvolverem por completo, acrescenta.
As megaforças
Christensen enfatizou que o think tank identificou cinco megaforças globais, sendo a IA a mais óbvia, dada as mudanças que trarão ao modo que as pessoas vivem, tomam decisões, investem, trazendo, portanto, um grande impacto nos mercados. Embora o Brasil não seja um protagonista na tecnologia em si, é um detentor de minerais críticos e de energia limpa, importante para os data centers.
Christensen cita ainda a transição energética e as mudanças demográficas, especificamente relacionadas à longevidade e ao envelhecimento da população, que também abrem oportunidade de investimento relevante de longo prazo. Por fim, acrescenta, estão alterações no horizonte financeiro, "onde o Brasil é bastante ativo".
Uma quinta mega força está nas mudanças geopolíticas, com um mundo mais fragmentado e multipolar, impactando na cadeia de suprimentos, no fornecimento de energia, na segurança, entre outros aspectos.
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