Bioeconomia pode gerar US$ 137 bi por ano para a economia do Brasil até 2032, indica pesquisa
Estudo avaliou potencial de cinco setores-chave e apontou travas, soluções e caminhos para governos, sociedade civil, empresas e outros atores
A bioeconomia do conhecimento pode gerar entre US$ 98 bilhões e US$ 137 bilhões por ano para a economia do Brasil até 2032, caso o País consiga desenvolver pesquisa e inovação e criar novos mercados para os produtos e serviços que surgirem. O relatório "O Potencial do Brasil na Bioeconomia do Conhecimento", desenvolvido pela organização empresarial International Chamber of Comerce Brasil (ICC Brasil) e as consultorias Systemiq e Emerge, aponta caminhos em cinco setores: alimentos, materiais, agronegócio, farmacêutico e cosméticos.
O trabalho envolveu a consulta a mais de cem atores estratégicos, entrevistas com 57 especialistas e a análise de mais de 150 documentos técnicos e foi apresentado nesta quarta-feira, 6, na SP Climate Week. A produção de energia ficou fora, segundo os autores, por já ser muito pesquisada em outros estudos.
No relatório, bioeconomia do conhecimento é definida como a busca por recursos biológicos renováveis para produzir bens, serviços e energia de forma sustentável, e de forma que tenham alto valor agregado.
Assim, a intenção é estimar não somente a oferta, mas também a demanda que pode ser gerada e a renda acrescentada à economia brasileira caso o País realmente se transforme num grande produtor da "economia verde". Outro ponto é de construir o conhecimento com práticas sustentáveis e que respeitem os conhecimentos tradicionais das comunidades em todos os biomas brasileiros.
"Pensamos em como a gente vai integrar as comunidades locais aqui, em como criar valor nessas localidades. E como a gente vai transformar isso num ativo competitivo, potencialmente de exportação", explica Gabriella Dorlhiac, diretora executiva da ICC Brasil.
A estimativa é de que sejam necessários US$ 15,7 bilhões em investimentos ao longo do período para tornar esse potencial real, com recursos vindos tanto de governos, por meio de instituições de fomento e investimentos diretos, quanto de empresas, com pesquisas e inovações.
Os governos federal, estaduais e municipais também precisariam criar o ambiente regulatório e as condições de confiança para que o capital possa realmente fluir para a bioeconomia.
"Ambos têm responsabilidades complementares: o governo garante as condições sistêmicas e o setor privado leva escala, inovação e capacidade de mercado", resume Felipe Faria, diretor da Systemiq.
No relatório, são considerados seis atores principais para o sucesso, numa "hélice sêxtupla": governo, empresas, institutos de ciência e tecnologia, sociedade civil (incluindo comunidades tradicionais, que devem ser respeitadas e remuneradas por seus conhecimentos), investidores e a própria natureza, esta última com métricas que reflitam o valor ecológico e orientem investimentos e políticas públicas.
"A coordenação entre governo, indústria, academia e comunidades — descrita como 'hélice ampliada' — ajuda a distribuir riscos e acelerar a chegada dos produtos ao mercado", explica Faria sobre a união entre os seis participantes.
Setores
O primeiro passo a ser tomado é o de realizar as pesquisas para conhecer o potencial biológico. A estimativa no relatório é de que o Brasil conheça apenas 30% da fauna e da flora no território nacional com quantidade suficiente de informação (excluindo aves), apenas 19% das células marinhas e menos de 1% dos micro-organismos e o potencial deles.
"A gente não tem nem ideia de toda a riqueza que a biodiversidade brasileira tem nem de todo o potencial que pode ser desenvolvido a partir dela. Avaliamos como criar um grande repositório, que vai ser tanto de pesquisa quanto de conhecimento tradicional, de ter isso mapeado para que possa gerar uma grande biblioteca para o setor privado e a academia, de forma que eles possam criar novas frentes de pesquisa, novos produtos e novas cadeias", afirma Dorlhiac.
O estudo fez estimativas específicas para cada um dos cinco setores analisados. Confira a seguir.
- Alimentos — Pode gerar entre US$ 40 bilhões e US$ 50 bilhões até 2032; soluções da bioeconomia do conhecimento, como fermentação de precisão e revalorização de resíduos agroalimentares podem impulsionar a substituição de ingredientes sintéticos, além da criação de ingredientes funcionais e alimentos de maior valor nutricional;
- Materiais — A previsão é de que possa gerar US$ 20 bilhões e US$ 30 bilhões anuais até 2032, com inovações em bioplásticos, embalagens compostáveis e madeira engenheirada, além da abundância de biomassa;
- Agronegócio e Saúde Animal — Setor que já conta com bastante pesquisa por parte de empresas como a Embrapa, pode gerar entre US$ 18 bilhões e US$ 25 bilhões a mais por ano até 2032, a partir de criação de alternativas que reduzam a dependência de insumos químicos e aumentem a resiliência produtiva;
- Saúde — Pode gerar entre US$ 12 bilhões e US$20 bilhões por ano até 2032, caso se encontre soluções como a bioprospecção de plantas medicinais, micro-organismos e enzimas para soluções globais terapêuticas, e retomar a produção local de ingredientes farmacêuticos ativos (IFAs) críticos, reduzindo vulnerabilidades externas;
- Cosméticos — O Brasil pode se posicionar como fornecedor global de bioativos e cosméticos sustentáveis e movimentar entre US$ 8 bilhões e US$12 bilhões anuais até 2032. O setor já tem uma boa capacidade de converter pesquisas em inovação comercial.
Vales da morte
O relatório estabelece o conceito de "vales da morte", os três momentos mais complicados para que inovações baseadas na biotecnologia do conhecimento se tornem produtos viáveis economicamente e estejam presente em grande escala na vida das pessoas.
- O primeiro é o vale da morte do conhecimento, que vem depois da aprovação de um conceito básico em laboratório — depois, é preciso um protótipo funcional, com uma produção viável, o que demanda grande investimento em pesquisa.
- O segundo é o vale da morte do escalonamento, caso as inovações não encontrem infraestrutura adequada para serem produzidas em grande escala. De acordo com os dados, esse é o mais "mortal" para as empresas brasileiras.
- O último é o vale da morte da comercialização, caso barreiras regulatórias, financeiras e de demanda impeçam uma invenção promissora de conquistar um lugar de destaque para os consumidores.
Entre as ações recomendadas para ajudar na criação da demanda, estão apoiar produtores na adequação a padrões internacionais, investir em storytelling e marketing para diferenciar os produtos brasileiros, inserir a bioeconomia em acordos comerciais e políticas de compras pública e estimular parcerias entre cooperativas e grandes marcas, com garantia de volume, qualidade e rastreabilidade.
Recomendações
Entre as recomendações para que o País consiga aproveitar todo o potencial na bioeconomia, estão fortalecer a base científica, ampliando em dez vezes o mapeamento genético nos próximos dez anos; consolidar o ecossistema de inovação, fazendo aumentar 20 vezes o número de startups com base tecnológica em bioeconomia até 2032; criar condições de mercado favoráveis; fortalecer a regulamentação, padronizando a aplicação da Lei da Biodiversidade com guias e protocolos e a criação de uma taxonomia, e, por fim, criar uma arquitetura financeira integrada.
Da parte governamental, é preciso prestar atenção na regulação, para garantir que as leis de propriedade intelectual sejam respeitadas e levem as comunidades tradicionais a serem ouvidas, remuneradas e beneficiadas.
Outro ponto fundamental é garantir que as compras dos órgãos públicos ajudem a criar demanda pelos produtos desenvolvidos. Por fim, também é necessário garantir infraestrutura e capacitação para todos que trabalharem com os produtos.
Para a infraestrutura, é preciso saber que cada setor terá uma necessidade diferente, sem soluções únicas. "Mas há um ponto de partida comum: antes de qualquer investimento em infraestrutura ou desenho financeiro, é preciso desenvolver os produtos e entender a escala da demanda. Sem isso, o risco de criar estruturas subutilizadas ou desalinhadas com a realidade do mercado é alto", analisa Daniel Pimentel, cofundador e diretor da Emerge.
"Agora, o que a gente precisa é ter um equilíbrio melhor, não só de quais setores dentro da bioeconomia estão sendo desenvolvidos, mas também para que seja uma atividade regional, com todos os biomas do Brasil tendo seu potencial transformado em realidade", projeta Dorlhiac, da ICC Brasil, para o futuro.