Script = https://s1.trrsf.com/update-1789154714/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Banco Central reduz projeção de crescimento do PIB de 2% para 1,8%

Autarquia também aumentou de 79% para 90% a estimativa da probabilidade de a inflação ficar acima do teto da meta de 4,50% em 2026

24 set 2026 - 09h26
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
O Banco Central reduziu a projeção de crescimento do PIB de 2026 de 2,0% para 1,8% e estimou alta de 1,4% para 2027. A autoridade monetária elevou de 79% para 90% o risco de a inflação estourar o teto da meta em 2026, pressionada pela alta internacional do petróleo decorrente de conflitos geopolíticos. O déficit em conta-corrente foi revisto para US$ 60 bilhões, enquanto o agronegócio enfrenta perspectivas de desaceleração diante de incertezas climáticas causadas pelo El Niño.

BRASÍLIA - O Banco Central diminuiu o crescimento esperado para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2026, de 2,0% para 1,8%. O número consta no Relatório de Política Monetária (RPM) do terceiro trimestre, publicado nesta quinta-feira, 24. A previsão está próxima à mediana do último relatório Focus, de 1,88%.

A autoridade monetária também divulgou, pela primeira vez, a sua projeção para o crescimento do PIB brasileiro em 2027, de 1,4%. Essa estimativa também está próxima da mediana do Focus, de 1,43%.

A nova projeção para 2026 incorpora mudanças nas estimativas para o PIB agropecuário (1,7% para 2,8%), industrial (2,3% para 1,5%) e de serviços (1,9% para 1,7%).

Banco Central aumentou projeção de déficit em transações correntes do Brasil em 2026, de US$ 56 bilhões para US$ 60 bilhões
Banco Central aumentou projeção de déficit em transações correntes do Brasil em 2026, de US$ 56 bilhões para US$ 60 bilhões
Foto: André Dusek/Estadão / Estadão

Pelo lado da demanda, a autoridade monetária ajustou as previsões para o consumo das famílias (2,1% para 1,2%) e do governo (2,0% para 2,2%), além de Formação Bruta de Capital Fixo (1,5% para 2,0%) e importações (2,0% para 3,5%). Manteve a estimativa de crescimento de exportações de 3,0% para as exportações.

Para 2027, o BC estima crescimento de 0,5% para o PIB agropecuário, de 1,5% para o de serviços e de 1,3% para o industrial. Pelo lado da demanda, a autarquia estima altas de 1,4% no consumo das famílias, de 1,0% no consumo do governo, de 1,5% na FBCF, de 1,5% nas importações e de 2,0% nas exportações.

Sobre a desaceleração esperada para a agropecuária, o BC afirmou que a estimativa considera que os riscos climáticos são superiores aos usuais, diante da previsão de um episódio intenso de El Niño, que pode afetar a produtividade de importantes culturas.

"O setor tende a enfrentar, ainda, condições menos favoráveis à atividade, em razão dos elevados preços dos insumos e do alto nível de endividamento dos produtores. Soma-se a esses fatores a elevada base de comparação deixada pela safra recorde de 2026", acrescentou.

Chance de estouro do teto da meta de inflação

O BC aumentou a sua estimativa da probabilidade de a inflação ficar acima do teto da meta (de 4,50%) em 2026, de 79% para 90%. A probabilidade de o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficar abaixo do piso, de 1,50%, segue nula.

A partir de 2025, a meta de inflação passou a ser contínua, apurada com base no IPCA acumulado em 12 meses. Se ele ficar acima ou abaixo do intervalo de tolerância por seis meses consecutivos, considera-se que o BC perdeu o alvo. O centro da meta continua em 3%, com margem de 1,5 ponto porcentual para mais ou para menos.

O alvo foi descumprido pela primeira vez em julho do ano passado, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o IPCA fechou junho com alta de 5,35% em 12 meses — acima do teto da meta, de 4,50%, pelo sexto mês consecutivo.

No mesmo dia, o Banco Central publicou uma carta aberta ao então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, informando que esperava que a inflação acumulada em 12 meses caísse abaixo do teto da meta no fim do primeiro trimestre de 2026.

A chance de a inflação de 2027 superar o teto da meta foi revista de 28% para 33%, enquanto a probabilidade de ficar abaixo do piso passou de 6% para 4%.

Para 2028, a probabilidade de superar o teto da meta se manteve em 16%. A chance de ficar abaixo no período também ficou estável em 12%.

Impacto da alta do petróleo na inflação

Estimativas sugerem que o impacto indireto da alta internacional do preço do petróleo sobre a inflação pode ser tão relevante quanto o direto, embora sua mensuração seja mais difícil, segundo o Banco Central. No Box "Choque nos preços de petróleo e derivados: evidências de efeitos primários na inflação brasileira", o BC enfatiza que, apesar da reversão parcial de alguns preços, persistem riscos de repasse para a inflação no curto prazo.

Em geral, o documento discute os impactos primários do recente aumento dos preços internacionais do petróleo e derivados, associado ao conflito no Oriente Médio. Além do efeito direto sobre os combustíveis consumidos pelas famílias, o BC identificou que o choque elevou custos em diversas cadeias produtivas, afetando derivados de petróleo, produtos químicos, produtos plásticos, fertilizantes e outros segmentos.

Com auxílio de gráficos, o estudo mostra que, desde o pico do choque, os preços da ureia, que haviam subido 50% entre fevereiro e abril, retornaram a patamares próximos aos observados antes do conflito. Entre junho e agosto, também houve alguma reversão nos preços dos derivados e de produtos de cadeias mais dependentes de insumos petroquímicos.

"Esse movimento sugere que o repasse do choque nos elos iniciais das cadeias produtivas pode estar próximo de se completar. Ainda assim, permanecem riscos relevantes de repasse para a inflação no curto prazo", alertou o estudo, lembrando que a retomada recente do conflito no Oriente Médio foi acompanhada por nova alta das cotações do petróleo.

Além disso, o BC pontuou que os crack spreads da gasolina e do diesel seguem elevados, e os preços dos fertilizantes fosfatados, dependentes do enxofre como insumo, continuam pressionados. "A evolução das desonerações e subvenções ao diesel e à gasolina também é fonte relevante de incerteza para os preços ao consumidor desses combustíveis."

Por fim, o box salienta que sondagens empresariais ainda apontam pressão de custos, enquanto as defasagens inerentes à transmissão por cadeias produtivas mais longas sugerem que parte dos efeitos primários do choque ainda pode ser repassada aos preços ao consumidor.

BC revisa projeção de déficit em conta-corrente

O Banco Central aumentou a sua projeção de déficit em transações correntes do Brasil em 2026, de US$ 56 bilhões para US$ 60 bilhões, ou 2,3% do PIB.

O BC também revisou as suas estimativas para o superávit comercial (US$ 78 bilhões para US$ 75 bilhões) e renda primária (US$ 83 bilhões para US$ 85 bilhões), mantendo o déficit na conta de serviços em US$ 56 bilhões.

"A projeção de déficit na conta de transações correntes do balanço de pagamentos aumentou discretamente em 2026. Ainda assim, em linha com a moderação da atividade econômica doméstica, continua a expectativa de uma diminuição do déficit em relação aos níveis de 2024 e 2025", escreveu o BC.

As projeções da autarquia indicam que o déficit em transações correntes vai continuar sendo financiado pela entrada de Investimento Direto no País (IDP). O BC manteve a projeção de entrada de US$ 75 bilhões em IDP este ano.

Para o ano que vem, o BC projeta déficit de US$ 55 bilhões em transações, resultado de US$ 77 bilhões de superávit comercial, US$ 54 bilhões de déficit na conta de serviços e US$ 83 bilhões de déficit na conta de renda primária. A autarquia projeta entrada de US$ 75 bilhões em IDP.

"O cenário das contas externas segue sujeito a riscos relevantes, destacando-se os oriundos das políticas comerciais adotadas por importantes parceiros, dos desdobramentos dos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio e de eventos climáticos como El Niño", completa a autoridade monetária.

Riscos do El Niño para a produtividade agrícola

O Banco Central avalia que as projeções atuais para a intensidade do El Niño sugerem risco negativo para a produtividade agrícola em 2027, mas que os impactos climáticos sobre o agronegócio brasileiro são heterogêneos entre culturas e regiões. O trabalho faz parte do RPM com o título "Efeito dos eventos El Niño e La Niña sobre a produtividade das principais lavouras brasileiras", que tem como base um "número limitado" de episódios desses eventos climáticos entre 1990 e 2026.

No caso do El Niño, os efeitos adversos são mais disseminados sobre milho, algodão e arroz e costumam estar associados a produtividades abaixo da tendência histórica na maioria das unidades da federação, com magnitudes relevantes em vários casos. Para a soja, as estimativas variam entre os Estados e tendem a se compensar parcialmente no agregado nacional.

As implicações de La Niña são mais heterogêneas entre as regiões e próximas de zero em nível nacional, refletindo a compensação entre ganhos observados no Sul do País e perdas em parte do chamado Matopiba. Há a percepção de efeitos positivos sobre a soja e negativos sobre o milho — sobretudo na segunda safra. "Embora esses eventos climáticos contribuam de maneira relevante para oscilações da produtividade em vários casos, parcela substancial da variabilidade observada permanece associada a outros fatores não captados pelos modelos estimados", trouxe o box.

Nas culturas permanentes, o BC diz que os resultados não permitem identificar impactos de El Niño e La Niña sobre a produtividade da cana-de-açúcar. O café, por outro lado, apresenta efeitos positivos associados a episódios de La Niña no agregado nacional. "Exercícios de decomposição indicam que, embora os eventos climáticos contribuam de maneira relevante para oscilações da produtividade em vários casos, parcela substancial da variabilidade observada permanece associada a outros fatores não captados pelos modelos estimados."

Considerando as projeções atuais para o Relative Oceanic Niño Index (Roni), compatíveis com a ocorrência de El Niño até o segundo trimestre de 2027, os resultados obtidos pelo Banco Central sugerem efeitos adversos sobre a produtividade nacional de grãos. Esses impactos, segundo o estudo, tendem a ser mais disseminados em culturas como milho, algodão e arroz, enquanto, no caso da soja, o principal efeito esperado é regional. "No milho, em particular, o impacto negativo pode ser parcialmente mitigado pelo fato de o Roni já se encontrar em trajetória descendente durante parte das janelas mais relevantes para a segunda safra", trouxe o trabalho.

O box salienta também que, em conjunto, os resultados são compatíveis com um desempenho menos favorável da agropecuária em 2027, contribuindo para uma desaceleração do crescimento do Valor Adicionado Bruto do setor em direção a patamares mais próximos da estabilidade. "Contudo, a estimação dos efeitos de El Niño e La Niña sobre a produtividade agrícola é particularmente desafiadora", ponderou a autoridade monetária.

O BC ressalta que as amostras anuais são curtas e o número de eventos observados é limitado, especialmente no caso de episódios mais intensos, o que dificulta a identificação de efeitos. "Assim, recomenda-se cautela na interpretação dos resultados. Além disso, as projeções para 2027 devem ser interpretadas como indicação de risco para a produtividade agrícola, e não como previsão de desempenho da safra", pontuou, acrescentando que, embora os eventos climáticos possam contribuir de forma relevante para determinadas oscilações da produtividade, outros fatores respondem pela maior parte da variabilidade observada.

Estadão
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra