Analistas veem alívio para BB no curto prazo com programa de renegociação de dívidas do setor rural, mas seguem cautelosos
O programa de reestruturação de dívidas do setor rural lançado pelo governo federal nesta semana deve trazer alívio no curto prazo para o Banco do Brasil, avaliam analistas, uma vez que deve reduzir pressão de inadimplência no pico de vencimentos do agro e diminuir o incentivo dos produtores de atrasarem pagamentos esperando condições melhores.
O governo federal publicou na noite de quarta-feira a Medida Provisória 1.376, criando um amplo programa de reestruturação de dívidas do setor rural, com taxas de juros de até 12% e prazos que podem chegar a 10 anos, incluindo 2 anos de carência. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que a expectativa do governo é que as renegociações comecem imediatamente e somem até R$100 bilhões.
"Para o Banco do Brasil, este é mais um programa que oferece aos produtores um amplo alívio financeiro e alongamento do prazo das dívidas, o que pode melhorar a qualidade dos ativos, já que o custo subsidiado pelo Tesouro tende a aumentar a capacidade e a disposição dos agricultores para honrar seus pagamentos", afirmaram analistas do Safra em relatório a clientes.
Daniel Vaz e Daniel Vaz também destacaram que, com dois anos de carência e sem exigência de entrada, a medida pode ajudar a conter a formação de novos créditos inadimplentes ligados ao agronegócio durante o pico de vencimentos entre abril e setembro, além de eliminar, ao menos por enquanto, o incentivo dos produtores para adiar pagamentos na expectativa de condições mais favoráveis de renegociação -- "fator que, em nossa avaliação, pode ter pressionado os resultados do segundo trimestre de 2026".
Analistas do Bank of America estimam que o programa possa beneficiar aproximadamente 10% da carteira de crédito do Banco do Brasil, o equivalente a cerca de 60% dos empréstimos inadimplentes e renegociados, assumindo que o banco concentre aproximadamente 50% das operações do programa, em linha com sua participação de mercado.
A medida, acrescentaram Mario Pierry e Antonio Ruette, também deve contribuir para a redução dos empréstimos classificados no Estágio 3, favorecendo a margem financeira (NII), já que essas operações deixam de gerar reconhecimento de receita de juros enquanto permanecem nessa classificação.
Apesar do potencial alívio para as provisões no curto e médio prazo, a equipe do BofA afirmou manter uma visão negativa para o crédito agrícola. "Questões estruturais, como margens reduzidas e elevado nível de alavancagem dos produtores, devem persistir, limitando o crescimento da carteira de crédito agrícola ao longo dos próximos um a dois anos."
Os analistas do Safra também afirmaram que continuam enxergando um cenário desafiador para o Banco do Brasil em todos os segmentos de atuação -- varejo, atacado e não apenas agronegócio -- e reiteraram a visão cautelosa para as ações, mantendo a recomendação neutra, "apesar do valuation atrativo".
O BofA tem recomendação "underperform" para as ações do BB.
Dados da Serasa Experian nesta semana mostraram que a inadimplência no setor rural atingiu 8,8% no primeiro trimestre, alta de 1,2 ponto percentual na comparação com o mesmo período do ano passado, mantendo uma tendência de aumento nos últimos períodos, enquanto produtores lidam com crédito mais restrito e custos elevados.
A carteira do crédito rural do BB, que somou R$418,4 bilhões no primeiro trimestre, registrou um índice de inadimplência acima de 90 dias de 6,2% nos primeiros três meses de 2026, de 2,76% um ano antes e 6,09% nos últimos três meses de 2025. O destaque ficou para a linha de custeio, com esse índice em 10,56%. O banco divulga os números do segundo trimestre no dia 12 de agosto.
No começo do mês, o banco anunciou R$210 bilhões para o financiamento da safra 2026/27, montante praticamente em linha com os desembolsos do ciclo anterior, de R$209 bilhões, reafirmando seu papel como principal parceiro do agro "na safra cheia e, sobretudo, nos ciclos mais difíceis".
Nesta sexta-feira, por volta de 14h20, as ações do BB recuavam 1,06%, a R$20,54, enquanto o índice do setor financeiro perdia 0,62% e o Ibovespa mostrava variação positiva de 0,03%.
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