Americanas repensou rumos com crise e fim da recuperação judicial vai destravar negócios, diz CEO
Segundo Fernando Soares, fim do processo 'libera limite de crédito e negociação' para a companhia; apesar da melhora operacional, números da varejista ainda revelam desafios
A Justiça do Rio encerrou a recuperação judicial da Americanas, iniciada em 2023 após um rombo de R$ 20 bilhões. Com o cumprimento das obrigações do plano e a reestruturação focada nas lojas físicas e corte no e-commerce, o CEO Fernando Soares prevê destravar limites de crédito e ampliar acordos com fornecedores. Apesar do marco e de melhorias operacionais, a varejista ainda enfrenta desafios financeiros, segue vendendo ativos e mantém o pagamento de dívidas futuras repactuadas.
Chega ao fim uma das recuperações judiciais mais polêmicas do setor empresarial brasileiro. Mais de três anos depois da revelação das inconsistências contábeis que mergulharam a Americanas em uma crise bilionária, a Justiça do Rio de Janeiro decretou, na segunda-feira, 19, o encerramento do processo da varejista. Para o CEO, Fernando Soares, a conclusão dessa fase deixa lições e abre uma nova fase para a companhia. "Era esperado, mas não tira a alegria. Sempre dá um gosto de etapa bem cumprida", afirmou, em entrevista ao Estadão/Broadcast.
O desfecho já era aguardado pela administração, que havia solicitado o encerramento do processo em março, diante do cumprimento das obrigações previstas para os dois anos seguintes à homologação do plano e da melhora operacional.
Para Soares, a crise foi também uma oportunidade de repensar os rumos da varejista. "A gente nunca pode desperdiçar uma boa crise para revisitar tudo que for possível", afirmou. O executivo atribui a sobrevivência da Americanas ainda ao apoio de acionistas, credores, fornecedores e consumidores. "Se a companhia desaparecer, as pessoas vão sentir falta? E elas sentiriam falta da Americanas. Elas falaram isso para a gente."
A Americanas entrou em recuperação judicial em janeiro de 2023, com dívidas de R$ 43 bilhões, após a revelação de inconsistências contábeis de cerca de R$ 20 bilhões. Desde então, a varejista reduziu operações, reformulou sua atuação no e-commerce e concentrou esforços na recuperação das lojas físicas.
Novos negócios
Além do simbolismo, Soares vê efeitos práticos no encerramento do processo, especialmente na ampliação de limites de crédito e nas negociações com fornecedores. Segundo ele, a condição de empresa em recuperação judicial ainda provocava resistência entre parceiros comerciais, limitando o crescimento de determinadas categorias.
"Na ordem prática, você libera limite de crédito e negociação", afirmou. "Há categorias em que a gente cresce 60%, 70%, aí o fornecedor fala: 'Eu não consigo te dar além porque você está nessa situação'. E isso vai destravar."
Para o diretor jurídico da Americanas, Fábio Medeiros, a retirada da expressão "em recuperação judicial" dos documentos da companhia também representa uma mudança importante na percepção do mercado. "A partir de agora, os documentos não terão mais esse alerta. No lugar dele, fica um convite para fazer negócio com a Americanas."
Transformação
A saída da recuperação judicial ocorre após uma reestruturação que mudou o perfil dos negócios da Americanas. A operação de e-commerce, que chegou a figurar entre as maiores do País, foi reduzida para priorizar a rentabilidade das lojas físicas e reconstruir o canal digital em um novo formato. "Isso acabou revertendo em resultado para salvar a loja física", afirmou Soares.
Apesar da melhora operacional destacada pelo executivo, os números ainda revelam desafios. No segundo trimestre de 2026, a Americanas registrou prejuízo de R$ 274 milhões, alta de 179,6% na comparação anual, enquanto o Ebitda ajustado caiu 51,5%, para R$ 145 milhões.
No primeiro semestre, porém, as vendas nas mesmas lojas cresceram 9,3%, e o Ebitda ajustado apresentou melhora de R$ 251 milhões em relação a igual período de 2025.
A companhia segue vendendo ativos para reduzir o endividamento, incluindo unidades do hortifrúti Natural da Terra, e ainda consome caixa, embora em ritmo decrescente, segundo informações divulgadas no balanço do segundo trimestre.
Decisão judicial
Em fato relevante divulgado na noite de segunda-feira, a Americanas informou que a sentença da 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro determinou o encerramento da recuperação judicial da companhia e de suas subsidiárias B2W Digital Lux, JSM Global e ST Importações.
O juiz Arthur Eduardo Magalhães Ferreira reconheceu o cumprimento das obrigações previstas no plano com vencimento nos dois anos seguintes à homologação, ocorrida em fevereiro de 2024. A decisão, que recebeu pareceres favoráveis da administração judicial e do Ministério Público, ainda está sujeita a recursos.
O magistrado rejeitou objeções apresentadas por credores, incluindo detentores de títulos de dívida emitidos no exterior, os chamados "bondholders", que questionavam critérios de conversão de seus créditos de dólares para reais. O encerramento, porém, não significa a quitação de todas as dívidas, já que obrigações futuras continuam sujeitas às condições do plano.
A decisão ocorre poucos dias depois de a Justiça Federal do Rio de Janeiro tornar réus 12 ex-executivos da Americanas, acusados de envolvimento na fraude contábil revelada em 2023. Na ocasião, a varejista afirmou ter sido vítima de uma "fraude estruturada e de natureza dolosa" cometida por antigos integrantes da administração.
Apesar da comemoração, Soares reconhece que a companhia ainda enfrentará dificuldades, especialmente diante do cenário econômico adverso. Segundo ele, a principal lição da crise foi a necessidade de construir uma empresa preparada não apenas para superar a recuperação judicial, mas para continuar relevante nos próximos anos.
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