Acordo de Trump com Putin sobre diesel gera críticas e dúvidas sobre impacto nos preços
Donald Trump anunciou um acordo com Vladimir Putin para liberar exportações de diesel russo até abril, visando conter a alta dos combustíveis antes das eleições de meio de mandato nos EUA. A iniciativa foi duramente criticada pela Ucrânia, por líderes europeus e por congressistas americanos, sob o argumento de que financia a ofensiva do Kremlin. Analistas também duvidam da eficácia da medida, apontando que os volumes previstos são modestos e insuficientes para baratear os preços globais.
Entendimento busca ampliar oferta do combustível antes das eleições de meio de mandato nos EUA. Analistas questionam real impacto sobre preços, e Kiev denuncia ajuda financeira ao Kremlin.O anúncio de um acordo entre os presidentes dos EUA, Donald Trump, e da Rússia, Vladimir Putin, para ampliar a oferta de diesel russo ao mercado mundial provocou críticas do presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, de líderes europeus e de congressistas americanos e levantou dúvidas entre analistas sobre seus efeitos reais nos preços dos combustíveis.
Na sexta-feira passada (09/10), o presidente americano anunciou que Washington autorizará as operações russas com diesel (sancionadas desde o início da invasão da Ucrânia, em 2022) até abril para tentar controlar a alta global de preços.
O entendimento foi anunciado num momento politicamente sensível para a Casa Branca, às vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.
O que prevê o acordo?
Segundo o anúncio feito por Trump, a Rússia concordou em fornecer imediatamente mais de 300 mil toneladas de diesel, seguidas por outras 500 mil toneladas em novembro e mais 1 milhão de toneladas logo depois. O presidente americano afirmou ainda que outras 3 milhões de toneladas poderão ser entregues posteriormente, dependendo da capacidade operacional das refinarias russas.
O Kremlin confirmou o entendimento e declarou que a Rússia está pronta para fornecer petróleo e derivados aos mercados americano e global.
De acordo com analistas, o acordo deve envolver uma suspensão temporária de restrições às exportações russas de diesel, embora outros ativos russos permaneçam sujeitos a sanções.
O que motiva a iniciativa?
O contexto político é determinante para o acordo. O Partido Republicano enfrenta crescente insatisfação dos eleitores com os preços dos combustíveis antes das eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro.
O preço do diesel nos EUA subiu mais de 60% desde que Trump iniciou a guerra contra o Irã, há sete meses. Os preços elevados ameaçam a estreita maioria republicana no Congresso dos EUA.
Trump apresentou o acordo como uma forma de aliviar os custos de energia para os consumidores. "Preços mais baixos para os americanos, especialmente nossos grandes agricultores, pecuaristas e caminhoneiros, são minha maior prioridade", escreveu o republicano, apresentando o acordo com Moscou como "muito grande e importante".
A Casa Branca busca demonstrar ação diante da alta dos combustíveis, que vem sendo influenciada por tensões geopolíticas e perturbações nos mercados de energia.
Qual pode ser o efeito econômico?
Trump afirmou que o aumento da oferta fará os preços do diesel caírem rapidamente nos Estados Unidos e no restante do mundo.
No entanto, especialistas do setor de energia afirmaram que é improvável que o fluxo de diesel russo reduza os preços nos EUA, que dispararam em grande parte devido a interrupções decorrentes da guerra contra o Irã, e destacaram que os volumes anunciados são relativamente modestos em comparação ao consumo americano.
O primeiro lote corresponderia a cerca de 2,25 milhões de barris, ou menos do que o consumo de um dia apenas no setor de transportes, segundo dados da Administração de Informações sobre Energia (EIA) dos EUA, que indicam um consumo diário de 2,94 milhões de barris.
Analistas avaliaram que a medida também não deve provocar uma mudança significativa no mercado global de diesel. "Estamos falando, talvez, de um aumento de 5% a 6% na oferta entre agora e o fim do ano", afirmou Dan Pickering, fundador e diretor de investimentos da Pickering Energy Partners.
Além disso, há dúvida também sobre se a Rússia terá mesmo capacidade para exportar as quantidades de diesel anunciadas. Devido aos ataques ucranianos a refinarias de petróleo russas, há escassez do produto também no país, obrigando a própria Rússia a importar diesel.
Pouco depois de o acordo entre a Rússia e os EUA ser anunciado, a Rússia atacou novamente diversas cidades ucranianas. Entre outras ações, bombardeou Zaporíjia no sábado com bombas planadoras, atingindo vários prédios residenciais. Vinte e três pessoas morreram, incluindo quatro crianças.
"A Rússia agradeceu pelo afrouxamento das sanções e pela exportação de diesel", disse Zelenski, ao comentar o ataque.
Como a Ucrânia reagiu?
A reação mais contundente veio de Kiev. Zelenski classificou o acordo como um "investimento na guerra", afirmando que permitir à Rússia vender derivados de petróleo significa ampliar a capacidade de Moscou de financiar sua ofensiva militar contra a Ucrânia.
O presidente ucraniano também chamou o entendimento de "injusto e desonesto" e criticou o fato de emissários americanos estarem discutindo possíveis caminhos para o fim da guerra com os ucranianos enquanto Washington negociava paralelamente um acordo energético com o Kremlin.
E a reação dos congressistas americanos e dos líderes europeus?
No último domingo, senadores republicanos e democratas instaram Trump a mudar de rumo, afirmando que o acordo violaria uma lei de 2022 que proíbe a importação de energia russa enquanto a Rússia não encerrar sua agressão à Ucrânia e acerscentando que os EUA "não deveriam oferecer a Putin uma tábua de salvação financeira".
O deputado republicano Don Bacon também criticou a medida e disse que era hora de aplicar mais sanções, que o Congresso havia aprovado recentemente, e não de suspendê-las.
Trump rejeitou as críticas vindas de seu próprio partido. Segundo ele, a Rússia e a Ucrânia teriam concordado em cessar os ataques à infraestrutura energética uma da outra.
A realidade no terreno, porém, era diferente: Moscou atacou seis instalações de energia ucranianas nesta segunda-feira, violando o "cessar-fogo energético" anunciado por Trump.
Em entrevista à emissora Fox News, o líder ucraniano rejeitou a responsabilidade pelos altos preços dos combustíveis. Ele explicou que os preços dependiam, na verdade, do bloqueio do Estreito de Ormuz. Zelenski disse que o acordo sobre o diesel é uma mudança de rumo em relação à política ocidental de longa data de isolar a economia russa.
Líderes europeus criticaram o acordo. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, afirmou que "não é hora de reduzir as sanções, mas de fortalecê-las", defendendo a manutenção da pressão econômica sobre Moscou.
Já o chanceler britânico, Ed Miliband, elogiou a mais recente rodada de sanções da União Europeia contra Moscou e afirmou que é necessário ampliar ainda mais as medidas contra a Rússia.
Ambos criticaram a decisão de Donald Trump de aliviar as restrições ao diesel russo, embora tenham apoiado a proposta americana de uma trégua nos ataques à infraestrutura energética.
md/as (Reuters, DPA, AP, AFP, ots)
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