Vanessa Brunt reflete sobre poemas, personagens e vulnerabilidade como escritora: "Todo mundo é uma casa"
Em entrevista, autora fala sobre o chamado Estilo Bruntiano e analisa linguagem, afetos e esvaziamento emocional na atualidade
A literatura contemporânea frequentemente se orienta pela objetividade e pela rapidez de consumo. Em sentido oposto, uma autora brasileira tem chamado atenção por construir uma obra marcada pela densidade simbólica e permanência emocional das experiências. Reconhecida por sua atuação em narrativas emocionais, poesia e construção linguística, Vanessa Brunt se consolida como um dos nomes que tensionam os limites da escrita atual.
Seu trabalho deu origem ao chamado "Estilo Bruntiano", expressão criada por leitores ao tentarem descrever sua poética. Com paradoxos, metáforas amplas e desmembramento de palavras, o formato, já discutido em universidades como Mackenzie e Uneb, abarca também a ideia do "dê-pois": aquilo que permanece mesmo após despedidas, rupturas e mudanças. Em entrevista ao TERRA, Brunt reflete sobre sua produção e aponta o impacto do imediatismo digital na forma como sentimentos e relações vêm sendo interpretados.
Segundo a escritora, há um enfraquecimento das experiências emocionais na contemporaneidade, impulsionado por relações mais superficiais e pela falta de diálogos que envolvam autoconhecimento. Sua literatura surge, nesse cenário, como contraponto. "Todo mundo é uma casa", resume.
Os contos que mudam a forma de ir embora
Na obra Ir Também é Ficar, a distopia é utilizada como ferramenta narrativa para discutir negligência emocional. A construção de um universo em que relacionamentos longos são proibidos funciona como metáfora da lógica descartável que marca muitos vínculos na vida real.
"Quando entramos na vida de alguém, não podemos agir como se estivéssemos em um ambiente vazio", afirma a autora, ao comparar cada indivíduo a uma casa repleta de decorações internas que representam sua história e seus traumas. "É preciso ter o cuidado de não esbarrar e não quebrar, por descuido, um vaso que foi passado por gerações ou uma peça que era a ponte de maior valor sentimental daquele ambiente", poetiza.
De acordo com Brunt, relações saudáveis não anulam vivências anteriores, mas contribuem para reorganizar sentimentos e ressignificar experiências. Esse pensamento também aparece em obras como Deixar para lá também é bater de frente, que aborda relações psicologicamente abusivas e a ausência de pertencimento afetivo.
Para a poetisa, a literatura atual ainda evita discutir a dimensão cotidiana da negligência emocional, concentrando-se apenas em grandes rupturas. "Existe uma banalização do desaparecer aos poucos. Às vezes, as pessoas só percebem o abandono quando ele já terminou há muito tempo", analisa. A observação ajuda a explicar por que suas obras frequentemente transformam pequenas falhas de convivência, silêncios e esquecimentos em elementos centrais da narrativa.
Em um dos seus contos, escreve: "Ligeiramente Tônica ponderou que se prendia a memórias inventadas para ocupar lacunas. (…) Até que o bárbaro chegava. Não lembrou dela ao passar na padaria(…). O amor é alimentado por mostrar que se lembra. Quando para de mostrar, fica com fome, morre, mesmo sem morrer".
A poesia que demora e o jogo dos parênteses
Nas longas poesias rimadas, Brunt aprofunda sua proposta estética ao explorar os limites da linguagem. O uso de parênteses, pausas e fragmentações cria múltiplas camadas de interpretação, um recurso que a autora defende, mas que exige do leitor uma disposição nem sempre garantida.
Versos como "Quando a textura da flor / fizer no polegar / algo que se (a)guarde / Quem sabe dure o cobertor / quando todas elas / puderem ficar / até mais tarde" exemplificam essa construção ao aproximar "guardar" e "aguardar", conectando memória, tempo e expectativa. Sua escrita também explora sonoridades, ambiguidades e silêncios para representar ausências e falhas nas tentativas humanas de sustentar vínculos. Trata-se de uma poesia que não se esgota na primeira leitura, mas se transforma ao longo do tempo.
A anatomia do avesso: palavras dentro de palavras
Outro traço marcante é o uso simbólico da língua portuguesa. Ao fragmentar palavras, a autora revela significados sobrepostos, como em "part//idas" e "con-seguir", criando o que ela chama de uma anatomia do avesso da linguagem.
Parte da crítica questiona se a densidade simbólica e o excesso de camadas não acabariam afastando o público em vez de aproximá-lo. Ao ser confrontada com essa leitura, Brunt não a descarta inteiramente, mas contesta a ideia de que profundidade seja sinônimo de artificialidade. "A vida adulta não é objetiva o tempo inteiro. Nem o luto, nem o afeto, nem a memória são organizados sem reflexão", e afirma que sua escrita não tenta facilitar emoções, mas respeitar a complexidade delas.
Ressignificar não é desfazer
"Mais do que agradecer a quem fica, observar o que permanece. Ressignificar a história, não as pessoas. Não precisa abraçar o sofrimento para ter o lado bom das coisas, os quais se aprendem pelo conhecimento e não pela dor", afirma, com a máxima de que ressignificar não é desfazer.
A fala questiona a tendência de romantizar o sofrimento como etapa obrigatória de crescimento. A escritora também destaca que o aprendizado não exige gratidão a quem causou dor: reconhecer o que foi aprendido não significa validar quem feriu.
Paradoxos e liberdade emocional
Os contos e outros textos são atravessados por paradoxos de força e fragilidade, permanência e ruptura, presença e ausência, que funcionam como ferramentas para discutir amadurecimento emocional e identidade.
A autora reconhece que sua escrita nasce, muitas vezes, de conflitos internos e da tentativa de equilibrar diferentes versões de si mesma. "Hoje sou mais escritora ou empresária? Mais vulnerável ou resistente?", questiona.
Para ela, a liberdade não está em aparentar leveza, mas em reconhecer limites, dores e contradições.
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