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TV

Tato G. Mendes sobre cenas tiradas de Império: "decepcionou"

Ao contrário do que esperava, a repercussão do personagem "Severo", que explora os filhos para ter uma vida mansa, tem sido positiva para o ator

12 nov 2014
10h26
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O discurso tranquilo de Tato Gabus Mendes evidencia a experiência de quem conhece bem os mecanismos da televisão. Mas os quase 30 anos de carreira não impedem que o ator ainda se surpreenda com a profissão. Foi o que aconteceu ao ser escalado para interpretar o "encostado" Severo, de Império. Além de ser um personagem polêmico, que explora os filhos para levar uma vida mansa, esta é a primeira vez que Tato integra o elenco de uma novela de Aguinaldo Silva. "Eu me surpreendi com o convite pelo fato de nunca ter trabalhado com ele e por ganhar a oportunidade de fazer um personagem como esse, que, em um primeiro momento, pensei: 'É difícil'", assume, aos risos.

Foto: Jorge Rodrigues/Carta Z Notícias

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Nas ruas, Tato também teve outra surpresa. Ao contrário do que esperava, a repercussão do papel tem sido positiva. Volta e meia, o ator é abordado por pessoas que admitem se divertir com as atitudes condenáveis de Severo. "No início, a gente tinha um pouco de medo que houvesse uma rejeição porque essa família é completamente incorreta, de um caráter muito duvidoso. Mas acabamos criando uma empatia com o público", conta.

O ator ainda criticou as cenas da família polêmica que foram cortadas da trama. "Se você mudar de canal e estiver passando um filme, vai ver que naquele filme tem coisas dez vezes piores. Que lógica é essa? É meio sem sentido. Estou falando nos dias de hoje. Nós já passamos por ditadura, por grandes censuras, meu pai ainda era vivo. Convivi com tudo isso. Então, me decepcionou um pouco. Mas eu procuro entender".

Filho do renomado autor de novelas Cassiano Gabus Mendes, falecido em 1993, e sobrinho de Luis Gustavo, Tato conviveu desde cedo com o universo da televisão. Por isso, foi natural que optasse pela atuação como carreira.

A estreia na tevê aconteceu em 1985, em Ti-Ti-Ti, uma trama de autoria de seu pai. Nos anos seguintes, Tato participou de outros folhetins de Cassiano, como Brega & Chique e Que Rei Sou Eu?, entre outros. E, ao longo dos anos, transitou em núcleos variados em novelas como Quatro por Quatro, de Carlos Lombardi, O Beijo do Vampiro, de Antônio Calmon, e O Astro, de Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro. "Meu pai era uma referência incrível, a experiência dele era um tesouro para a gente. No início, ele foi ator, depois dirigiu, produziu... Fez tudo", recorda Tato.

Resumidamente, Severo é um homem que não gosta de trabalhar e é capaz de explorar os próprios filhos para conseguir dinheiro. Diante desse perfil, chegou a temer uma rejeição do personagem por parte do público?
Tato Gabus Mendes: No início, a gente tinha um pouco de medo. Mas aconteceu o contrário pelo fato de termos levado para o lado do humor. E o texto também é muito engraçado, apesar de tratar de comportamentos condenáveis. As pessoas brincam muito comigo, ao mesmo tempo que falam: "Essa família não presta, mas está muito engraçado, estou adorando".

Mas como você encontrou essa possibilidade de explorar o humor?
T.G.M.: Na verdade, como a gente não tinha lido o texto pela sinopse, não sabia que eles seriam tão contundentes na coisa de explorar os filhos, nesse caráter. Sabíamos que era uma família simples, que vinha do interior e que o Severo foi um funcionário público que conseguiu ser demitido. Então, quando lemos o texto é que vimos que o caminho mais indicado seria esse de tentar ir para o lado do humor para amenizar um pouco o que poderia até criar essa rejeição ou chocar as pessoas.

Diante de todos os exageros e desvios de caráter de Severo, você acredita que é um personagem possível de existir fora da ficção?
T.G.M.: Posso falar que já encontrei várias pessoas que me contaram histórias de parentes com ações iguais às dos personagens do meu núcleo. A verdade é que, infelizmente, tem gente assim mesmo.

Foto: Jorge Rodrigues/Carta Z Notícias

Aliás, por se tratar de uma família polêmica, algumas cenas do seu núcleo acabaram sofrendo cortes ou ajustes. Como encarou isso?
T.G.M.: Minha primeira reação foi achar um pouco estranho. Primeiro, porque a gente não sabe a origem. Se é só uma censura interna natural da Globo encarando sua responsabilidade em não exagerar em certos assuntos ou se foi uma coisa de fora, do Ministério Público. Não sei dizer com certeza. Acho que, de certa forma, qualquer restrição não vai ser agradável e nem útil. Se você mudar de canal e estiver passando um filme, vai ver que naquele filme tem coisas dez vezes piores. Que lógica é essa? É meio sem sentido. Estou falando nos dias de hoje. Nós já passamos por ditadura, por grandes censuras, meu pai ainda era vivo. Convivi com tudo isso. Então, me decepcionou um pouco. Mas eu procuro entender.

Em cena, você aparece com uma imagem mais desleixada. Como foi essa construção física
do personagem?

T.G.M.: Severo é um desleixado mesmo, que veio do interior. Não acho que ele teria muito cuidado em cortar o cabelo. Por isso, quando vi que meu cabelo estava comprido, sugeri para a direção prendê-lo, fazer um rabinho meio de índio, meio de cafajeste, sei lá (risos)! Eles gostaram da ideia. Aí, ficou engraçado também porque o Rômulo (Neto, que interpreta o filho Robertão) usa. As coisas foram surgindo. Eu acho também que ele tem uma outra postura por não ter tido educação, ele se coloca mal na mesa na hora de comer, por exemplo. Fico sempre pensando nesses artifícios para enriquecer esse lado. Como aquela mania de mastigar palito de dente depois de almoçar.

Houve algum trabalho de preparação com o núcleo para encontrar o tom desta família?
T.G.M.: Nós fizemos uma leitura. Eu perdi umas duas reuniões porque, quando estava no Rio de Janeiro, estava fazendo um espetáculo. Mas o nosso núcleo chegou a fazer uma reunião muito boa com uma leitura. E essa coisa do humor começou a aparecer ali. Então, foi muito gratificante para gente e muito bom porque sabíamos que não teríamos muito tempo para trabalhar muito mais isso.

Em 2015, você completa 30 anos de trajetória na tevê. O que o motiva a continuar na carreira?
T.G.M.: É a minha casa. A minha história é toda de televisão porque meu pai começou a tevê em São Paulo, na TV Tupi. Desde garoto, eu convivi com isso. O meu universo é esse, adoro fazer televisão, gosto do processo, me encanta. Assim como depois eu adquiri o prazer e o respeito pelo teatro. Comecei a entender o que significa o teatro, nossa grande escola, depois de ter começado a fazer televisão. Então, para mim, televisão é sempre um prazer porque eu convivi com isso desde pequeno. Meu pai também chegou a ser ator no começo da carreira, minha mãe era atriz de rádio e meu tio é um grande ator.

Aliás, você estreou em uma novela do seu pai, Ti-Ti-Ti, e depois atuou em outras obras dele. Como era a convivência com Cassiano Gabus Mendes no âmbito profissional?
T.G.M.: Meu pai foi sempre um crítico muito severo com o trabalho dele. Era muito detalhista. Com todo o bom humor que ele tinha, com toda a personalidade engraçada, na hora do trabalho, ele era muito sério. E sempre foi assim comigo e com o Cássio também. Mas, ao mesmo tempo que ele tinha esse comportamento sério, era muito generoso no que dizia respeito a você dar ideias, discutir. Sempre foi uma relação muito boa porque a gente não misturava as coisas. Óbvio que ele sabia o que eu podia fazer melhor ou não. Agora, para receber um elogio dele, a gente demorava muito. Ele também sabia que escrever é uma arte muito solitária, doída. Então, queria muito ouvir, era muito observador. A gente ajudava nisso e ele aceitava. Ele cansou de usar ideias minhas para as novelas. Em uma época, cheguei a escrever umas coisinhas e ele usou umas cenas minhas. Eu tinha vontade de escrever. Tenho até hoje, quem sabe um dia...

Foto: Jorge Rodrigues/Carta Z Notícias

Por ter um pai tão competente e reconhecido no meio artístico, em algum momento você se sentiu pressionado a corresponder às expectativas que, por ventura, poderiam cair sobre o filho de Cassiano Gabus Mendes?
T.G.M.: Sim. Isso foi um pouco duro, mas saí com a cabeça feita quando vim fazer televisão. Eu já sabia que ia enfrentar isso. Achava que, por um lado, era normal, isso acontece mesmo em todas as áreas. Seja advocacia, futebol, medicina. As pessoas ficam esperando. E como eu convivi com isso em casa, vi muita gente na televisão que fez sucesso, depois fracasso e foi esquecido. Ter noção dessa coisa efêmera que é o sucesso me protegeu bastante. Mas não vou dizer que não sofri.

Marca cômica
Ao longo de quase três décadas de carreira, Tato Gabus Mendes colecionou muitas novelas das sete no currículo. Como as duas versões de Ti-Ti-Ti, de 1985 e 2010, Que Rei Sou Eu?, de 1989, Perigosas Peruas, de 1992, Três Irmãs, de 2008, e Cheias de Charme, de 2012, entre outras. Muito dessa "frequência" se explica pelo fato de o ator se sentir à vontade fazendo comédia, gênero que permeia boa parte das tramas do horário. "Quando aparecia um personagem com uma coisa engraçada, irônica, a tendência era lembrarem de mim. Isso é bom até um certo ponto", avalia.

Apesar de confortável no humor, chegou um momento em que Tato começou a se sentir estigmatizado. Algo que ele jura que só aconteceu depois de muitos papéis cômicos. "Só me incomodei até uns anos atrás. Mas durante muito tempo não me incomodei com isso porque eu adorava fazer", pondera. 

Montanha-russa de emoções
Crescer dentro dos estúdios de tevê fez Tato Gabus Mendes desenvolver um olhar realista sobre a profissão de ator. Por isso, ele tem plena consciência de que os altos e baixos são inerentes à carreira. O que não significa que não sofra quando um trabalho seu não alcança uma repercussão positiva. "O problema no Brasil é que a memória é sempre curta, o último trabalho fica mais marcado. Você faz cinco trabalhos muito bem e, de repente, faz um que dá errado. É esse que acaba se sobressaindo mais, o que é muito triste e injusto", lamenta.

Trajetória televisiva
- Ti-Ti-Ti (Globo, 1985) - Alex.
- Sinhá Moça (Globo, 1986) - José.
- Brega & Chique (Globo, 1987) - Maurício.
- Fera Radical (Globo, 1988) - Paxá.
- Que Rei Sou Eu? (Globo, 1989) - Pichot / Lucien.
- Mico Preto (Globo, 1990) - Adolfo.
- Perigosas Peruas (Globo, 1992) - Paulinho Pamonha.
- O Mapa da Mina (Globo, 1993) - Raul Gouveia.}
- Quatro por Quatro (Globo, 1994) - Alcebíades.
- O Fim do Mundo (Globo, 1996) - Vadeco.
- O Amor Está no Ar (Globo, 1997) - Filipe.
- Malhação (Globo, 1997) - Eduardo Siqueira.
- Pecado Capital (Globo, 1998) - Valdir.
Terra Nostra (Globo, 1999) - Dr. Penna.
- Uga-Uga (Globo, 2000) - Anísio Karabastos.
- Malhação (Globo, 2001) - Renato Ferreira.
- O Beijo do Vampiro (Globo, 2002) - Bartô.
- Um Só Coração (Globo, 2004) - Paulo Prado.
- Como uma Onda (Globo, 2004) - Pedroca.
- JK (Globo, 2006) - Júlio Soares.
- Páginas da Vida (Globo, 2006) - Leandro.
- Amazônia, de Galvez a Chico Mendes (Globo, 2007) - Brito.
- Queridos Amigos (Globo, 2008) - Fernando.
- Três Irmãs (Globo, 2008) - Orlando Malatesta.
- Ti-Ti-Ti (Globo, 2010) - Breno Rodrigues.
- O Astro (Globo, 2011) - Amin Hayalla.
- Cheias de Charme (Globo, 2012) - Dr. Ernani Sarmento.
- Sangue Bom (Globo, 2013) - Cardoso.
- Império (Globo, 2014) - Severo.

Foto: Jorge Rodrigues/Carta Z Notícias

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Fonte: TV Press

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