Saída de Vera Magalhães se soma ao histórico de trocas polêmicas no comando do ‘Roda Viva’
Antigos apresentadores do programa manifestaram desacordo com a direção da TV Cultura
Vera Magalhães é mais uma apresentadora a deixar o ‘Roda Viva’ sem se despedir do público. Ela disse que havia acordado com a direção da TV Cultura sua permanência até dezembro.
Um mês depois, ao ser comunicada que teria de sair em abril, optou pelo desligamento imediato.
Compreende-se a decepção da jornalista com a “quebra de acordo” — como definiu em uma postagem — após dias de boatos nos corredores do canal e notas especulativas na imprensa, sem um posicionamento oficial da emissora.
A impressão transmitida é de que a cúpula do jornalismo da TV Cultura administrou mal a situação e gerou uma exposição negativa de Vera Magalhães. Na era da hipercomunicação, qualquer ruído se amplifica e exige resposta imediata e transparente.
Este não é um caso isolado. Outros apresentadores encerraram o ciclo no comando do ‘Roda Viva’ sob controvérsia.
“Saí quando terminou o meu contrato. Resolvi que não o renovaria em consequência de pressões políticas que vinham se intensificando”, afirmou Augusto Nunes no programa ‘Os Pingos nos Is’, da Jovem Pan News, em 2018.
Em 2013, a demissão de Mario Sergio Conti gerou diferentes versões na mídia. O então presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, Marcos Mendonça, explicou à ‘Folha’ que o motivo era o salário do apresentador. “O maior da emissora”, disse na matéria.
Já o colunista Elio Gaspari, do mesmo jornal, afirmou que um convite de entrevista ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teria provocado uma disputa de poder entre Conti e Mendonça.
Lillian Witte Fibe permaneceu apenas oito meses na icônica bancada do ‘Roda Viva’, se desligando em fevereiro de 2009. Ao ‘Estadão’, fez uma crítica contundente. “Aquela cadeira é muito especial para ser banalizada com entrevistados sem relevância.” A apresentadora teria solicitado mudanças. “Como isso não ocorreu, é melhor não insistir no desgaste.”
Em artigo publicado no ‘Brazil Journal’ em julho de 2019, o jornalista Ricardo Lessa, que havia sido dispensado naquele ano, relatou detalhes de sua fase à frente do programa: teve três nomes de possíveis entrevistados contestados pela direção da Cultura.
“Todas as recusas foram feitas sob alegação de que não havia grande interesse jornalístico. Argumento que não resistiria nem no primeiro ano de um curso de Comunicação”, escreveu.
Ressalte-se que não há problema na troca periódica de apresentadores, potencialmente benéfica para a oxigenação do ‘Roda Viva’. O problema está na maneira como acontece e nas suspeitas que levanta.
O jornalismo independente x o poder político
A TV Cultura sempre conviveu com o debate sobre sua autonomia editorial, justamente por ser mantida pelo governo do Estado de São Paulo.
Ao longo das décadas, diferentes gestões buscaram reafirmar o caráter público, plural e independente da emissora, mas as dúvidas sobre sua real independência jamais foram totalmente afastadas.
Essa percepção se intensifica quando o foco recai sobre o ‘Roda Viva’, principal espaço de exposição pública do canal e um termômetro simbólico de sua autonomia jornalística.
O perfil ideológico e a postura do apresentador, assim como a definição da agenda de entrevistados na famosa arena, são tratadas como decisões sensíveis.
Por isso, toda mudança no comando da atração ou qualquer veto — explícito ou velado — a convidados tendem a ser interpretados como sinal de alinhamento político ou de tentativa de controle editorial, mesmo quando as explicações oficiais rejeitam motivações externas.
A chegada de um novo governador ao Palácio dos Bandeirantes invariavelmente reacende expectativas e temores de imposição de mudanças na TV Cultura.
Esse histórico ajuda a explicar por que saídas traumáticas de apresentadores, como a de Vera Magalhães, dificilmente são percebidas como episódios isolados.
Na verdade, reforçam a sensação de que, no prestigiado ‘Roda Viva’, a disputa entre jornalismo público e poder político segue aberta — e longe de ser definitivamente resolvida.
Apesar da audiência tímida para os padrões da TV aberta, entre 1 e 2 pontos de média, o programa produz, às vezes, uma repercussão gigantesca, inclusive entre líderes do Executivo, Legislativo e Judiciário. Por isso, há múltiplos interesses rodando aquela arena.