Mania de Você: O desabafo 'guerreiro' de Nicolas Prattes a Rudá ou quando um mocinho morre
Nicolas Prattes escreveu um texto de despedida a Rudá, que foi morto em Mania de Você; apesar de gesto de respeito à equipe, situação faz refletir sobre o gênero da obra
Se Rudá (Nicolas Prattes) vingou ou não vingou em Mania de Você já não importa mais a essa altura do campeonato. Para quem conhece ou apenas devora o gênero da teledramaturgia, a morte de um mocinho não é simples tarefa. Caso a novela seja espírita - o que definitivamente não é esse caso - é preciso exigir contexto para que isso seja possível, aceito e respeitado pelo público (e pela emissora).
Isso não depende de nós jornalistas, nem dos autores e muito menos do público. É uma questão básica, relacionada à estrutura do melodrama. Mesmo em propostas ousadas que carregam o DNA de autores que apostam na dubiedade de personagens, como João Emanuel Carneiro (55), novelista responsável pela atração que entregará a faixa das 21h a Vale Tudo no final do próximo mês.
Embora não divulgado por questões óbvias, Mania de Você planejava, inicialmente, em sua sinopse que Rudá se revelaria filho de Mércia (Adriana Esteves). Imaginem o soco no estômago que isso seria para a vilã, para Molina (Rodrigo Lombardi) e principalmente para Mavi (Chay Suede). Se foi via petição, decisão do novelista, da emissora ou apostas da numerologia não sabemos com exatidão, mas no capítulo desta quinta-feira, 27, o "Tarzan", como era chamado o personagem se foi.
Pior que isso: o público comemorou sua morte! Se a novela estivesse no começo, poderia até parecer o início de uma trama bem melodramática, em que uma apaixonada viúva, Viola (Gabz) teria motivos de sobra para sofrer, sofrer e sofrer mais um pouco para envolver o público em um novelão recheado de intrigas e mistérios. Quem sabe neste um mês não role. Seria, no mínimo, merecido para uma excelente ideia e inúmeras tentativas.
No final das contas, entretanto, ficou a sensação de uma novela que parece ter começado pela sobremesa. É aquilo: quem plantou "mocinha talarica" colheu um "mocinho morto". Que sirva para nos lembrarmos de que a sociedade não mudou muito desde O Dono do Mundo (1991).
A METÁFORA DE RUDÁ
Logo depois de Rudá "levar chumbo", Nicolas Prattes usou seu perfil no Instagram para escrever um texto de despedida ao personagem e à novela. O gesto, acima de tudo, soou como um ato de respeito à equipe (principalmente a criativa e o elenco) e um recado ao público, que nos últimos dias usou uma outra publicação do ator com a música Livre Estou para apimentar o final de suas gravações com o folhetim dirigido por Carlos Araújo.
Com uma foto de bastidor vestido de Rudá e sorrindo, Prattes escreveu que "todos os envolvidos nessa novela são guerreiros". Talvez para quem esteja em casa e torceu o nariz para a trama ou quem mantenha a TV ligada e preste mais atenção nos posts do Twitter para envenenar e meter a boca isso não signifique nada, mas nesta frase existe um grito abafado, como se Rudá tivesse se tornado uma metáfora para muita gente envolvida no processo. Entenda:
Desde o início com o ibope inesperado, Mania de Você sofreu inúmeras intervenções da emissora. De cortes de capítulos previstos ao descarte de capítulos gravados e mudanças de rumos previstas pelo autor, a novela perdeu o fio da meada de uma forma que se viu "embananada" ao ponto de o público perceber falas desconexas levadas ao ar. Para se ter ideia, uma ilha de edição especial chegou a ser criada para definir o capítulo final após a entrega por parte da equipe da novela.
Mesmo assim, o elenco, a direção, os roteiristas e todos os outros envolvidos, como qualquer outro trabalho, seguiram, atentos às orientações, aos desejos das pesquisas do público e dos executivos, cumprindo as mudanças e mais que isso: se dedicando. Tanto que ontem assistimos à partida de Rudá. Afinal, se novela é uma obra aberta e depende da nossa aceitação, tudo isso foi feito e tem nossa participação no processo.
Talvez não tenha sido o melhor resultado que chegou ao público e o que se queria assistir, mas diante de tanta coisa envolvida, constata-se que toda essa prática repetitiva, essa preocupação excessiva em fazer dar certo tem nome no dicionário: MANIA. E cada um tem a sua! Nicolas Prattes não errou: logo tem mais. "Nos vemos já."
Ver essa foto no Instagram