Começar de novo: atores falam sobre repetição de casais na TV
- Geraldo Bessa
Pela frequente repetição de elenco e tramas semelhantes, a sensação de "déjà vu" ao acompanhar boa parte das novela brasileiras é recorrente. Isso fica ainda mais evidente quando, em menos de um ano, dois atores que formaram um casal voltam a repetir a parceria. Como é o caso de Camila Pitanga e Lázaro Ramos, intérpretes de Carol e André em Insensato Coração, de 2011, e que serão os apaixonados Isabel e Zé Maria em Lado a Lado, próxima novela das seis, da Globo, que tem previsão de estreia para o dia 10 de setembro. "É uma ótima coincidência. Pois além de voltar a trabalhar com a Camila, boa parte da equipe é a mesma de Insensato Coração. O novo trabalho é uma novela de época, acho que isso minimiza as comparações com os personagens anteriores", acredita Lázaro.
Outro casal que volta a se encontrar este ano na tevê é Roger Gobeth e Juliana Silveira. A primeira vez que os dois contracenaram como par romântico foi em Floribella, folhetim infantojuvenil exibido pela Band em 2005. A partir de outubro, em Balacobaco, da Record, os dois - que chegaram a ficar noivos na vida real e depois romperam - serão Isabel e Danilo. "Já começamos a gravar. Como somos muito amigos até hoje, é legal voltar a trabalhar juntos, agora em uma trama adulta", conta Juliana.
A teledramaturgia nacional tem vários casos de pares românticos recorrentes. No entanto, se hoje a escalação é feita a partir da "química" da dupla no vídeo e da preferência dos autores e diretores, nos folhetins dos anos 60 e 70, escalar duplas que obtiveram êxito em tramas anteriores era garantia de sucesso de audiência e dava identidade aos folhetins. Dessa fórmula, surgiram casais clássicos como Tarcísio Meira e Glória Menezes, Yoná Magalhães e Carlos Alberto, e Eva Wilma e Carlos Zara. No caso de Regina Duarte, ao invés de apenas um par, ela dividiu ao longo da carreira quatro novelas com Cláudio Marzo: Véu de Noiva, Minha Doce Namorada, Carinhoso e Irmãos Coragem. E outras três ao lado de Francisco Cuoco: Legião dos Esquecidos, Selva de Pedra e Sétimo Sentido. "Naquela época o público vibrava ao saber que um casal iria retomar a parceira. Era uma loucura. Trabalhar com o Marzo e o Cuoco virou uma constante na minha vida. Ao longo dessas tramas, beijei, briguei e chorei muito com eles e por eles", diverte-se Regina.
Com poucos núcleos e cenas, as novelas do passado eram apoiadas na trama e no carisma do casal principal, algo que em folhetins mais recentes foi sendo esvaziado pelo aumento do número de personagens e tramas paralelas. "A novela quer retratar a realidade. As relações humanas também não duram mais tanto tempo. Hoje grava-se muito e o par romântico não está sempre em primeiro plano", compara, entre risos, Glória Menezes, par de Tarcísio Meira - seu marido na vida real - em mais de 15 novelas e no seriado Tarcísio e Glória, de 1988.
Atualmente, ao formarem de novo um casal, a maior preocupação dos atores é não seguir a mesma linha de atuação do anterior. Para isso, focam nas diferenças entre cada trabalho e buscam outros olhares e intenções para cada cena. "O processo fica mais complicado. É claro que o público vai olhar e lembrar do par anterior, mas a gente trabalha para isso acontecer sem causar nenhum prejuízo ao trabalho que está indo ao ar", analisa Giulia Gam, par de Edson Celulari nas novelas Que Rei Sou Eu? - trama que atualmente está sendo reprisada pelo canal Viva -, Fera Ferida e na minissérie Dona Flor e Seus Dois Maridos. Outro par recorrente na teledramaturgia dos últimos anos é Alexandre Borges e Cláudia Raia. Entre Engraçadinha, de 1995, e Ti-Ti-Ti, de 2010, a dupla já deu vida a seis casais na tevê. "Brinco que Alexandre é o homem com que mais tenho intimidade. Já fomos da comédia ao drama, já rolamos na lama (risos). É bom trabalhar com quem tenho afinidade. Afinal, casal romântico em novela se beija muito, né?", questiona Cláudia.
Terapia de casal
A história recente da tevê prova que o êxito de um casal na ficção não depende apenas da interpretação ou da "química" dos atores, mas de um texto adequado e que conquiste o telespectador. Reconhecidos até hoje pelo sucesso de Raí e Babalu, casal de Quatro Por Quatro, de 1994, Marcelo Novaes e Letícia Spiller estranharam a apatia do público ao par que interpretaram em Zazá, de 1997. "É claro que existia uma expectativa nossa e da produção da novela. Mas não teve o resultado esperado. Simplesmente, algumas tramas caem no gosto do público e outras não", acredita Letícia.
A mesma repercussão fria aconteceu na escalação de Carolina Ferraz e Eduardo Moscovis para os papéis principais do "remake" de Pecado Capital, em 1998. Casal de sucesso em Por Amor, de 1997, onde protagonizaram tórridas cenas na pele de Milena e Nando, a dupla não conseguiu a mesma popularidade com Lucinha e Carlão. "Encabeçar um 'remake' é muita responsabilidade, ainda mais de uma trama clássica. Acreditamos e nos entregamos aos personagens. Mas a história da Milena e do Nando ainda estava muito viva na memória do telespectador", analisa Carolina.
Instantâneas
Sem formarem, necessariamente, o casal da história, Avenida Brasil marca o segundo encontro de Nathalia Dill e Cauã Reymond na tevê. Na novela, Débora é apaixonada por Jorginho, mas ele gosta de Nina, de Débora Falabella. A mesma situação vivida pelos atores em Cordel Encantado, onde a personagem de Nathalia, Doralice, gostava de Jesuíno, interpretado por Cauã, mas o mocinho só tinha olhos para Aurora, de Bianca Bin.
Protagonistas da temporada 2005 de Malhação, Fernanda Vasconcellos e Thiago Rodrigues levaram a parceria da novelinha para o horário nobre ao interpretarem um casal em Páginas da Vida, de 2006. Anos depois, em 2010, eles ainda foram par na fracassada Tempos Modernos.
Se Gabriel Braga Nunes não tivesse trocado a Record pela Globo, ele estaria contabilizando seu quarto casal ao lado de Paloma Duarte. Era dele o papel de protagonista de Máscaras.
Depois de Glória Menezes, a atriz que mais trabalhou com Tarcísio Meira foi Vera Fischer. O último par romântico da dupla foi em Insensato Coração, de 2011.