Marília Gabriela explora a própria personalidade em 'Cinquentinha'
- Márcio Maio
Confiança, determinação e coragem são características que marcam a trajetória de Marília Gabriela na TV. Conceituada jornalista, a intérprete da avançada Mariana de Cinquentinha estreou como atriz na TV há cinco anos e já coleciona trabalhos marcantes em sua, relativamente, nova carreira.
Mas, pela primeira vez, ela representa uma personagem na televisão que é quase um retrato seu. Em muitos pontos os telespectadores serão capazes de associar criadora e criatura. Até mesmo no gosto por rapazes mais jovens. Mas tantas semelhanças em nada amedrontaram Marília. "Imagino que os atores devam se expor mesmo", resume.
Se algumas dessas características estão claras no ar, outras nem tanto. Mas Marília não faz questão de escondê-las. Como, por exemplo, seu lado egoísta e, como ela mesma se refere, "bipolar ligeiro", temperamental, com variações de humor. Heranças deixadas por um passado de luta para se manter na profissão. E, é claro, nas conquistas realizadas em 61 anos ¿ mais de 40 dedicados ao trabalho.
"Sou uma menina do interior. Cheguei em São Paulo disposta a vencer na vida. Me tornei defensiva, de atitudes arrojadas e agressivas para chegar em algum lugar", filosofa.
O Aguinaldo Silva declarou que as personagens eram inspiradas em suas intérpretes. Fazer algo parecido com você é mais fácil ou mais arriscado, por conta da exposição?
Imagino que os atores devam se expor mesmo. Não tenho medo e nem motivos para isso. Sou muito parecida com todo mundo e acho que, quando digo coisas que podem soar diferentes, são, no mínimo, parecidas com as de 90% das pessoas que estão me ouvindo. O momento em que você vira uma personagem é o de maior exposição, já que tira todas as suas máscaras. Sou uma jornalista séria, fui a melhor aluna, enfim, a gente cresce colocando essas máscaras. Todas as pessoas são excelentes atores, porque estão cheios de máscaras. Aí, de repente, você tem de tirar para encarnar alguém que não é você. Ali é quando você fica mais exposto. Nem quando você está ajoelhado, se confessando com um padre, está falando a verdade absoluta.O que você tem em comum com a personagem escrita pelo Aguinaldo?
Tem muita coisa minha ali. A Mariana é muito independente. É um bocado egoísta, mais até do que eu, uma mulher bem "senhora de si". Interpreto uma boa profissional, o que também tento ser e acho que sou, e bipolar, embora eu seja uma "bipolar ligeira". Mariana foi escrita para ser uma mulher temperamental, que gosta de rapazes jovens. Mas, mesmo com tantas características "moderninhas" que parecem contrárias ao sentido de família, ela dá uma imensa importância a esses laços. É uma personagem contraditória, mas sem medo e corajosa, o que eu também sou. Mas tudo isso, devo dizer, com muita comédia.De onde você acha que vem esse seu lado temperamental e egoísta? Alguma relação com sua trajetória profissional?
Acho que isso veio da minha insegurança, das minhas incertezas. Sou menina do interior e vim para São Paulo com o objetivo de vencer na vida. Virei uma pessoa muito defensiva, de atitudes arrojadas e até agressivas para chegar em algum lugar. Basicamente, veio da minha insegurança mesmo. Hoje em dia já é baseado em tudo que eu conquistei.Em Cinquentinha, você interpreta uma fotógrafa. Fez laboratório para compor o papel?
Como ela é uma fotógrafa de moda, fiz laboratório com o Bob Wolfenson. Somos grandes amigos e ele me deixou assistir a editoriais de moda para a revista Vogue. Aprendi a lidar com a câmara, com essa modernidade que a era digital exige e a me relacionar com os modelos. E fiz umas leituras com a Malu Valle, uma grande coach.Desde o momento da escalação até o final das gravações, alguns imprevistos aconteceram em Cinquentinha. De que forma isso afetou você?
Que chegasse a afetar o elenco, só uma mudança aconteceu de fato, que foi a saída da Marília Pêra. E nós tínhamos pouquíssimas cenas gravadas com ela e estávamos tão envolvidas no trabalho que, honestamente, não afetou em nada. Fico triste que ela não tenha se divertido como a gente se divertiu. Se tivesse ficado, poderia ter se divertido. Mas não atrapalhou em nada o nosso trabalho. A Betty Lago chegou completamente dona daquela personagem e rapidamente nos entrosamos.Além da desistência da Marília Pêra, a série ficou, algum tempo, indefinida na grade, sem formato decidido, e outros nomes do elenco foram escalados com atraso. Você chegou a pensar na possibilidade de Cinquentinha não ir ao ar em 2009?
A gente sabia que o programa estaria no ar em dezembro. Em momento algum tivemos dúvidas sobre isso. Se a exibição seria diária, semanal, enfim, isso sim foi algo decidido pelo Wolf Maya, pelo Aguinaldo Silva e, é claro, pela direção da Globo. Tanto é que eu me mudei para o Rio de Janeiro em agosto e fiquei até uma semana antes da estreia da minissérie. Era muito claro que eu ficaria e faria esse trabalho para vê-lo no fim do ano no ar.Como você recebeu a notícia de queCinquentinha seria uma minissérie e não um seriado?
Para o elenco, isso foi ótimo. Uma série leva um tempo para pegar. E o público precisa ter memória para lembrar o que aconteceu uma semana depois. Acho mais complicado. A exibição diária é uma delícia porque todo mundo acompanha a história de perto, a atenção fica presa naquilo. Foi uma decisão maravilhosa, no meu ponto de vista.Essa foi sua segunda minissérie em cinco anos de carreira como atriz na TV. É mais tranquilo gravar nesse formato curto e fechado?
Não sei. Em uma minissérie, você sabe o que está trabalhando ali. Recebe a história da personagem, sabe o que vai acontecer e fecha o ciclo. É o que você falou, você tem um trabalho fechado. Acho que é mais interessante. Mas essa história de não se ver antes de terminar de gravar, de poder corrigir erros depois da estreia, não conta. O ator tem de entrar pronto. Se a novela exige que ele mude alguma coisa no decorrer dos capítulos, tomara que consiga. Mas tem de entrar preparado.Cinquentinha, assim como outras novelas do Aguinaldo Silva, tem mulheres maduras nos papéis principais. Como você analisa esse crescente espaço para atrizes experientes?
Essa movimentação era inevitável. O país está envelhecendo e acho que estava mais do que na hora do Brasil começar a encarar e prestar atenção na juventude que um dia foi dourada e, agora, envelhece. Lembrar do que um dia essas pessoas foram, do que pensam, entender o que consomem... Esses são os grandes consumidores de tudo, os formadores de opinião. É justo que essa faixa etária seja encarada com seriedade. Mas não se iluda, porque a televisão - e o cinema também- é dos belos e jovens. Como sempre foi e sempre será.E no jornalismo? Acha que os jovens estão mais valorizados?
Casualmente, você está falando comigo em um dia de muita alegria. Hoje recebi um telefonema dizendo que meu programa ganhou um prêmio da revista Monet de Melhor Talk Show da TV a cabo. E também um outro prêmio de Melhor Apresentadora. Nesse outro campo, acho que o tempo e a aceitação são mais generosos. É evidente que a experiência só traz benefícios para a profissão de jornalista. É acúmulo de experiência, conhecimento, você sabe lidar com quem está ali e com o que está acontecendo.De que forma o jornalismo ajuda você em suas composições?
Meu trabalho como jornalista me ensinou a ouvir muito bem. E, na medida do possível, a aprender com o que estou ouvindo. Ser atriz é exatamente ouvir os outros. Você escuta quem contracena com você, o autor, a si mesma, o diretor... E, eventualmente, quando é uma novela, você tem a chance de ouvir o público também. Aprendi a fazer isso com o jornalismo.Pura ilusão
Vários atores preferem participar de projetos de seriados e de minisséries a se envolverem em uma novela por conta do ritmo mais tranquilo de gravações. Mas não foi isso que aconteceu dessa vez. Marília Gabriela garante que trabalhou cerca de três meses praticamente de segunda a sábado para concluir suas cenas nos oito capítulos de Cinquentinha.
"Tivemos muitos problemas em função de chuvas, que atrasaram as externas. Às vezes estávamos no carro, indo para uma locação, e tudo era cancelado em cima da hora", lamenta.
Além dos transtornos em função do mau tempo, outro imprevisto atrapalhou a rotina de Marília enquanto morou no Rio. Como a cidade sofreu com as constantes quedas de eletricidade, a atriz chegou a se acostumar com as caras desoladas dos funcionários do hotel onde ficou hospedada, em Ipanema, na Zona Sul carioca. É que o bairro foi um dos mais afetados e não foram poucas as noites em que Marília precisou subir 14 lances de escada para chegar ao seu quarto depois de um dia agitado de gravações. "Pelo menos isso serviu para uma coisa: estou com pernas ótimas", diverte-se.
Sintonia automática
Assim como as personagens centrais de Cinquentinha, Marília Gabriela não esconde que sua relação com a passagem do tempo não é das melhores. Ela admite que "envelhecer é um saco" e chega a levar a questão para o consultório de seu analista. Longe de precisar se preocupar com as marcas do tempo ¿ a atriz se mantém em plena forma física aos 61 anos ¿, Marília não economiza cuidados para se manter bem. Jura que toma um litro e meio de água em jejum todos os dias e complementa a alimentação com vitaminas e suplementos alimentares. "E faço pilates diária e religiosamente. Sou saudável mesmo", garante.
Marília consegue resumir em uma ideia seu principal conflito com a idade: a de que o corpo envelhece, mas a cabeça continua jovem. "É um processo muito doido. Há um descompasso. Por vezes, meu raciocínio é imaturo, mas meu corpo me mostra que o tempo passou", analisa. Mas, sempre com bom humor, ela faz piada com a situação e mostra, assim, que o discurso é levemente exagerado, assim como os diálogos fictícios criados para a minissérie. "Na minha família todo mundo morre com doenças pavorosas. Mas, quem sobrevive, fica com uma pele e umas pernas! Espero prosseguir nessa segunda opção", ironiza.
Trajetória televisiva
Jornal Hoje (Globo, 1969) - Apresentadora.
Fantástico (Globo, 1973) - Repórter especial.
Fantástico (Globo, 1974) - Correspondente.
TV Mulher (Globo, 1980) - Apresentadora.
Marília Gabi Gabriela (Band, 1985) - Apresentadora.
Cara a Cara (Band, 1987) - Apresentadora.
Jornal Bandeirantes (Band, 1990) - Apresentadora.
Marília Gabi Gabriela (CNT, 1995) - Apresentadora.
Aquela Mulher (GNT, 1996) - Apresentadora.
SBT Repórter (SBT, 1997) - Apresentadora.
Marília Gabriela Entrevista (GNT, desde 1998) - Apresentadora.
Gabi (Rede TV!, 2000) - Apresentadora.
De Frente com Gabi (SBT, 2002) - Apresentadora.
Senhora do Destino (Globo, 2004) - Josefa/Guilhermina.
JK (Globo, 2006) - Celita.
Duas Caras (Globo, 2007) - Guigui.
Cinquentinha (Globo, 2009) - Mariana.