Fernanda Montenegro: "vamos falar de velhice e homossexualidade"
Após mais de 60 anos bem vividos de carreira, o nome de Fernanda Montenegro virou uma "marca". Premiada e disputada por profissionais do teatro, do cinema e da televisão, aos 84 anos, a intérprete, que acaba de ganhar um prêmio Emmy Internacional de Melhor Atriz por seu desempenho como a elétrica Dona Picucha do telefilme Doce de Mãe, dispensa qualquer tratamento especial. E segue na contramão do estrelismo ou da bajulação exacerbada. "Não sou 'diva' do teatro, não sou 'dama' da TV. Sou apenas uma atriz que gosta de fazer seu trabalho da melhor forma possível. O prêmio foi muito bem-vindo, me emocionei. Mas, a esta altura da vida, não muda muita coisa para mim", analisa, entre risos, a atriz que, antes de vencer o prêmio da Academia Internacional das Artes & Ciências Televisivas, já havia sido indicada ao Oscar por sua atuação em Central do Brasil, de 1998.
Sem qualquer pressão ou maiores responsabilidades, a partir da próxima quinta-feira (30) Fernanda volta ao ar na série que narra a peculiar vida de Dona Picucha. Em entrevista, ela fala sobre a personagem e os próximos desafios. Em 2015 ela deve ser escalada para a próxima novela de Gilberto Braga onde pode fazer par romântico com Nathalia Timberg.
Muito antes de qualquer premiação, Doce de Mãe já tinha o aval da Globo para uma temporada de 14 episódios, todos gravados entre a cidade de Porto Alegre e os estúdios da emissora, no Rio de Janeiro. "A produção da série cresceu, ganhou novos contornos. O bom de voltar a contar essa história é a possibilidade de mostrar melhor a Picucha, saber para onde ela vai", entusiasma-se. Acostumada a interpretar matriarcas fortes e granfinas em novelas como Belíssima e Passione, Fernanda acredita que sua personagem levanta a bandeira da classe média e o quão interessante é o cotidiano de uma mulher simples, que não se deixa abater pelos problemas decorrentes da velhice ou pela iminente solidão. "Me inspirei muito nas mulheres 'normais' da minha família", entrega.
Idealizado e dirigido por Jorge Furtado, "Doce de Mãe" é uma coprodução da Globo com a Casa de Cinema de Porto Alegre. Ao lado de nomes como Marco Ricca, Matheus Nachtergaele e Mariana Lima, Fernanda passou boa parte do mês de dezembro gravando em pontos importantes da cidade. Ir até a locação, inclusive, é um prazeroso detalhe para a atriz. "Parece que no Brasil só tem Rio, São Paulo, Bahia e Pernambuco. As outras regiões têm papel secundário. Acho maravilhoso mostrar o Sul do país. O que mais me encanta em Porto Alegre é que a cidade é coberta de Jacarandás. É lindo e diferente demais!", empolga-se a atriz, que foi pela primeira vez na cidade durante os anos 1960.
Aposentadoria é uma palavra proibida no vocabulário de Fernanda. "Enquanto me convidarem e for algo que eu queira fazer, estarei trabalhando", ressalta. Com invejável disposição, ela emendou as gravações finais do remake de Saramandaia, exibido até outubro do ano passado, com a pré-produção de Doce de Mãe. Para 2014, além de uma possível volta ao teatro e planos para o cinema, ela grava os episódios restantes das histórias de Picucha e seus filhos. Em sintonia com o projeto, ela assume que tem fôlego e vontade para uma possível segunda temporada da série. No entanto, os planos da produção empacam na escalação prévia da atriz para a próxima novela de Gilberto Braga, com previsão de estreia para o primeiro semestre de 2015. Mesmo sem saber de muitos detalhes da personagem, a atriz assume que a chance de voltar a atuar sob o texto de Braga – com quem trabalhou em Brilhante e O Dono do Mundo – e fazer par romântico com Nathalia Timberg, é, no mínimo, instigante. "Vamos falar sobre velhice e homossexualidade. Vai ser ótimo abordar temas tão importantes como esses ao lado da Nathalia", garante.
Tempo de improviso
Fernanda Montenegro encara a liberdade de criação que tem em Doce de Mãe como uma volta aos seus primeiros projetos televisivos. Na extinta Tupi, de 1951 a 1961, participou de inúmeras apresentações do Grande Teatro Tupi, onde, dirigida por Sérgio Britto, atuou em clássicos da literatura nacional e estrangeira. "Quem fazia as adaptações era o Manoel Carlos. Respeitávamos o texto, mas cada um colocava o que achava interessante em cena. Gosto de ter essa possibilidade de improvisar. Até novas piadas eu sugiro para encorpar as confusões que a Picucha se mete em Doce de Mãe'", entrega.
Conhecida por sua forte relação com o teatro, Fernanda afirma que deve muito à televisão. Afinal, foi dentro dos estúdios que ela acredita que se tornou uma atriz mais completa, com a capacidade de lidar com uma forma mais instantânea e industrial de atuação. "A TV é primordial para qualquer ator. É um exercício de disciplina e versatilidade", valoriza.