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Felipe Castanhari desvenda os mistérios do mundo em sua primeira série para a Netflix

Em entrevista ao 'Estadão', o youtuber falou sobre inspirações, processo de criação e críticas nas redes sociais

1 ago 2020
08h10
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O youtuber Felipe Castanhari estreia na próxima terça-feira, 4, sua primeira série original da Netflix: Mundo Mistério. Em oito episódios que misturam aspectos de dramaturgia e documentário, Castanhari explica temas como os mistérios do Triângulo das Bermudas, a Grande Peste e viagem no tempo.

"A série tem como objetivo mostrar que às vezes muitos dos mistérios que a gente adora colocar a culpa no sobrenatural são coisas que a ciência explica", disse Castanhari em entrevista ao Estadão.

Em um formato diferente do que os 13 milhões de inscritos do canal Nostalgia estão acostumados, Castanhari conta com o apoio de três personagens, a Dra. Thay (Lilian Regina), o zelador Betinho (Bruno Miranda) e o supercomputador Briggs (dublado por Guilherme Briggs) para desvendar fenômenos científicos que intrigam a humanidade.

"Eu não queria que fosse 100% infantil, queria que qualquer pessoa pudesse assistir, mas eu sabia que se fosse só no gênero documental, talvez eu não conseguisse atingir esse público." Para isso, além da série ter como cenário um laboratório, onde os diálogos entre os personagens acontecem, Felipe também viaja ao redor do mundo - das Ilhas Bermudas a castelos europeus, para contar essas histórias em seus locais de origem.

Ao Estadão, Castanhari falou sobre o desafio de produzir conteúdo para a gigante do streaming, a inspiração por trás de Mundo Mistério e as críticas que recebeu nas redes sociais recentemente por estar à frente de uma série sobre Ciência e História sem ser um especialista nas áreas. Confira abaixo:

Assista ao trailer de Mundo Mistério com Felipe Castanhari:

Como surgiu a ideia de Mundo Mistério?

A produção da série durou cerca de dois anos. Comecei a escrever em junho de 2018, foi um processo bem demorado, bem cuidadoso e a ideia surgiu com um quadro do meu canal, o Nostalgia Ciência, onde eu explicava com a ajuda de cientistas algum tema com animação, de forma mais simples. Fiz um programa mesmo, era baseado em O Mundo de Beakman, que passava na TV Cultura nos anos 90. Quando eu tive uma reunião com a Netflix para apresentar um outro projeto que eu tinha, um desenho animado, eles gostaram e perguntaram se tinha outro projeto que eu gostaria de fazer. Falei do Nostalgia Ciência e que gostaria de levá-lo para outro patamar, bem maior do que é no YouTube.

O que você espera que as pessoas absorvam dessa série?

A série tem como objetivo mostrar que às vezes muitos dos mistérios que a gente adora colocar a culpa no sobrenatural são coisas que a ciência explica. Ao meu ver a ciência é tão interessante quanto o sobrenatural. Eu quis mostrar que você não precisa do sobrenatural para ver entretenimento, mistério, dá para criar interesse só usando a ciência. Espero que sintam curiosidade por entender os métodos, por querer saber como a ciência é importante para a sociedade e como conseguimos enxergar muito além com ela. Principalmente para a molecada. Saber que a minha série, com o alcance da Netflix, pode influenciar positivamente muita gente é o grande objetivo e uma grande satisfação.

As pessoas certamente vão se surpreender quando descobrirem que a série não é exatamente documental. Como foi definido o formato?

Elas vão perceber que é um formato bem único, uma mistura de dramaturgia com documentário. Esse foi um dos motivos pelo qual a produção da série demorou um pouco mais de tempo do que a gente planejava. Eu fui modificando o formato conforme a gente ia escrevendo e produzindo. Como eu não tinha exatamente na minha cabeça como seria o programa, fui fazendo modificações, mudando roteiro, animações, até que encontrei um formato que achei bacana.

Quando a Netflix anunciou a data de lançamento, você recebeu muitas críticas por estar à frente de um programa sobre Ciência e História e não ser especializado nessas áreas. Como você lidou com isso?

Hoje em dia as redes sociais acabam trazendo um debate que não é propositivo e nem pautado em realidade. A polêmica veio com a galera querendo me associar a um programa que nem é meu, que eu nem criei, que é a questão do Guia Politicamente Incorreto (programa lançado em 2017 no History Channel baseado no livro de Leandro Narloch). Só fui o apresentador que introduzia os convidados. Foi bem triste para mim, mas foram poucas pessoas. O meu trabalho fala por mim. Tenho nove anos de conteúdo no YouTube, inúmeros vídeos usados em sala de aula, um professor não iria passar meus vídeos se não fosse um conteúdo responsável. Sempre contei com pesquisadores, com historiadores, com algum especialista. Não sou, nunca quis ser e nunca falei que era historiador ou cientista. E trazer esse debate é inútil, de que só historiadores e cientistas podem falar sobre um assunto. Nem faz sentido debater isso, a gente estaria ignorando muitos conteúdos bacanas produzidos não por historiadores, mas que contaram com esses profissionais por trás.

Como foi a participação desses profissionais na produção da série?

Para cada episódio a gente trabalhou com uma empresa de consultoria científica, que fez a pesquisa e revisão de cada um. São especialistas como historiadores, paleontólogos, pesquisadores de instituições como a USP e Universidade de Ciências de Lisboa. O nosso objetivo sempre foi informar corretamente. Não é novidade, eu sempre fiz isso. A polêmica fica nessa questão de extremos e eu condeno os extremos, eles são nocivos. Meu conteúdo nunca foi opinativo, sempre foi informativo. Sempre introduziu assuntos para o grande público, pessoas que não são historiadores, público que não tem acesso a esse conteúdo. É uma polêmica sem fundamento. Twitter hoje é isso, essa política do cancelamento faz com que as pessoas se sintam incentivadas a todo momento a querer cancelar alguém por qualquer motivo, quando a gente sabe que existem questões muito mais importantes a serem debatidas hoje no Brasil.

No YouTube, você costuma aparecer sozinho nos vídeos. Por que decidiu colocar outros personagens na série?

Na verdade, como a minha referência sempre foi o Mundo de Beakman, eu sabia que se colocasse alguns personagens eu conseguiria também fazer a série ser um pouco mais apelativa para um público mais novo. Eu não queria que fosse 100% infantil, queria que qualquer pessoa pudesse assistir, mas eu sabia que se fosse só no gênero documental, talvez eu não conseguisse atingir esse público. Eu preciso de personagens para gerar empatia e diminuir a densidade do conteúdo, para dar uma quebrada em tantas informações, e os personagens ajudam a resolver essa questão.

Como foi a construção dos personagens?

O Betinho é um link com o público que pode não estar entendendo muito bem o conteúdo. Ele faz perguntas, serve para se relacionar. A doutora Thay vem para explicar assuntos mais densos, a parte mais científica, e até mesmo para ter uma cientista ali, uma mulher negra, para trazer representatividade. Eu sei que vai inspirar muitas meninas negras que vão assistir a série a olhar e pensar: "eu posso ser uma cientista também". Todas essas coisas ajudaram a tomar a decisão de ter personagens na série, foi importante para a narrativa.

Qual é a importância de falar sobre ciência no momento em que ela está no centro do mundo?

Ela sempre esteve no centro do mundo, mas as pessoas não paravam para prestar atenção nisso. Todos os equipamentos que a gente usa hoje são reflexos da ciência. Se não fossem por pesquisadores que conseguiram desenvolver aquilo, a gente não teria conectado a sociedade como conectou e não teria dado acesso a informação para milhares de pessoas. A gente vive um momento estranho, porque por mais que a gente entenda o papel e a importância da ciência na nossa sociedade, a gente ainda tem algumas pessoas que são anticiência, tem o debate da terra plana rolando, uma coisa que começou parecendo que era brincadeira, mas é super sério, muitas pessoas acreditam nisso. Se a gente está tendo que discutir sobre a terra plana, imagina o momento estranho que estamos vivendo. É por isso que eu acho importante ressaltar e exaltar a ciência.

Como você decidiu os temas dos oito episódios? O segundo, sobre a Grande Peste, questiona se uma epidemia poderia mudar o mundo como mudou na Idade Média...

A gente gravou os episódios no começo de 2019, ainda estava longe da pandemia (do novo coronavírus), nem sonhávamos que algo assim poderia acontecer. Escolhi os temas baseado no que a minha audiência pedia. Estou há 10 anos lendo comentários e pedidos de vídeo, então tenho uma boa amostragem do que geraria interesse. A Peste era um dos vídeos mais pedidos, foi dessa forma que escolhi, mas não tinha como imaginar que a gente viveria uma pandemia. É bom para entender como é o efeito de uma pandemia numa sociedade sem vacina, sem higiene, sem saneamento. A gente já está lutando muito com o vírus mesmo com parte da população tendo acesso a saneamento básico, imagina se acontecesse na Idade Média, como foi a Peste?

Agora você volta para o YouTube ou já pensa em uma segunda temporada?

Eu preciso de férias agora. Trabalhei muito nessa série nos últimos anos. Naturalmente vou ter tempo para voltar a postar no YouTube, que é uma plataforma que jamais vou abandonar. Fico feliz de poder voltar a produzir para o canal. Sobre a segunda temporada, vai depender da Netflix e de como a série vai desempenhar. Seria bacana fazer uma segunda temporada entendendo todos os desafios que passei com a primeira, o amadurecimento, as coisas que aprendi produzindo para a Netflix, que é bastante diferente de produzir conteúdo para o YouTube.

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Estadão
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