Diretor do 'Zorra Total' dedica 59 anos de sua vida à TV
- Márcio Maio
É só Maurício Sherman começar a contar suas memórias para parte da equipe do Zorra Total parar para ouvir mais de duas horas de conversa. Também, pudera. A história da televisão e de Maurício Sherman se cruzam a todo o momento. O diretor do humorístico dedicou 59 dos seus 79 anos de vida ao trabalho nos estúdios e programas de quase todas as emissoras abertas que já existiram no Brasil. E lembra bem onde estava em 21 de janeiro de 1951, dia em que aconteceu a primeira transmissão de TV no Rio de Janeiro, estado onde nasceu. "Eu frequentava um clube em Niterói e criamos um grupo. Nos cotizamos para comprar um aparelho, que era bem caro, e assistimos juntos", explicou.
A estreia de Maurício na TV aconteceu no mesmo ano. Decidido a ingressar na carreira artística, o então estudante de Direito iniciou sua jornada fazendo figuração e pequenas participações como freelancer da TV Tupi. E pouco depois, no mesmo ano, estreou como ator profissional na peça Massacre. O espetáculo viajou para São Paulo e lá recebeu o convite de Cassiano Gabus Mendes para gravar alguns teleteatros na TV Tupi. Foi o primeiro passo para, em 1954, dirigir os principais programas da emissora no Rio, chamado também por Cassiano. "Como havia problemas por aqui, o Assis Chateaubriand trouxe o Cassiano para passar alguns meses e acertar a programação. Ele já me conhecia e me ofereceu um bom contrato aos 23 anos", lembrou.
A Tupi preencheu seu currículo por mais de 15 anos, em três épocas diferentes. E deixou recordações que até hoje fazem Sherman gargalhar. Como quando interpretou um soldado romano no teleteatro A Paixão de Cristo. Em cena, viu uma mosca pousar na testa do figurante que interpretava Jesus, preso na cruz. "A câmara estava atrás de mim, então tentei assoprar. Mas não adiantou. A mosca andou em direção ao nariz e o cara tirou a mão - que, é claro, não estava pregada - e espantou o bicho. Isso foi ao ar", divertiu-se, lembrando em seguida de como eram feitas as transmissões da previsão do tempo nos telejornais. "A bancada ficava ao lado de uma janela. Sem que a câmara pegasse, o apresentador colocava a mão para fora e via se estava fresco. Um dia, viraram um regador cheio de água e ele, sem saber que era uma brincadeira, disse que estava chovendo torrencialmente", contou.
A carreira de Sherman na TV ficou marcada pelos musicais nas décadas de 60. Mas o diretor assume que não foi uma questão de posicionamento artístico. "Todo mundo queria ver, eram os programas que mais faturavam", revela ele, que lançou o polêmico jornalista Paulo Francis como repórter do Cássio Muniz Show, na Tupi.
A música sempre teve destaque em sua carreira. Foi assim em sua passagem na Tupi, na Excelsior e na própria Globo, onde ingressou em 1965 dirigindo o Espetáculos Tonelux, apresentado por Marília Pêra, Gracindo Júnior, Paulo Araújo e Riva Blanche. "A gente também incluía alguns números musicais nos humorísticos. O público e os patrocinadores pediam", disse. Saiu de lá três anos depois, quando o seu Noites de Gala migrou para a Excelsior. Mas, poucos meses depois, Sherman voltou para a Tupi e, em seguida, para a Globo, onde participou do lançamento do dominical Fantástico, em 1973.
Sherman se orgulha por ter visto a abertura de algumas redes de TV de perto e foi um dos responsáveis pela articulação da Manchete, de Adolpho Bloch, em 1983. Mas não foi fácil convencer o empresário de que não teria êxito apenas com jornalismo e filmes. Tanto que ao ouvir de Sherman, já contratado, que eles deveriam fazer novelas, Bloch cuspiu no chão. "Mandei ele cuspir de novo, porque ia fazer sim. E ele cuspiu três vezes. Mas fez", recordou. O início - com as minisséries - foi complicado. "O único estúdio disponível era o fotográfico da revista Manchete, no terceiro andar do prédio. Tivemos de usar um elevador externo e ainda queriam fazer o chão da casa da Marquesa de Santos de pedra de verdade. Um despreparo impressionante", reclamou o diretor, responsável pela estreia das apresentadoras Xuxa e Angélica no infantil Clube da Criança.
Curiosamente, foi na própria Manchete que Sherman conseguiu uma de suas maiores audiências. O diretor comandou a transmissão do Carnaval de 1984, ano em que a Globo deixou de exibir o primeiro desfile carioca no Sambódromo, inaugurado naquele ano. Exatamente o primeiro carnaval do mandato do governador Leonel Brizola. O resultado foi um ibope acima de 80 pontos para a emissora de Adolpho Bloch. "O macete foi mostrar o que era bonito. Mulher, principalmente", entregou ele, que voltou para a Globo em 1988, dois anos antes de dirigir a minissérie A, E, I, O, Urca, gravada no prédio onde o a TV Tupi funcionou no Rio. De lá para cá, Sherman já passou pela direção de diversos programas da linha de shows da emissora, como Domingão do Faustão e Vídeo Show.
Questão de oportunidade
A década de 70 marcou a decadência do gênero musical. E Maurício Sherman aproveitou para investir mais no segmento de humor. Sherman, que já tinha experiência nessa área com os extintos Bairro Feliz e Riso Sinal Aberto, ambos na década de 60, passou a dirigir em 1972 o saudoso Faça Humor, Não Faça Guerra, na Globo, comandado por Jô Soares e Renato Corte Real. Além dele, dirigiu o programa de variedades Moacyr Franco Show, com esquetes de humor e números musicais. E, em 1981, comandou o Chico Anysio Show e, posteriormente, Os Trapalhões, por dois anos. "Vim do teatro e sempre me relacionei muito bem com os humoristas. Acabei virando um nome de referência nessa linha", analisou.
Sherman está à frente da direção do Zorra Total desde 1999. E já aproveitou o humorístico para recuperar várias ideias e quadros que deram certo no passado. Como os personagens Bento Carneiro e Alberto Roberto, ambos de Chico Anysio. E também na época em que um cenário de edifício foi adotado do programa. Uma espécie de homenagem ao extinto Balança Mas Não Cai, que surgiu na Rádio Nacional em 1950 e migrou para a Globo em 1968. Com a diferença que hoje, com os avanços tecnológicos e os vários efeitos especiais, as cenas de humor são criadas mais facilmente. O que faz com que ele deixe claro que não tem a menor saudade da época em que o trabalho era mais manual. "Do passado, só sinto falta da minha idade", brincou Sherman.