Direto da CNN, Franz Vacek comenta o futuro do telejornalismo
O jornalista Franz Vacek está imerso na redação daquele que é considerado o mais importante canal de notícias do planeta, a CNN. O superintendente de Jornalismo e Esportes da RedeTV! integra um seleto grupo de comunicadores de um programa de observação e aprimoramento do telejornalismo. Direto de Atlanta, no estado americano da Georgia, onde fica o principal estúdio da CNN, ele concedeu a entrevista a seguir.
Como aconteceu a seleção para participar desse encontro na CNN? Sua experiência como correspondente internacional foi considerada na avaliação?
Esse programa chamado "Journalism Fellowship", da CNN, que estou participando é voltado especificamente para quem exerce cargos de liderança no jornalismo mundial. Durante a seleção coloquei no meu currículo a experiência como correspondente e atualmente superintendente de Jornalismo e Esportes de uma das maiores emissoras do Brasil. Tudo foi levado em consideração. Claro que ter passado por experiências que poucos repórteres da própria CNN tiveram, como ter sido o primeiro jornalista a entrar nos conflitos na Líbia e na Ucrânia, e ter feito coberturas como Haiti, Fukushima, Chernobyl, praça Tahir, jogos olímpicos em Londres e visitas presidenciais contou bastante.
O que, efetivamente, tem feito na redação da emissora? Possui trânsito livre para acompanhar a dinâmica de trabalho do canal?
É incrível. Portas abertas. O programa é intenso. Começa às oito da manhã e não para. É trânsito cem por cento livre. Tive a oportunidade de participar da reunião mundial de pauta e acompanhar todos os processos. Ainda tive reuniões com o presidente da CNN, Jeff Zucker. Além disso estou acompanhando os processos técnicos, os novos equipamentos, programação, conteúdo digital e a interação entre televisão, celular e internet. Semana que vem terei contato direto com as direções da Turner Sports e Cartoon Network. É interessante que eles aceitam críticas porque querem sempre melhorar.
No seu contato com os jornalistas da CNN, como avalia a visão que eles têm do Brasil?
Acho que ainda um pouco distante. Associam a América Latina com realidades parecidas sem contar muito as particularidades brasileiras. Talvez porque a CNN não tenha tanta penetração no Brasil como em outros países de língua espanhola. A CNN espanhol tem grande abrangência na região. No entanto eles possuem profissionais experientes e boa estrutura para cobrir os factuais mais importantes no Brasil.
Acha que a cobertura sobre o país é adequada ou ainda somos subestimados no contexto internacional?
Sinceramente acho que a cobertura da CNN sobre o Brasil ainda é pequena. A programação internacional é mais voltada para factuais com abrangência no Oriente Médio, Ásia e Europa. Com a chegada das Olimpíadas no Rio a tendência é nosso país ganhar destaque.
Como tem sido a troca de experiência com os participantes de outros países?
Fantástica. Tenho falado sobre a televisão brasileira e aprendido muito sobre os diferenciais ao redor do mundo. No entanto a língua é a mesma: jornalismo. Vejo que estão todos antenados em entender as transformações do jornalismo com a chegada das mídias sociais e qual será o futuro da televisão. Posso afirmar que é uma troca de experiências fascinante.
A CNN foi uma das primeiras emissoras a humanizar o repórter, especialmente o correspondente de guerra. Os jornalistas da emissora deixaram de apenas relatar fatos e passaram a incluir análise e opinião nas matérias. É o seu estilo preferido de telejornalismo?
Sim. Cobro isso na Rede TV!. Se a matéria-prima do jornalismo é o ser humano, temos que humanizar os repórteres. Especialmente nas guerras onde encontramos o mais extremo de nós mesmos. Não dá para ficar indiferente. Precisamos parar de fazer jornal para jornalistas. Existem outras fórmulas possíveis dentro do jornalismo que não são usadas. Um bom jornalista é um bom contador de histórias. Por que não reescrever diferente? Será que só existe OFF + Passagem + Sonora? Claro que não. O telespectador não quer ver robôs. O foco aqui, além do ao vivo, são reportagens com bons personagens. Eles apostam em pelo menos três boas histórias exclusivas no mundo diariamente.
Jornalistas da CNN com notável trabalho em campo, como Peter Arnett e Christiane Amanpour, serviram de referência para você?
Respeito muito o trabalho deles. É uma referência indireta porque na minha trajetória nunca imitei modelos ou pessoas para não perder a minha identidade autoral. Como correspondente e videorrepórter fiz jornalismo com minhas imagens e meu texto. É um processo que eles não passaram.
Você se tornou um dos correspondentes mais experientes da TV brasileira. Hoje está numa posição que o faz escolher novos correspondentes. Quais critérios utiliza na seleção?
Primeiro eu deixo claro que ser correspondente internacional não é glamour. É trabalho pesado e sério. Não é fácil deixar o seu país, a sua família, seus amigos e referências. Deixar tudo para trás e se dedicar integralmente a fazer jornalismo em um país diferente. É estar preparado para as mais diferentes situações. Desde o dia a dia da sua região até desastres naturais e guerras. Você tem que estar vinte e quatro horas disponível. Entre os critérios é muito importante que o jornalista fale idiomas e também tenha conhecimentos técnicos. É fundamental que ele tenha excelente formação cultural. Ele também é uma espécie de embaixador do Brasil e da televisão brasileira no exterior. Nesse sentido, o profissional tem que ser extremamente capacitado e representar bem o nome da emissora e do país. Na minha apresentação, jornalistas do mundo todo e da CNN ficaram impressionados com o vídeo que eu mostrei das minhas coberturas internacionais. O material exclusivo que eu produzi nem a própria CNN tinha. É verdade que eu trabalhei em guerras e desastres naturais sozinho e foi muito arriscado. Hoje como superintendente eu não quero que ninguém passe pelos riscos de morte que eu passei. Agora eu tenho responsabilidade pela vida de outras pessoas e sou mais criterioso. No final da minha palestra me perguntaram por que eu expus a minha vida tantas vezes? Respondi que pelo amor ao jornalismo. Fiquei emocionado quando todos me aplaudiram com lágrimas nos olhos. Percebi que ali eu tinha ido longe demais. Naquele instante eu havia me tornado uma referência para eles. Ficaram impressionados que um jornalista brasileiro tenha toda essa experiência. Ter visto com a própria lente o mundo em transformação. Foi um momento especial na minha carreira. Um reconhecimento por tudo que eu passei.
A maioria das grandes redes de TV dos Estados Unidos assume ideologia política e partidária, sem que isso comprometa a imparcialidade e a credibilidade do jornalismo. No Brasil, os canais evitam manifestar preferência por partidos e candidatos, ainda que às vezes isso fique implícito. Qual postura editorial prefere?
Eu falo na redação todos os dias que o meu partido é o jornalismo. Acho que ouvir os dois lados, apurar bem os fatos, preservar as fontes e liberdade editorial são princípios que regem a profissão. Não concordo em assumir ideologias políticas no jornalismo. Certamente afeta direta ou indiretamente a essência da própria profissão. A nossa missão é informar com ética e imparcialidade. Quem deve julgar é o telespectador. No entanto sou favorável a ter comentaristas e programas jornalísticos com diferentes visões e tendências.
O telejornalismo está cada vez mais informal e tecnológico. Qual o seu prognóstico para os próximos anos?
Hoje em dia qualquer pessoa com celular nas mãos é um repórter. Ele é capaz de produzir um vídeo em alta definição e colocar na internet para que o mundo possa assistir. A tecnologia evoluiu muito em pouco tempo. Hoje temos as mídias sociais que exercem um papel cada vez mais importante. O que vai nos diferenciar enquanto conteúdo televisivo é a apuração dos fatos. É a qualidade da notícia. São os princípios do jornalismo que vão continuar valendo para sempre. Em um vídeo caseiro não existe essa preocupação. É fato que as emissoras que hoje não se adaptarem às novas tecnologias e descartarem a interação entre internet e televisão não terão futuro. Eu tenho usado muito em nossos jornais e programas ferramentas como Twitter, Facebook e WhatsApp para aproximar este público da televisão e vice-versa. O nosso portal produz conteúdo próprio. Ele cresceu muito em um ano. Esse é o caminho. Outro é ter o maior número possível de eventos ao vivo para as emissoras competirem com a velocidade da internet.
A experiência na CNN já despertou ideias que pretende implantar no telejornalismo da RedeTV?
Sim. Tenho tido ideias o tempo todo. Modestamente tenho também mostrado um jeito diferente de fazer televisão para eles. Falei sobre o RedeTV! News ter sido o primeiro telejornal brasileiro a tirar os apresentadores da bancada para interagir de maneira coloquial com a redação, do uso de ferramentas como o Twitter no programa da Mariana Godoy, entre outras tendências que a Rede TV! implementou na minha gestão. Essa troca é muito rica. Estou cheio de anotações. Pretendo colocar muita coisa em prática o mais rápido possível. Pensei em novos formatos e conteúdos. Aprendi muito com a dinâmica de trabalho deles.
Como tem sido comandar o jornalismo da RedeTV! de Atlanta?
Estou conectado o tempo todo. Está longe de ser férias. O curso é muito intenso, mas tenho acompanhado tudo o que se passa na Rede TV!. Daqui eu peço pautas e cobro resultados. Ligo, respondo e-mails e acompanho as audiências. Até os americanos se espantam com o ritmo do meu trabalho, mas faço o que gosto. Essa experiência tem sido um dos mais ricos aprendizados profissionais da minha vida. Ficarei nos Estados Unidos até o dia 24. Levarei na bagagem muita coisa boa para a televisão brasileira.