Copa, novelas, realities: por que estamos menos empolgados sobre tudo
Admirado mundialmente por sua alegria, o brasileiro parece ter perdido parte da capacidade de se deixar envolver coletivamente
Durante décadas, o Brasil foi um país acostumado a viver emoções em conjunto. Uma Copa do Mundo mobilizava ruas inteiras.
Novelas faziam famílias interromperem a rotina para acompanhar o capítulo decisivo.
Reality shows eram um assunto obrigatório nas rodas de conversa.
Hoje, embora esses fenômenos continuem relevantes, a intensidade é outra, bem menor.
O país que parava diante da televisão já não se entrega à euforia com a mesma facilidade.
Nem mesmo a Seleção Brasileira consegue reproduzir a atmosfera quase sagrada que cercava os Mundiais de outras épocas.
Até a barulheira das irritantes vuvuzelas é menor.
A mudança pode ser percebida também nas novelas. Produções como ‘Roque Santeiro’, ‘Tieta’ e ‘Avenida Brasil’ produziram uma experiência coletiva nacional.
Já não ocorre com a mesma intensidade. Nem mesmo o aguardado desfecho do remake de ‘Vale Tudo’ teve a mesma mobilização.
Os realities seguem uma trajetória semelhante. Houve um tempo em que o ‘Big Brother Brasil’ dominava o debate público e gerava uma participação frenética nas redes sociais.
Ainda é um produto de grande repercussão, mas o entusiasmo está mais fragmentado.
A questão é saber se estamos diante de uma simples mudança de hábitos ou de uma transformação mais profunda na forma como os brasileiros se relacionam com a emoção e com o entretenimento.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, autor do conceito de “modernidade líquida”, argumentava que a sociedade contemporânea tornou tudo mais efêmero.
Vínculos, interesses e paixões passaram a durar menos. Em um ambiente marcado pela velocidade e pela abundância de estímulos, a permanência do encantamento se torna cada vez mais difícil.
Faz sentido: são tantas telas, infinitas opções (TV aberta, canais pagos, plataformas de streaming, YouTube, TikTok, Instagram, X…), que a gente não sabe onde concentrar a atenção.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han vê na hiperconectividade um dos traços centrais do nosso tempo.
Segundo ele, a avalanche contínua de informações produz uma espécie de fadiga emocional.
Em vez de aprofundar experiências, o indivíduo é empurrado para uma sucessão interminável de novidades, tornando-se incapaz de permanecer muito tempo verdadeiramente envolvido com alguma coisa.
O sociólogo francês Gilles Lipovetsky descreveu esse fenômeno como a era da hipermodernidade, caracterizada pela busca permanente por estímulos e pela dificuldade em sustentar interesses duradouros.
Quanto maior a oferta de experiências, mais difícil se torna atribuir a elas um caráter excepcional. Tudo parece morno e incapaz de segurar o interesse.
A psicanálise também oferece pistas. Sigmund Freud observava que a satisfação humana tende a ser transitória.
Aquilo que antes despertava fascínio acaba sendo incorporado à rotina.
Jacques Lacan, por sua vez, afirmava que o desejo humano é movido pela falta, ou seja, estamos sempre buscando algo melhor, eternamente insatisfeitos.
Há outra questão: o isolacionismo. As pessoas convivem hoje em grupos, cada um com seus próprios ídolos, séries, influenciadores e paixões.
Um exemplo disso é a CazéTV, que reúne milhões de brasileiros em uma espécie de comunidade.
Quem acessa o canal se sente parte dele, o tal senso de pertencimento, e ignora os demais.
Ao invés de vivências coletivas, parcela numerosa dos brasileiros prefere o seu ‘mundinho particular’, muitas vezes reduzido a uma tela de celular.
E não se impressiona nem se entusiasma com as pequenas coisas.
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