Conservadorismo contra ‘Bebê a Bordo’ prova como encaretamos
Novela que falava abertamente de sexo há 30 anos é reeditada para agradar ao público recatado de hoje
Estamos em 1988. Na faixa das 7 da noite da Globo, uma novela mostra sexo casual, amor livre, sonhos eróticos, poligamia, prazer feminino, adultério consentido, atitudes feministas e discursos por igualdade de gêneros.
Tal produção é um sucesso de crítica e público. O roteiro moderno oxigena o estilo das comédias açucaradas exibidas na hora do jantar.
A partir de então, seu autor, Carlos Lombardi, vira referência de novela ágil e criativa a respeito de temas contemporâneos.
Agora pulemos para 2018. A mesma novela é transmitida à tarde e no início da madrugada no Canal Viva, especializado em reprises.
Parte relevante dos telespectadores reage mal a tamanha ousadia na TV. A audiência despenca.
A emissora se apressa a reeditar os capítulos a fim de deixá-los menos picantes – a versão na íntegra, ou melhor, a versão não censurada, é disponibilizada na plataforma Viva Play.
A reapresentação de ‘Bebê a Bordo’ comprova o óbvio: o brasileiro está mais conservador do que há três décadas. Encaretou geral.
Até parece que o Ocidente não passou por uma revolução sexual entre as décadas de 1960 e 1970.
Na televisão brasileira, falar explicitamente de sexo ainda pode ser um tabu, mesmo na ficção.
O povo brasileiro se revela bastante liberal em ocasiões especiais, como o Carnaval, porém ainda está aprisionado a dogmas punitivos.
Muita gente se ofende com o comportamento sexual ‘fora do padrão’, ou seja, uma relação heterossexual monogâmica com fins meramente reprodutivos.
Ao se deparar com personagens que praticam o prazer sem culpa, essa parcela de telespectadores rapidamente muda de canal.
O excesso de pudor também causou estrago em novelas recentes, como ‘Babilônia’ (2015), cujos personagens mais sexualmente livres foram reprovados pelo público.
A teledramaturgia, tão valiosa por espelhar a sociedade no que esta tem de melhor e pior, às vezes é derrotada pela involução ideológica.
“A castidade é a mais anormal das perversões sexuais”, escreveu o britânico Aldous Huxley.
‘Bebê a Bordo’, quem diria, se tornou um ultraje a quem se recusa a ver com naturalidade as infinitas possibilidades de usufruir a sexualidade e a liberdade de ser quem se é.