Vida Alves fez mais do que estrear beijos hétero e gay na TV
Impossível resistir a um clichê ao definir Vida Alves: uma mulher à frente de seu tempo.
Em 1950, ela protagonizou com Walter Forster o primeiro beijo na boca da televisão brasileira. A novela Sua Vida Me Pertence era transmitida ao vivo pela TV Tupi.
"Não houve ensaio, senão não seria o primeiro beijo. Houve apenas uma explicação de como seria", contava a precursora.
Detalhe: foi justamente o companheiro da famosa cena quem se prontificou a convencer o marido dela, um engenheiro italiano, a 'autorizar' o beijo.
Treze anos depois, outra revolução: o primeiro beijo entre duas mulheres. Vida Alves e Georgia Gomide estrelaram a sequência no teleteatro A Calúnia. A tradicional família brasileira nunca mais foi a mesma após tamanhas ousadias.
Não é exagero dizer que Vida dedicou a vida à TV. Mesmo afastada da teledramaturgia, teve papel fundamental na preservação da memória da radiodifusão e de seus colegas pioneiros.
Sem apoio financeiro relevante, criou e manteve a Pró-TV (Associação dos Pioneiros, Profissionais e Incentivadores da Televisão Brasileira) e o Museu da TV. Tornou-se uma referência de boas histórias a respeito do veículo de comunicação mais popular do Brasil.
Sempre falante e entusiasmada, transformava as entrevistas em verdadeiras aulas. Mas não se restringia ao saudosismo. Sabia relacionar o passado com o presente da TV.
Em agosto, ao participar do programa Persona em Foco, da TV Cultura, Vida Alves aconselhou: "Sonhem. Só quem sonha consegue crescer. E só quem cresce realiza alguma coisa. Eu sou uma velha feliz. Deve ser porque caí muitas vezes, mas sempre levantei".
A atriz morreu na noite de terça-feira (3), aos 88 anos. Não teve o reconhecimento público merecido, assim como tantos outros desbravadores. Porém seu nome e sua trajetória são partes intrínsecas da televisão brasileira.