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JN faz a mais dura crítica a Bolsonaro pelas mortes da covid

Questionamento lançado por Bonner e Renata ao telespectador sugere omissão e insensibilidade do presidente

9 ago 2020
11h12
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Com 1 hora e 20 minutos de duração, a edição de sábado (8) do Jornal Nacional já começou com forte contestação do papel de Jair Bolsonaro no gerenciamento da pandemia de covid-19 no País e, ao mesmo tempo, sugeriu a responsabilização do presidente na trágica marca de 100 mil brasileiros mortos pela doença causada pelo novo coronavírus.

Cobranças de William Bonner e Renata Vasconcellos a Bolsonaro repercutiram nas redes sociais e geraram manchetes na imprensa
Cobranças de William Bonner e Renata Vasconcellos a Bolsonaro repercutiram nas redes sociais e geraram manchetes na imprensa
Foto: Reprodução

"Todo cidadão brasileiro tem o direito à saúde. E todos os governantes brasileiros têm a obrigação de proporcionar aos cidadãos esse direito", disse William Bonner. "As ações dos governantes precisam ter como objetivo diminuir o risco de a população ficar doente. E não somos nós que estamos dizendo isso. É a Constituição brasileira que todas as autoridades juraram respeitar."

Em seguida, Renata Vasconcello ressaltou que o Brasil está há 12 semanas sem um titular no comando do Ministério da Saúde. "Dois médicos de formação deixaram o cargo de ministro da Saúde porque pretendiam seguir as orientações da ciência, e o presidente Bolsonaro não concordou com essa postura deles."

Bonner relembrou declarações polêmicas do chefe do Executivo ao comentar a pandemia, como o termo "gripezinha", a frase "não sou coveiro" e a resposta "e daí?" ao ser questionado por um jornalista pelos primeiros 5 mil mortos por covid-19. "Agora o presidente repete que a pandemia é uma chuva e que todos vão se molhar, ou que a morte é o destino de todos nós e que temos de enfrentar a doença, como se fosse uma questão de coragem. Como se nada pudesse ter sido feito", disse o âncora e editor-chefe do JN, visivelmente contrariado.

Renata afirmou que Bolsonaro criticou diariamente o distanciamento social recomendado por cientistas daqui e do exterior como única maneira eficiente de evitar o contágio em grande escala. Disse que a postura do presidente confundiu muitos brasileiros e produziu um "isolamento capenga".
Na sequência, o principal telejornal da Globo e jornalístico de maior audiência da televisão brasileira sugeriu falta de engajamento de Bolsonaro para minimizar a tragédia e apontou possível responsabilização criminal por essa suposta negligência.

A edição especial elevou a audiência média do JN aos sábados: chegou a 33 pontos no Ibope, de acordo com dados prévios
A edição especial elevou a audiência média do JN aos sábados: chegou a 33 pontos no Ibope, de acordo com dados prévios
Foto: Reprodução

"Nós já mostramos o que diz o artigo 196 (da Constituição). É dever das autoridades que governam o País implementar políticas que visem a reduzir o risco de doenças. E a pergunta que se põe é: o presidente da República cumpriu esse dever? Entre os governadores e prefeitos, quem cumpriu? Quem não cumpriu? Mais cedo ou mais tarde o Brasil vai precisar de resposta para essas perguntas. É assim nas democracias e nas repúblicas: todos temos direitos e deveres, e onde ninguém está acima da lei", disse Renata.

"Essa resposta vai ter que ser dada em respeito às famílias de mais de 100 mil brasileiros mortos", complementou Bonner. Ele insistiu que, por trás das estatísticas, há pessoas e famílias enlutadas. "O Jornal Nacional não vai se cansar de repetir: essas vidas perdidas eram de brasileiros como todos nós", enfatizou o jornalista. "Não eram pessoas que estavam fadadas a morrer por qualquer outro motivo. Elas morreram de covid."

"Nós reconhecemos a dor de todos que perderam alguém querido nessa pandemia", frisou Renata. "Nós respeitamos essa dor e manifestamos nossa solidariedade irrestrita com cada um." Mais à frente, o JN informou que Jair Bolsonaro não se manifestou diretamente aos parentes dos mortos, ao contrário do que fizeram os chefes dos outros poderes. O presidente apenas retuitou trechos de mensagens emitidas pela Secretaria de Comunicação do governo em resposta a um post provocativo do ex-ministro da Justiça Sergio Moro.

Logo na abertura e também no encerramento, o principal telejornal da Globo destacou o alarmante número de brasileiros mortos pela covid-19 desde março
Logo na abertura e também no encerramento, o principal telejornal da Globo destacou o alarmante número de brasileiros mortos pela covid-19 desde março
Foto: Reprodução

O telejornal destacou que Bolsonaro foi às redes sociais para festejar o time dele, o Palmeiras, vencedor do Campeonato Paulista em jogo ocorrido horas antes. O Jornal Nacional salientou ainda que o Palácio do Planalto não decretou luto oficial pelos 100 mil mortos. Já a Câmara dos Deputados, o Senado Federal e o Supremo Tribunal Federal adotaram a norma solene em respeito às vítimas fatais da pandemia no Brasil.

O que se viu ontem foi o mais contundente conjunto de críticas da Globo a Jair Bolsonaro desde o início da cobertura diária da pandemia de covid-19. Amparado na Constituição, o jornalismo do canal culpou o presidente pela gravidade da pandemia no País. Ele havia sido contraditado com semelhante veemência nas edições de 25 de março (foram 45 minutos de conteúdo crítico) e 4 de maio (quando as redes sociais disseram que o JN 'jantou' Bolsonaro), porém, sem o mesmo furor editorial.

Essa subida de tom do Jornal Nacional pode inviabilizar a intenção do ministro das Comunicações, Fábio Faria (PSD-RN), de apaziguar a relação entre a família Marinho, proprietária do Grupo Globo, e o presidente. Por sugestão do genro de Silvio Santos, Bolsonaro reduziu drasticamente os ataques verbais contra os veículos da empresa nas últimas semanas. Essa postura diplomática será mantida após o estrondoso JN de sábado?

Pouco depois do fim da edição especial do Jornal Nacional, o GloboNews Debate reuniu os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich para discutir os erros do governo de Jair Bolsonaro no enfrentamento da crise de saúde pública suscitada pelo novo coronavírus. Os dois médicos criticaram o negacionismo do presidente.
 

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