Depressão como a de Beto provoca o suicídio de muitos homens
Quase 80% dos 11 mil brasileiros que se matam a cada ano são do sexo masculino
Sentindo-se um fantasma por não viver a própria identidade e abatido pela distância da mulher que ama, Beto Falcão (Emílio Dantas) passa boa parte do tempo no quarto, deitado. Às vezes chora, dolorosamente.
O protagonista de Segundo Sol sofre de depressão. Não é um caso apenas ficcional. Milhões de homens padecem em razão do mesmo transtorno. A maioria sofre em silêncio por vergonha de pedir ajuda.
A sociedade exige uma postura insensível do macho ocidental: não pode demonstrar fragilidade, carência ou medo. Essa imposição cruel produz milhares de suicídios de homens deprimidos que não buscaram tratamento.
O número de mortes relacionadas à deterioração da saúde mental cresce assustadoramente. A depressão é a principal causa de suicídio no mundo. A cada ano, cerca de 11 mil brasileiros se matam – destes, 79% são homens. Os dados são do Ministério da Saúde.
Na novela das 21h da Globo, Beto foi obrigado a viver uma existência mentirosa. Dado como morto num acidente aéreo, assumiu a identidade de Miguel, um falso primo do ‘finado’ cantor de axé transformado em ídolo póstumo na Bahia.
O dinheiro procedente do golpe proporciona conforto, mas não ameniza o drama existencial do rapaz. Ele se sente um morto-vivo e passa a hostilizar quem faz elogios a ele próprio – ou melhor, ao saudoso Beto Falcão. São quase 20 anos de farsa. Quem suportaria abrir mão de ser quem se é por tanto tempo?
A outra fonte de tortura emocional é Luzia/Ariella. Beto está mais apaixonado do que nunca. Depois de um caloroso reencontro com a ex-marisqueira, perdeu novamente contato com ela. Esse desencontro consome sua alma.
Poucos folhetins mostraram um herói sofrendo tanto por uma mulher. O músico de Segundo Sol está, aos poucos, morrendo de amor. Sua família acha que a cura está na reconciliação com a vilã Karola (Deborah Secco).
Somente o filho dele, Valentim (Danilo Mesquita), igualmente sensível e também apaixonado por uma mulher de história complexa (a garota de programa Rosa/Letícia Colin), consegue compreender o sofrimento de Beto. Os dois são os ‘mocinhos’ mais martirizados na teledramaturgia recente da Globo.
O autor João Emanuel Carneiro usa Beto Falcão para conscientizar os telespectadores contra o tabu de que homem não pode sofrer. As causas de aflição são variadas: pressão no trabalho, insatisfação no relacionamento, crise financeira, impotência sexual e debilidade pelo envelhecimento estão entre as mais comuns.
A depressão não tem cura, mas possui tratamentos medicamentoso e psicoterapêutico capazes de restaurar a qualidade de vida do paciente, seja homem ou mulher.
Beto Falcão terá final feliz. Mas a vida não é uma novela. Por isso é tão importante discutir a depressão até mesmo em obras de entretenimento, feitas teoricamente apenas para afastar por algum tempo as pessoas de suas dores cotidianas.
Comentários
As opiniões expressas nos comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Terra.