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Análise: Eva Wilma construiu uma carreira pautada pela luta dos direitos humanos

Atriz enfrentou a censura do regime militar como também interpretou papéis que valorizavam a diversidade de gênero

16 mai 2021 12h03
| atualizado às 17h47
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A atriz Eva Wilma morreu neste sábado, 15, aos 87 anos, no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, vítima de um câncer no ovário que, disseminado, levou a uma insuficiência respiratória. A artista estava internada desde 15 de abril, inicialmente para tratar problemas cardíacos e renais. O câncer foi descoberto no último dia 7 de maio. A informação foi confirmada pela assessoria de imprensa da artista. "Vivinha, é assim (sorridentes) que vamos lembrar de você. Obrigado pelos momentos maravilhosos que vivemos juntos e estarão eternamente em nossos corações", escreveram os agentes da atriz no Instagram.

Foi uma bela mistura que produziu Eva Wilma Riefle, atriz que entrou para o imaginário do espectador brasileiro de cinema, teatro e televisão simplesmente como Eva Wilma. Seu pai (Otto Riefe Jr.) era um metalúrgico alemão que veio para o Brasil, mais exatamente para o Rio, em 1929, aos 19 anos, para trabalhar numa firma de metalurgia. A mãe, Luísa Carp, nasceu em Buenos Aires, filha de judeus de Kiev que imigraram para a Argentina. Estava escrito que os dois se conheceriam em São Paulo, e foi onde Eva Wilma nasceu, em 14 de dezembro de 1933.

Apesar das dificuldades familiares - o pai quase foi preso durante a 2ª Grande Guerra e, na sequência, foi diagnosticado com mal de Parkinson -, recebeu educação esmerada, em escolas tradicionais. Teve aulas de canto, piano e violão com a mestra Inezita Barroso. Aos 14 anos, iniciou-se na carreira artística como bailarina clássica. No Corpo de Balé do Teatro Municipal chamou a atenção do diretor José Renato, que a chamou para integrar a primeira turma do Teatro de Arena. Participou de espetáculos quer fizeram história como Judas em Sábado de Aleluia, Uma Mulher e Três Palhaços.

Diversificou-se, como mulher e atriz, e fez Boeing-Boeing, O Santo Inquérito, A Megera Domada, Black-Out. Os desafios foram ficando maiores - Um Bonde Chamado Desejo, Pulzt, Esperando Godot, dirigiu Os Rapazes da Banda, depois participou de Quando o Coração Floresce, Queridinha da Mamãe, pela qual recebeu o primeiro Molière de Melhor Atriz, e O Manifesto. No cinema, começou como figurante em Uma Pulga na Balança, na Vera Cruz. Logo estava protagonizando filmes ao lado de Procópio Ferreira: O Homem dos Papagaios e A Sogra. Em 1955, ganhou o primeiro prêmio de cinema por O Craque, de José Carlos Burle. No ano seguinte, a cinebiografia de Francisco Alves, Chico Viola não Morreu, valeu-lhe o prêmio Saci, do Estado. E logo vieram os grandes filmes que pertencem à história: Cidade Ameaçada, de Roberto Farias, e São Paulo S.A., de Luiz Sergio Person.

Eva Wilma não apenas criou uma sólida carreira artística, com papéis marcantes no teatro, cinema e televisão - em quase todas suas escolhas, havia um forte componente político e social, ciente de que a arte não serve somente como divertimento, mas também como fator educativo para a alma. Já se tornou clássica, por exemplo, a foto feita em 1968, durante a passeata dos 100 mil ocorrida nas ruas do Rio de Janeiro e que cobrava uma atitude mais acertada do governo militar diante dos problemas estudantis - e, por extensão, do próprio País

A imagem revela uma poderosa linha de frente formada por atrizes do primeiro escalão, com Eva, Odete Lara, Norma Bengell, Tônia Carreiro e Cacilda Becker caminhando, todas de braços dados. Havia outros artistas de destaque (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Clarice Lispector, Ferreira Gullar), mas a força representada por aquelas mulheres traduzia o grau de indignação. "Estávamos sufocados pela censura, que não permitia que se falasse do que se passava nem com o uso de metáforas", relembrou ela, anos depois.

Na década seguinte, ainda sob o regime militar, Eva e Carlos Zara, seu segundo marido, lideraram um grupo de artistas que lutavam pela anistia política. Juntos, conseguiram mais de 700 assinaturas em documento entregue aos líderes do então partido governista, Arena.

Eva dizia também que eram momentos de amadurecimento e de conscientização pessoal, o que nortearia sua carreira. Foi o que a motivou a novamente enfrentar a censura, dessa vez em 1970, quando, ao lado do primeiro marido, John Herbert, produziu a montagem nacional de Os Rapazes da Banda, peça de Mart Crowley que retratava a vida comum de amigos homossexuais masculinos.

Um tema que era tabu mesmo nos Estados Unidos, onde primeiro a peça foi montada. O texto foi traduzido por Millôr Fernandes e, no elenco, trazia nomes como Raul Cortez e Otávio Augusto. O fato de ter a chancela de um casal conhecido e notadamente heterossexual na produção contribuiu para garantir o respeito do público, mas a temporada foi acidentada, marcada por insistentes tentativas de cancelamento por meio dos censores federais. "Eles proibiram a peça. Honramos salários do elenco, da produção, mas não subimos no palco. Aquilo nos arruinou", relembrou ela. "Por outro lado, aprendemos a lutar pelos direitos humanos, pela liberdade."

As questões de gênero, aliás, não escapavam do interesse de Eva Wilma em suas escolhas artísticas. No filme O Signo da Cidade, por exemplo, dirigido por Carlos Alberto Riccelli em 2007, ela tem um pequeno mas marcante papel: a da mulher madura que confessa a dor por não ter realizado a paixão por outra mulher. Sua cena é extremamente tocante e tornaram autênticas as lágrimas de Bruna Lombardi, com quem contracenou.

De uma forma mais discreta, Eva viveu Íris na novela Fina Estampa (2011), de Aguinaldo Silva, mulher inescrupulosa em arrancar dinheiro da família e que vivia um relacionamento dúbio com sua secretária, Alice (Thaís de Campos). O humor embaralhava as verdades escondidas, mas Eva, uma vez mais, não se furtou de viver uma mulher cujas escolhas sempre foram questionadas pela sociedade.

Estadão
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