Teatro Cultura Artística nasceu no 'Estadão' e é palco da festa dos 150 anos do jornal; veja vídeo
Conheça os espaços e a história do teatro fundado por intelectuais como Mário de Andrade e Olavo Bilac reunidos na redação em 1912
Ao atravessar as portas de vidro do Teatro Cultura Artística, no centro de São Paulo, na noite desta quarta-feira, 8, personalidades e autoridades vão iniciar uma viagem no tempo - à época da criação deste espaço tão importante para a vida cultural da cidade nas últimas sete décadas, mas não só: até 1875, ano de fundação do Estadão.
O Cultura Artística foi o local escolhido pelo jornal para festejar seus 150 anos - um momento para celebrar não apenas seu legado, mas uma história que segue sendo escrita - minuto a minuto, notícia a notícia - rumo ao futuro.
"Nós temos muito orgulho da nossa ligação com o Estadão", comenta o diretor-executivo do Teatro Cultura Artística, Frederico Lohmann. Para ele, o balanço após a reabertura é extremamente positivo para o teatro e para o público. "Percebemos que as pessoas que vêm no prédio novo querem sempre voltar."
Tudo é rico em simbolismo. A rua onde fica o teatro tem o nome de Nestor Pestana, uma homenagem ao ex-diretor do Estadão que contribuiu para a criação da Sociedade Cultura Artística. Foi na redação do Estadão sob seu comando, em 1912, que grandes intelectuais como Mário de Andrade e Olavo Bilac se reuniram para fundar a instituição.
O objetivo era promover saraus lítero-musicais, que contaram com nomes importantes como a pianista Antonieta Rudge, na casa do poeta Vicente de Carvalho. À época, os associados pagavam uma espécie de mensalidade no valor de três mil réis.
A esperada abertura viria um ano depois, em 1950, com um concerto de Heitor Villa-Lobos e Camargo Guarnieri.
O Estadão noticiou a inauguração com entusiasmo. "São Paulo viveu ontem uma noite, por todos os aspectos, memorável e que seria motivo de justo orgulho, mesmo para os centros mais civilizados do mundo", estampou o jornal no dia seguinte.
Grandes nomes nacionais e internacionais da música e do teatro subiriam ao palco do Cultura Artística para espetáculos que entrariam para a cultura nacional.
O espaço também passaria por altos e baixos. Chegou a ser vendido para a TV Excelsior em 1960 e teve as atividades suspensas em 1961. Dez anos depois, a Excelsior foi despejada do prédio por inadimplência. Nada, porém, preparou a sociedade cultural paulistana para o que estava por vir: o grande incêndio.
O choque
Uma foto do teto do Teatro Cultura Artística em chamas estampou a capa do Estadão no dia 18 de agosto de 2008. O porteiro do prédio viu uma bola de fogo no palco da Sala Esther Mesquita, que estava vazia. Era ali que os espetáculos aconteciam diante de um público de 1.156 pessoas. O Corpo de Bombeiros foi acionado. Pouco, porém, restou.
O incêndio atingiu o primeiro e o segundo andares do prédio. Por sorte, além de não ter público, uma porta corta-fogo impediu que o mural de Di Cavalcanti também fosse destruído.
"O teto desabou, uma sala foi inteiramente incendiada, outra ficou alagada e todo o figurino das peças O Bem Amado e Toc Toc, além de dois pianos, mesas de som e de luz e outros equipamentos foram destruídos", narrou o Estadão à época. Ninguém ficou ferido.
Após a revitalização, o Cultura Artística ficou com duas salas - era apenas uma antes.
A principal, no andar superior, com as mesmas paredes amarelas de antes e uma nova obra, de Sandra Cinto, que reveste a sala e contribui para a acústica, tem capacidade para 773 pessoas e é exclusiva para espetáculos musicais. De música erudita, que está no seu DNA, mas não só: por exemplo, Patti Smith, ícone da contracultura, integrou a temporada 2025.
Uma sala menor, no térreo, recebe monólogos teatrais e outros eventos, como palestras e cursos. Também recentemente, a escritora Chimamanda Ngozi Adichie fez uma palestra para convidados de sua editora, a Companhia das Letras, e da Livraria Megafauna, presente no local.
Dona Esther
Quem passar por ali, mais especificamente por uma sala que vai abrigar exposições, verá um retrato de Esther Mesquita, chamada carinhosamente pelas pessoas ligadas ao teatro de Dona Esther. O nome do espaço também presta homenagem a ela. A intenção é, cada vez mais, divulgar a importância de seu trabalho. Esther Mesquita tinha o plano de criar uma orquestra permanente para o Cultura Artística, chegou a fazer uma experiência piloto e a doou para a municipalidade. Foi com ela, então, que teve início a gestão da Orquestra Sinfônica Municipal.
1950, 2025 e o futuro
Passado e presente se encontram por todos os cantos - das portas envidraçadas, do prédio original, projetadas por Rino Levi para manter um diálogo constante com o público que caminha pela Nestor Pestana às cabines telefônicas instaladas no foyer. Hoje, na era dos celulares e da hiper conectividade, elas são apenas cenográficas e nos trazem notícias de um mundo menos ruidoso.
A cidade, hoje acelerada, é vista também pela janela dos camarins - e cada um deles possui um piano.
O Cultura Artística, revitalizado, recebe amantes da boa música e da cultura, crianças e seus pais nas programações de fim de semana e um público que busca, cada vez mais, ocupar as ruas do Centro. Na noite desta quarta, 8, recebe também o historiador e colunista Leandro Karnal, para uma palestra, e o cantor Arnaldo Antunes para o show em celebração dos 150 anos do Estadão.
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