Sebastião Salgado veio ao Brasil em 1992 a convite do 'Estadão'; veja entrevista
Radicado na França, fotógrafo descreveu, à época, que se considerava mais jornalista do que artista; ele morreu nesta sexta, 23, aos 81 anos
A fotografia perdeu um dos maiores nomes do fotojornalismo mundial nesta sexta-feira, 23. Sebastião Salgado morreu aos 81 anos, mas deixa um legado que se estende à luta pelos direitos humanos e aos fotógrafos brasileiros da atualidade.
Radicado na França, o fotógrafo chegou a fazer uma visita especial ao Brasil em 1992 a convite do Estadão. À época, Salgado realizou um bate-papo no Auditório do Grupo Estado - foi a primeira vez que fotógrafos brasileiros puderam trocar informações com o mestre do fotojornalismo - e teve 500 imagens suas projetadas.
"Até então, o trabalho de Salgado nunca havia sido mostrado no Brasil em tal proporção", escreveu a jornalista Ana Francisca Ponzio em uma reportagem publicada no Caderno 2 no dia 7 de agosto de 1992. Ana Francisca associou a postura de Salgado com uma "simplicidade de um mineiro vindo do interior" e afirmou que o fotógrafo se considerava "mais jornalista do que artista".
"A fotografia, para mim, tem que criar uma discussão", defendeu Salgado durante a entrevista, em que também detalhou seu trabalho de campo e algumas de suas fotos mais impactantes. Leia um trecho abaixo.
"Com a simplicidade de um minero do interior, Sebastião Salgado diz que não se considera artista e sim um jornalista. À medida que fala de seu trabalho, tanto, revela-se também um fascinante contador de histórias. E é exatamente isso que ele faz com suas fotos: contar para o mundo os acontecimentos que testemunha em regiões longínquas e inimagináveis para um cidadão comum. Embutidas na eloquência estática do silêncio, suas fotos possuem um imediato e profundo poder de comunicação: 'A fotografia, para mim, tem que criar uma discussão', afirma.
Desde sua primeira reportagem em 1973, sobre a seca no Sahel, sul da áfrica, ele vem denunciando atrocidades e mostrando as relações nem sempre confortáveis do homem com o meio ambiente. Cada novo trabalho é motivado por um tema, escolhido a partir das transformações que observa à sua volta. O próximo será sobre o deslocamento de populações. 'Está havendo um reequilíbrio mundial, um recasamento de povos que estão reiniciando uma história com denúncias fantásticas por fazer', comenta, entusiasmado.
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O contato com as mais diferentes civilizações não é difícil para Sebastião Salgado. 'Existe um código de ética para se obter uma foto e, quando isso se estabelece, não sou eu, mas as pessoas que me dão as fotos de presente'. Um de seus segredos é trabalhar a longo prazo, com tempo suficiente para se aproximar e conviver com os personagens que retrata. Importante também é partir sozinho para essas investidas. 'Com jornalistas, jamais, eles pensam diferente', enfatiza. 'Sozinho é possível se integrar, ser assimilado e até protegido por certas populações, pois as diferenças entre as culturas existem só na aparência, no fundo, o animal homem é sempre o mesmo.'
Barreira de idioma também não é problema para Salgado. 'Durante os conflitos de fronteira no Sudão, os mesmos soldados do exército que me policiaram durante o dia vinham me buscar à noite, na pensão onde eu me hospedava, me levavam para comer e me pediam para eu falar a minha língua. Segundo Salgado, a sociedade urbana deformou as pessoas, que querem todas as garantias e se fecham em si mesmas. 'Quando nos abrimos para o que está em volta, deixando vir a chuva e o vento, passamos a perceber que fazemos parte de uma espécie colossal.'
A epopeia da espécie humana também já foi desvendada por Salgado no Camboja, onde ele realizava uma reportagem sobre as plantações de arroz. 'Acabei mudando o tema quando percebi que grande parte da população tinha pernas de pau. Essa observação serviu para retratar o desastre provocado pelos vietnamitas, que minaram os solos cambojanos com explosivos.
Entre as fotos, está a de um menino que, de manhã, chegando ao trabalho, perdeu a perna ao bater com a enxada no chão. Ou, ainda, a dos garotos atingidos por estilhaços, quando levavam búfalos para pastar Outra cena mostra um personagem dormindo na rua, fazendo a própria perna postiça de travesseiro. 'Depois de um mês fotografando essa gente, voltei para a Europa e obtive apoio para criar um comitê de fundos, que permitiu a essas pessoas com deficiência trocar suas precárias permas de madeira por próteses mais modernas.'
Apesar de, na maioria das vezes, retratar as misérias do mundo, Salgado nunca deixa de captar a dignidade dos povos. Em algumas imagens, como a de um campo de refugiados etíopes (feita em 1985), ele imprime um caráter sacro, que remete às cenas bíblicas. Expert da contra-luz, usa o mínimo de equipamentos. 'Mais do que a câmara e os filmes atrapalharia minha mobilidade', diz."