'Rio de Clarice' abraça desafio de transformar contos 'pensativos' de Clarice Lispector em filme
Cinco histórias de uma das maiores escritoras brasileiras viram cinco curtas dirigidos por cinco mulheres que, juntos, formam o longa com estreia nesta semana
Clarice Lispector (1920-1977) escreveu, ao longo de mais de três décadas, uma obra que parece resistir à transposição para o cinema. Seus contos avançam por dentro das personagens, acompanham pensamentos, sensações e pequenas mudanças de percepção — muitas vezes sem que nada, de fora, pareça ter acontecido. É justamente esse universo interior que cinco diretoras brasileiras enfrentam em Rio de Clarice, longa-metragem que adapta cinco contos da escritora e estreia nesta quinta-feira, 13, em circuito nacional.
O filme abre com Feliz Aniversário, de Maria Luiza Aboim, em que os 89 anos de Dona Anita (Louise Cardoso, ao lado de Lucélia Santos) reúnem uma família mais movida por obrigação do que por afeto, escancarando ressentimentos que a festa tenta disfarçar. Segue-se Mal-estar de um Anjo, de Eunice Gutman, com Letícia Spiller como Anjo — a personagem mais próxima da própria Clarice em todo o filme —, que ao sair do psicanalista sob chuva forte divide um táxi com uma desconhecida que aos poucos toma o controle do trajeto.
O tempo de maturação tem relação direta com o problema que o filme precisava resolver. Para Nicole, adaptar Clarice não significava simplesmente transformar acontecimentos narrados no papel em cenas. O desafio estava em dar forma ao que, nos contos, permanece no interior das personagens. "Há um silêncio nos contos da Clarice e eles precisam ser movimentados no cinema. Eu acredito e provo que a adaptação literária é uma experiência totalmente possível na imagem, som e movimento do cinema", diz.
Essa passagem do papel para a tela envolveu, portanto, escolhas sobre o que preservar e o que transformar. Nicole resume o processo com uma imagem simples. "Pegamos uma laranja e bebemos o seu suco e comemos a sua carne", diz, sem mais.
A metáfora ajuda a entender a relação do filme com os contos: não se trata de reproduzi-los integralmente, mas de extrair deles aquilo que pode ganhar outra forma no cinema. As histórias permanecem reconhecíveis, mas cada diretora encontra um caminho próprio para transformar aquilo que Clarice escreveu em gesto, enquadramento, som e atuação.
Manter um filme costurado por cinco olhares diferentes sem que ele se estilhace em pedaços soltos era outro risco do projeto — e a solução, explica Nicole, veio de trás das câmeras, não na frente delas. "Ter uma equipe única atrás das câmeras para fazer os cinco filmes mantém uma unidade de arte, figurino, câmera e a caracterização dos personagens", afirma.
É uma escolha que permite que o filme mude de tom e de perspectiva sem perder completamente a identidade construída para o conjunto.
Nicole também carrega uma relação particular com o material. Sobrinha-neta de Clarice, ela poderia ter tratado a adaptação como um compromisso familiar, mas rejeita a ideia de que esse vínculo seja o principal motor do projeto. "A relação familiar sempre ajudou, mas não foi o principal, porque vemos obras ótimas no cinema feitas por criadores de conteúdo que não têm relação familiar", diz. "O que importa é a relação com a obra."
O que a câmera enxerga
Se Nicole fala sobre o desafio de construir uma unidade entre cinco histórias, para Taciana Oliveira, diretora de Amor, a questão está em outro lugar: o que o cinema pode fazer com aquilo que a literatura deixa no interior da personagem?
Para ela, o cinema não desenterra nada que esteja escondido nos contos, apenas oferece outro caminho de acesso a eles. "Na literatura de Clarice, muita coisa acontece dentro das personagens, no pensamento, na sensação, em pequenas mudanças de percepção. No cinema, você precisa encontrar outras formas de mostrar isso: um olhar, um silêncio, um gesto, um som, a maneira como a câmera observa aquela personagem", explica.
É justamente nessa diferença entre as duas linguagens que Taciana encontra a força do projeto. A adaptação não precisa explicar aquilo que Clarice deixou aberto nem substituir a experiência da leitura. Pode, em vez disso, criar outra experiência para a mesma história.
"Rio de Clarice é muito interessante justamente por isso. São cinco diretoras olhando para Clarice a partir de perspectivas diferentes e tentando encontrar uma tradução cinematográfica para uma literatura tão interior", diz. "Cada segmento acaba revelando uma leitura possível desses contos."
Assim, a ideia também explica por que a escolha de reunir cinco diretoras é mais do que uma particularidade de produção. Cada uma se aproxima dos mesmos universos literários a partir de uma sensibilidade diferente, fazendo do filme não uma tentativa de estabelecer uma única imagem para Clarice, mas sim de mostrar quantas imagens podem nascer de sua literatura. "O cinema não substitui aquilo que está na literatura, mas cria uma outra camada, uma outra maneira de entrar naquele universo e de perceber questões que talvez, durante a leitura, cada pessoa imagine de um jeito muito particular", afirma.
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