Relato de Vanessa Barbara sobre fim de casamento viraliza; André Conti, Todavia e autores respondem
A autora Vanessa Barbara contou sobre o fim do seu casamento com o editor André Conti em um podcast da Rádio Novelo, causando enorme burburinho no meio literário; ela não cita nomes, mas escritores se manifestaram após a repercussão
Na semana passada, a Rádio Novelo publicou o podcast CPF na Nota?, que trouxe um relato da jornalista e escritora Vanessa Barbara. Nele, ela aborda o fim de seu casamento após uma traição e também expõe como o assunto foi tratado de forma machista por seu círculo de conhecidos e amigos, em uma história que vem repercutindo nas redes sociais e no meio literário.
A autora já havia abordado o tema no livro Operação Impensável (2015), que ganhou o Prêmio Paraná de Literatura e foi, posteriormente, publicado pela Intrínseca. Na época, o Estadão entrevistou a autora sobre o livro.
"Depois de catorze anos, tenho uma vida diferente e me sinto uma pessoa diferente, mas sei que independentemente dos anos e do meu arrependimento, e desse e de qualquer texto, as cicatrizes que deixei seguem machucando. Peço desculpas mais uma vez a todos que envolvi, em primeiro lugar para Vanessa e sua família", conclui.
No podcast, a escritora fala de uma lista de transmissão de e-mails da qual o ex-marido fazia parte. Nestes e-mails, jornalistas, editores e escritores - todos homens, segundo Vanessa Barbara - expunham suas companheiras, de forma misógina e machista, compartilhando detalhes da intimidade delas. Conti também fala sobre estes e-mails. "Num grupo de e-mails, expus pessoas, traí amigos e colegas e inventei intrigas", diz o editor.
A editora Todavia, da qual Conti é sócio e diretor de operações, também se pronunciou sobre o caso. No seu perfil no Instagram, publicou um comunicado reconhecendo "a gravidade dos acontecimentos narrados no podcast". "Compreendemos a indignação causada pelos diversos exemplos de machismo e misoginia contidos no episódio, ocorrido há 14 anos, e nos solidarizamos com a justa revolta que gerou em muitas e muitos ouvintes. Sentimos muito, sobretudo, pelo sofrimento causado à vítima", diz a nota.
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"Nos últimos anos, o debate em torno das relações de gênero se aprofundou e situações que no passado eram normalizadas felizmente estão deixando de ser, graças à coragem de mulheres que decidem quebrar o silêncio. Desde sua fundação, em 2017, a editora tem publicado vários livros que acompanham essas transformações e conferem consistência a essa discussão. Temos consciência de que dar visibilidade às práticas machistas nos ajuda a evitar que ações como as narradas no podcast se repitam", completa a nota.
Outra pessoa que resolveu se manifestar foi a atual esposa de André Conti, a também escritora Natércia Pontes, que usou o seu perfil no Substack para publicar o texto intitulado Prefiro ser ré a ser juíza.
No texto, Natércia diz defender a sua família constituída há quase 14 anos com Conti. O casal tem duas filhas de seis anos. "Sentir que alguém conclama contra sua família, que está no seu encalço como um chacal, é um sentimento que não desejo nem a ela", escreveu a atual mulher de Conti.
FPC, o Grupo de e-mails, e o que os escritores disseram depois do podcast
O grupo de e-mails citado por Vanessa no podcast era chamado por seus participantes de FPC, as iniciais para "Fotos Pós-Chernobyl". Os escritores Michel Laub, Joca Reiners Terron, Paulo Scott, Daniel Galera e Antônio Xerxenesky foram alguns dos nomes identificados que participavam do grupo.
Todos eles se manifestaram em suas redes sociais. Michel Laub usou o seu blog para elencar cinco pontos sobre o assunto. Observou que os acontecimentos foram há 14 anos e trouxeram muita dor. Ressaltou que muitas coisas mudaram neste período. "De 14 anos para cá muita coisa mudou: eu mesmo, o mundo, a forma como as relações de gênero são tratadas, a discussão sobre privacidade e uso de redes sociais. A partir da experiência de quase uma década e meia de cancelamentos, inclusive, houve uma evolução no debate sobre responsabilidade individual e proporcionalidade nos casos mais rumorosos que vêm à tona", escreveu.
Outro que optou por escrever em um blog foi Joca Reiners Terron. Ele assume que estava na lista e pontua que as mensagens "se espalharam depois de subtraídas, indo parar nas mãos de gente mal-intencionada". "Depois de 14 anos esse papo podia ter evoluído: os amigos que lamentaram, discutiram e se comoveram com a traição pusilânime do agora ex-marido e o terrível sofrimento da ex-esposa deviam ter dado sua versão dos fatos, e a evolução do debate das relações de gênero acontecida na última década na esteira do #metoo podia conduzir o tema a outro patamar", escreveu o escritor.
Paulo Scott usou o seu perfil no Instagram para se manifestar. Ele disse que, embora participasse do grupo, enviava poucos e-mails. No post, Scott reconheceu a dor de Vanessa como legítima, mas defendeu que a responsabilidade pela dor não pode ser "estendida a pessoas que, direta ou indiretamente, nada fizeram para o fim dessa relação ou interferiram em seus desdobramentos posteriores".
O também escritor Daniel Galera usou o seu perfil no Bluesky para dizer que se solidariza com a dor dos envolvidos. No entanto, defende que a forma como a lista de e-mails é descrita no podcast é inverídica. "Também é inverídica a alegação de que participantes teriam ativamente criado empecilhos pra carreira da Vanessa", completou.
Antônio Xerxenesky usou o seu perfil no Substack para comentar o caso. "Fomos todos criados num imenso caldo de machismo e misoginia e reproduzi falas e comportamentos por volta dessa época dos quais me arrependo e me envergonho", reconhece. O autor diz que, além do arrependimento, ele mudou nos anos que se passaram depois do fim do grupo. "Não sou a mesma pessoa que era há 15 anos. Na verdade, aquele idiota irresponsável é praticamente irreconhecível para mim. Construí uma vida profissional e uma família com muito amor. Espero que, no futuro, isso pese mais do que meus erros do passado", escreveu.