Por que ler Edgar Allan Poe? Especialistas explicam sua importância e indicam contos essenciais
Mestre do Terror, Poe segue influente mais de dois séculos depois; especialistas explicam por quê e indicam por onde começar
Um dos nomes mais influentes da literatura mundial, o escritor, editor e crítico literário norte-americano Edgar Allan Poe completaria 217 anos neste 19 de janeiro de 2026.
Autor de contos e poemas que marcaram a história do terror, do suspense e da ficção policial, Poe segue como leitura essencial para quem se interessa por mistério, horror psicológico e narrativas sombrias.
Conhecido como o Mestre do Terror e também como o Pai da Ficção Policial, Poe inovou ao explorar temas como morte, loucura, culpa e o sobrenatural, além de criar o detetive Auguste Dupin — personagem que influenciou diretamente autores como Arthur Conan Doyle e Agatha Christie. Sua obra ajudou a estabelecer estruturas narrativas que continuam presentes não só na literatura, mas também no cinema e nas séries contemporâneas.
Mas o que explica a permanência de Edgar Allan Poe entre os autores mais lidos e estudados até hoje? Para especialistas, parte dessa força está na combinação entre rigor formal, impacto emocional e uma habilidade singular de sugerir o horror sem necessariamente explicitá-lo — um recurso que atravessa gerações de leitores.
Uma obra moldada pelo horror e pela perda
Nascido em 19 de janeiro de 1809, em Boston, nos Estados Unidos, Poe teve uma vida marcada por abandono, luto e instabilidade emocional desde a infância. Essas experiências acabaram se refletindo diretamente em sua obra, onde sentimentos como perda, obsessão e fragilidade mental aparecem de forma recorrente.
Ao longo da vida adulta, episódios traumáticos — como a morte de sua esposa, vítima de tuberculose — aprofundaram ainda mais o tom sombrio de seus textos. O reconhecimento veio com o poema O Corvo e se consolidou com contos como Os Assassinatos da Rua Morgue, obra que ajudou a estabelecer as bases da ficção policial moderna.
Poe é para todas as idades?
Esse impacto precoce ajuda a explicar por que Poe costuma ser uma porta de entrada para muitos leitores. "É um autor que impressiona muito leitores jovens", comenta Paulo Henriques Britto, poeta, professor, tradutor e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). "Comecei a ler Poe com meus 12 anos e devorei tudo o que encontrei dele na época. Ele sabe criar suspense e evocar cenas de horror que se tornam ainda mais perturbadoras justamente por sugerirem muito do que não é explicitado", afirma.
Paulo Henriques acredita que Poe é um bom autor para jovens leitores que estão descobrindo a leitura. "Recomendo principalmente para pré-adolescentes e adolescentes", indica.
A Professora Doutora Renata Philippov, professora associada do departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo e especialista na obra de Edgar Allan Poe, também começou cedo a ler o autor, aos 14 anos. "Me apaixonei imediatamente", confessa. Para ela, no entanto, o impacto da obra pode ser ainda maior na leitura adulta, pela complexidade estilística e pelas camadas psicológicas de seus textos.
O escritor, tradutor e pesquisador da literatura de horror Oscar Nestarez concorda. "Com leitura mediada, Poe pode sim ser apresentado e temos também vários livros infantis que adaptam os contos dele para crianças". Ele acrescenta que o autor tem contos satíricos, pouco conhecidos do público, que exploram o humor. "Ele tem uma faceta que, sim, que pode ser para todas as idades".
A engenharia literária de Poe
Falar de um autor do século 19 é falar de uma escrita elaborada, cheia de nuances e camadas. "Temos uma retórica bastante rebuscada, com um detalhamento muito grande dentro da sua estética", explica Philippov.
Essa preocupação formal foi central na produção de Poe. "Ele era obcecado pela composição, pelo trabalho de escrita, pela criação literária", define Oscar. "Poe escreveu muito sobre como deve ser uma obra literária e deu contornos quase definitivos ao que a gente entende por conto hoje em dia", completa.
Esse rigor também impõe desafios à tradução. "O maior desafio é trazer um texto de inglês do século 19, tão rico e cheio de nuances, para o português, mantendo a complexidade e a riqueza, sem que fique inatingível para o leitor", afirma a tradutora Regiane Winarski. "É o tipo de desafio que eu acho prazeroso e fascinante, mas que toma bastante tempo do profissional que se dedica a ele", completa a tradutora, que considera Poe "o grande pai da literatura de horror e suspense".
Outro aspecto da obra do autor que vale ser abordado e, que para a Professora Doutora Renata é um dos grandes eixos da obra de Edgar Allan Poe, é a recorrente representação da perda da mulher amada.
"Esse tema atravessa tanto seus contos quanto seus poemas e aparece de forma direta em narrativas como A Queda da Casa de Usher, Ligeia e Morella, nas quais a morte feminina está associada ao luto, ao duplo e ao desequilíbrio psicológico". Philippov lembra ainda que na poesia, esse aspecto ganha contornos ainda mais líricos, especialmente em Annabel Lee, poema que trata da morte da amada de forma melancólica e idealizada.
Por que o trabalho de Poe segue tão atual?
Com temas difíceis de lidar — como morte, luto e culpa —, por que os escritos de Poe continuam atraindo tantos leitores e influenciando novos autores?
Para Oscar Nestarez, a resposta está no reconhecimento humano presente nos textos. "São contos nos quais nós, seres humanos, nos encontramos e nos reconhecemos com todas as nossas contradições e ambivalências", acredita. "É literatura na sua acepção mais profunda, que é esse reflexo da existência humana, e que vai para um caminho mais sombrio".
Além disso, Poe ajudou a estabelecer uma tradição do horror psicológico. "Ele conseguiu fixar, nas suas histórias, os medos atemporais que nós temos", explica Nestarez.
Ecos de Poe na literatura brasileira
A força imagética e psicológica de seus textos fez com que Poe construísse uma obra influente em diversas partes do mundo. "A presença dele é mundial. Poe tem impacto na América Latina, na Europa, Ásia, África e em países específicos como Brasil, Argentina, Marrocos, Japão, Espanha, Itália e Rússia", lista Renata.
No Brasil, especificamente, é possível encontrar ecos de Poe na obra de Machado de Assis. O autor brasileiro foi um leitor atento do Mestre do Terror e deixou isso evidente em alguns de seus contos. "Em geral se conhece o Machado como um grande autor de romances realistas, mas ele também foi um grande leitor das narrativas de horror e escreveu algumas delas", explica Renata. "Cito, por exemplo, A chinela turca, que dialoga de maneira bastante sutil com obras de Poe".
Por onde começar a ler Poe?
Com diversas obras publicadas no Brasil, Poe pode ser lido por diferentes caminhos.
Oscar Nestarez recomenda o Box Ficção Completa de Edgar Allan Poe (Editora Nova Fronteira), que reúne, em dois volumes, todos os contos escritos pelo autor, além de seu único romance, A narrativa de Arthur Gordon Pym de Nantucket. Organizada por Nestarez e traduzida por Regiane Winarski, Maria Luiza Borges e Wagner Schadeck, a edição permite ao leitor escolher por onde começar e ainda conhecer melhor o percurso do autor.
Para Regiane, "vale demais a leitura de contos como O barril do Amontillado, A queda da casa de Usher, O coração delator e tantos outros".
Paulo Henriques Britto destaca: "A queda da casa de Usher, Berenice, O poço e o pêndulo... São muitos os contos impactantes. Mas os policiais hoje me parecem os melhores, principalmente Os assassinatos na Rue Morgue".
Renata Philippov também sugere começar pelos contos, principal força do autor. "Eu gosto de vários: A queda da casa de Usher e Hop-Frog. Gosto muito também das narrativas ditas 'detetivescas'. Dentro dessa vertente, gosto de O mistério de Marie Rogêt. Entre os poemas: Annabel Lee".
Especialistas elegem seus favoritos
Quando o assunto são escolhas pessoais, os especialistas também têm seus destaques.
Oscar Nestarez aponta O poço e o pêndulo: "Acho uma obra-prima absoluta da construção literária do horror".
Paulo Henriques Britto escolhe Os assassinatos na Rue Morgue. "Porque nesse conto ele cria um clima de sobrenatural e termina resolvendo o problema de modo perfeitamente lógico e racional. Também recomendo o ensaio A filosofia da composição, importante para interessados em crítica formal de poesia, embora não se possa levar totalmente a sério as afirmações de Poe no texto".