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Pintor Gonçalo Ivo abre sua 'Janela para a África' em nova exposição em Paris

O pintor carioca Gonçalo Ivo apresenta em Paris a exposição "Janela para a África", na Maison Gacha. Inaugurado há pouco mais de um ano, o espaço já se destaca pelo acervo notável de arte africana, que inclui peças raras e de forte carga simbólica. É nesse ambiente que as pinturas e os objetos de madeira do artista brasileiro estabelecem um diálogo vivo com tecidos kente de Gana, veludos Kasai do Congo e os ndop do povo Bamileke de Camarões - uma conversa entre formas, cores, ritmos e memórias que atravessam continentes.

2 abr 2026 - 14h39
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Essa conexão não surgiu por acaso. "A África sempre esteve no meu coração", disse Ivo logo no início da entrevista. Sem nunca ter pisado no continente, ele contou que sua obra já carregava, desde os anos 1980, marcas dessa influência - uma "geometria mole", como um amigo definiu na época. "Sou um dos poucos artistas brasileiros que foram impregnados por essa cultura tão rica, tão fascinante", afirmou.

Os tecidos kente, originários dos povos Ashanti e Ewe de Gana, são trançados em tiras estreitas com padrões geométricos carregados de simbolismo. Os veludos Kasai, do povo Kuba no Congo, são bordados em ráfia e tradicionalmente associados a prestígio e cerimônias. Já os ndop Bamileke, de Camarões, são panos azul‑índigo decorados com motivos geométricos que remetem à proteção, à fertilidade e à ancestralidade.

A exposição nasceu de um impulso familiar. A ideia partiu de seu filho, Leonardo, que cresceu cercado pelas obras do pai, estudou história da arte e reconheceu nelas, junto com colegas da faculdade, essa relação com formas africanas. Com os amigos Rafaela Sales e Danilo Lovisi - este último curador da mostra -, o trio percebeu que muitos objetos em madeira feitos por Ivo desde os anos 1980 pareciam ecoar artefatos rituais africanos.

Ressonância presente desde os anos 1980

Três obras de 1988-1989, que Ivo chama de "Janela em Ndebele", inspiradas no povo Ndebele, da África do Sul, foram selecionadas diretamente em um dos ateliês que o pintor mantém no Brasil. Ao lado delas, apenas três trabalhos recentes. Todo o resto vem do "retrovisor", como ele mesmo descreve - peças que, vistas agora em Paris, parecem ganhar novo sentido diante das tradições africanas.

Ele contou que, ao folhear o catálogo ao lado da mulher, Denise, chegou a se confundir. "Eu olhava alguns tecidos e pensava: será que fui eu que fiz isso?" A frase, dita com humor, explica algo central no seu processo: "Os artistas são como esponjas. Absorvem coisas consciente e inconscientemente."

Ivo lembrou do célebre comentário de Picasso - "eu não copio, eu roubo" - e comentou como a potência estética de culturas africanas, mexicanas, nepalenses sempre o atraiu. "A nossa arte ficou muito arrogante, muito intelectualizada. Às vezes, uma folha me diz mais do que um Picasso", confessou.

Objetos carregados de sentido

Seus olhos se iluminaram ao falar sobre o impacto que sentiu no primeiro encontro com as peças do acervo da Maison Gacha. "É de perder o fôlego. São objetos belíssimos, carregados de sentido", disse. Ele reconhece que seus próprios objetos de madeira dialogam com peças de culto africanas, feitas para afastar maus espíritos ou para atrair a sorte.

É essa rede de ressonâncias - cultural, formal, espiritual - que revela afinidades profundas na exposição. "Sou como uma árvore: tenho várias raízes tocando vários lugares", explicou, lembrando também de sua ligação com tradições afro-baianas, como o Pano da Costa, tema de uma série produzida nos anos 1990.

Questionado se esse encontro também poderia existir com a arte indígena brasileira, a resposta é imediata: "Tenho, sim, uma porta de diálogo. Minha avó era índia Caeté. Acho que isso aparece muito na coisa plumária."

Disciplina e conexão com a natureza

Disciplinado, Ivo acorda às 3h30 ou 4h, trabalha sempre com luz natural e encerra o dia cedo. Não por disciplina moral, mas por necessidade visual e orgânica. "A luz é a luz", resumiu.

Ele atribui esse rigor não apenas à prática artística, mas à formação precoce no ambiente intelectual da casa do pai, o poeta Lêdo Ivo. "Cresci cercado de pintores, escritores, gente de teatro. Para mim, isso sempre foi natural", contou. E, apesar do ambiente erudito, ele rejeita a ideia de que arte seja um exercício puramente intelectual: "Para mim, a arte tem a ver com o sagrado."

Entre memórias, raízes múltiplas e descobertas, Ivo abre nesta exposição uma janela que é, ao mesmo tempo, para a África e para si mesmo. Tudo com a mesma delicadeza firme que marca sua obra - essa construção paciente de cor, ritmo e olhar.

A exposição "Janela para a África" fica em cartaz até 9 de julho e exige reserva antecipada pelo e-mail: event@espaceculturelgacha.fr.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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