Pintor e escultor alemão Georg Baselitz morre aos 88 anos
Célebre por seus quadros de ponta-cabeça, ele era um dos maiores artistas visuais contemporâneos da Alemanha. Apreciadas em todo o mundo, suas obras refletem traumas da história alemã.O artista alemão Georg Baselitz, cujas pinturas e esculturas provocaram controvérsia na Alemanha Ocidental antes de alcançar reconhecimento global, morreu aos 88 anos.
A morte foi confirmada nesta quinta-feira (30/04) por pessoas próximas do artista.
Nascido Hans-Georg Kern, Baselitz foi um dos artistas visuais contemporâneos mais proeminentes da Alemanha, adepto de uma ampla variedade de técnicas e com trabalhos desenvolvidos ao longo de mais de seis décadas.
Além de pintor, destacava-se também como escultor e artista gráfico.
Ele adotou o nome Baselitz em 1961, em referência a Deutschbaselitz, a cidade perto de Dresden, no leste da Alemanha, onde nasceu em 1938.
Dois anos depois, ganharia destaque nacional após ter duas pinturas "pornográficas" confiscadas de uma galeria por autoridades. O episódio desencadeou uma ruidosa batalha judicial, mas o processo acabaria engavetado.
Suas famosas telas invertidas, que começou a pintar em 1969, eram segundo ele uma exploração entre a abstração e a arte figurativa direta.
O reconhecimento internacional veio no início da década de 1980.
Traumas da história alemã
As obras de Baselitz, que refletem os traumas da história alemã, hoje integram algumas das mais prestigiadas coleções públicas, e ele foi tema de inúmeras exposições retrospectivas desde a década de 1990.
Entre elas, destaca-se a série "Os Heróis" (Die Helden), criada por Baselitz entre 1965 e 1966. Uma das criações mais cruas e emblemáticas da arte alemã do pós-guerra, trata da quebra do mito do herói, com a representação visual da desorientação de uma nação traumatizada pelo nazismo e pela destruição.
"Todos os pintores alemães têm uma neurose com o passado alemão", disse em 2013 à revista Der Spiegel. "Com a guerra, especialmente com o pós-guerra, com a RDA [Alemanha comunista]. Tudo isso me ocupou em uma forte depressão e sob uma grande pressão. Minhas pinturas são [...] batalhas."
Também ficou conhecido pelas pinturas com os dedos, além dos quadros-fraturas e quadros russos, hoje presentes nas coleções públicas mais prestigiadas do mundo, e apresentadas sobretudo em exposições em Berlim, Munique, Nova Iorque, Veneza, Paris e Hong Kong.
Em 2004, ele foi reconhecido com o Praemium Imperiale, espécie de "Prêmio Nobel das artes".
Nas últimas décadas, esteve entre os pintores alemães vivos mais disputados — e mais caros —, ao lado de nomes como Gerhard Richter e Anselm Kiefer.
Em Paris, a sua carreira teve um duplo coroamento na última década, com a sua eleição para a Academia de Belas-Artes, em 2019, seguida de uma grande exposição retrospetiva em 2021, no Centro Georges Pompidou, em Paris, um dos principais museus europeus de arte moderna e contemporânea.
Trajetória de um inconformista
Baselitz passou a primeira infância na Alemanha nazista e depois cresceu na Alemanha Oriental comunista.
Inicialmente, estudou arte em Berlim Oriental. Mas a carreira como estudante durou pouco porque o jovem, à época com 18 anos, se recusou a trabalhar em um complexo industrial em Rostock, contrariando as autoridades do regime comunista.
Baselitz, em vez disso, preferia pintar no estilo de Pablo Picasso. Por isso, em 1957 mudou-se para Berlim Ocidental após ser expulso da escola de artes - o Muro de Berlim só seria construído em 1961.
Ali, entrou em contato com o movimento de arte abstrata então dominante no cenário artístico alemão, mas acabou abraçando o realismo expressionista ou neoexpressionismo
Em 1961, já sob a alcunha de Baselitz, despertou atenção com pinturas que não se encaixavam nas convenções conservadoras da época. "Durante esse período, eu era um sujeito cabeça-dura, indisciplinado e desajeitado, que rejeitava tudo", disse Baselitz à amiga Bianca Jagger em 2014, em entrevista à revista Interview.
A apreensão, em 1963, de duas telas suas carregadas de simbolismo sexual impulsionaram seu nome no mercado de arte alemão, consolidando uma imagem de rebelde inabalável que o acompanharia pelo resto da vida.
Baselitz também alimentou essa fama com declarações polêmicas, argumentando, por exemplo, que mulheres não sabem pintar — razão pela qual os preços de suas obras no mercado de arte permaneceriam baixos —, e chamando a mostra de arte contemporânea Documenta de "Paralimpíadas".
Embora tenha exercido uma influência poderosa sobre pintores neoexpressionistas em todo o mundo — especialmente por meio de suas obras que confrontam os horrores da Segunda Guerra Mundial —, ele também minimizava seu impacto sobre a sociedade: "A ideia de mudar ou melhorar o mundo me é estranha e parece ridícula", disse certa vez. "A sociedade funciona, e sempre funcionou, sem o artista. Nenhum artista jamais mudou nada, para melhor ou para pior."
ra (DW, AFP, ots)
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