Obras do alemão Thomas Mann entram em domínio público
Perseguido pelos nazistas, Nobel de Literatura é um dos grandes escritores do século 20. Seus livros retratam a vida burguesa e tempos de turbulência política para a Europa.Dentre os acontecimentos para aguardar em 2026, está a entrada da obra do escritor alemão Thomas Mann em domínio público. Na Europa e no Brasil, cai a exclusividade das editoras sobre os títulos nesta quinta-feira (01/01), depois de a morte do autor ter completado 70 anos.
Na prática, isso significa que qualquer editora pode publicar obras até então protegidas por direitos autorais, sem necessidade de autorização prévia ou pagamento de royalties. Em 2026, ficam liberadas as obras de autores que morreram em 1955.
A Companhia das Letras tem onze títulos de Mann publicados no Brasil. Os seus grandes romances incluem Os Buddenbrook, que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1929, A Montanha Mágica e Doutor Fausto.
Considerado um dos mais importantes escritores alemães do século 20, o autor nasceu em Lübeck, na Alemanha, em 1875, filho de uma teuto-brasileira. Ele viveria tempos de turbulência política — marcados pelas duas Guerras Mundiais, o nazismo e o Holocausto —, que transparecem na sua obra.
Vida burguesa e pré-guerras
Em Os Buddenbrook (1901), que elevou a literatura alemã ao pódio internacional, ele conta a história de quatro gerações de uma família de comerciantes do norte da Alemanha. Já no seu primeiro romance, ele se mostrou um observador atento da vida da burguesia alemã, em grande parte inspirado na própria família e na cidade natal.
Duas décadas mais tarde, A Montanha Mágica se tornaria um clássico da literatura. Publicado em 1924, o romance antiguerra relata a história de um personagem que passa sete anos num sanatório para tuberculosos nos Alpes suíços, onde se depara com alguns dos dramas anteriores à Primeira Guerra Mundial, como uma sociedade dividida, medos existenciais, doença, morte e o fantasma da guerra.
Muito antes de a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) bater à porta da Europa, o escritor pareceu farejar o perigo. Mal Adolf Hitler assumiu, Mann deixou a Alemanha. Ele havia se posicionado contra os nazistas e, em 1930, três anos antes de Hitler ascender ao poder, fizera um apelo inflamado contra o nazismo e em defesa da social-democracia.
Os nazistas o despojariam da cidadania alemã, revogariam-lhe o título de Doutor Honoris Causa concedido pela Universidade de Bonn e roubariam parte do seu patrimônio.
"Tudo precisa ser pago"
Em 1938, o autor e sua esposa migraram para os Estados Unidos, e Mann assumiu o cargo de professor convidado na Universidade de Princeton, em Nova Jersey. Indagado por um repórter sobre se considerava o exílio um fardo, respondeu: "Onde eu estiver, será a Alemanha. Levo minha cultura comigo e não me vejo como alguém decadente."
A partir de 1940, Thomas Mann passou a convocar os alemães a resistir ao nazismo. Depois que o armistício finalmente veio, ele lançou a carta Por que não volto à Alemanha (1945), em que responsabiliza todo o povo alemão pelos horrores da era nazista.
"Tudo precisa ser pago", escreveu Mann ao comentar o bombardeio de cidades alemãs. Críticos reagiram negando-lhe o direito de, como exilado, fazer julgamentos sobre o que foi a vida sob Hitler.
Sua obra literária também incomodou. Um exemplo é o romance Doutor Fausto (1947), sobre um compositor que faz um pacto com o diabo. Alegoria da Alemanha hitlerista, o livro é um acerto de contas do escritor com um país que permitiu a ascensão do nazismo e renunciou à própria humanidade.
Acusado de simpatizar com um partido comunista e de se envolver em conspirações antiamericanas, Mann deixou os EUA em 1952 e viajou à Suíça, onde se estabeleceu até sua morte, em 12 de agosto de 1955, aos 80 anos.
Outros títulos do autor incluem A Morte em Veneza, O eleito, Confissões do impostor Felix Krull, José e seus irmãos, Mário e o mágico, Sua alteza real, Contos, As cabeças trocadas e Tonio Kröger.