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'O Segredo de Widow's Bay' é a melhor coletânea de Stephen King de todos os tempos

Ambientada em uma pequena (e amaldiçoada) cidade da Nova Inglaterra, a gloriosamente estranha série da Apple TV+ pega a matéria-prima do Mestre do Macabro e vai além

28 abr 2026 - 16h39
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Ao longo das bordas da Nova Inglaterra, a apenas uma viagem de balsa da costa, fica a pitoresca cidade-ilha de O Segredo de Widow's Bay. Ela é povoada por moradores da classe trabalhadora e por famílias que estão ali há várias gerações, o tipo de lugar perfeito para férias de verão e sanduíches de lagosta de matar. Passe pelo Salty Whale, um dos melhores restaurantes da ilha, e você encontrará o centro histórico, dedicado a preservar o legado de O Segredo de Widow's Bay. Sim, o lugar tem um passado conturbado — uma pena o incidente de canibalismo-na-igreja lá pelos anos 1800 — mas que cidade que remonta ao começo deste grande experimento americano não tem?

Foto: Reprodução/Apple TV / Rolling Stone Brasil

Uma jornalista de viagens do New York Times acha que este lugar pode ser a próxima Martha's Vineyard, se mais pessoas soubessem que ele existe. O novo prefeito da cidade, Tom Loftis (Matthew Rhys), ficaria satisfeito se a cidade virasse a nova Bar Harbor. Tanto os eleitores quanto a equipe da prefeitura acham que ele é ambicioso demais, para falar a verdade. Mas Tom tem grandes planos para transformar esse ponto modesto no mapa costeiro em um destino turístico. Só é uma pena, sabe, aquela maldição infeliz, com séculos de existência, que parece ficar arrotando todo tipo de fenômeno aterrorizante….

https://www.youtube.com/watch?v=Nmc2RYm6PUE

A primeira sinopse de O Segredo de Widow's Bay, o novo programa da Apple TV+ que estreia com dois episódios em 29 de maio, diz que é "Parks & Recreation encontra Stephen King" — um resumo geral que faz sentido à primeira vista. Dá para ver ecos da burocrata esforçada Leslie Knope no prefeito de Rhys, perpetuamente frustrado por não conseguir reverter a sorte dessa comunidade economicamente combalida. O mesmo vale para sua segunda no comando, uma vice tímida e socialmente desajeitada chamada Patricia (Kate O'Flynn, brilhando em todas as cenas), que compartilha uma certa qualidade imperturbável e otimista com a filha favorita de Pawnee. O escritório de Loftis é povoado por versões mais contidas dos excêntricos típicos de uma sitcom, indo da veterana durona de Dale Dickey ao escrivão eternamente confuso de Jeff Hiller, de Somebody Somewhere. E os moradores cobrem toda a gama de excentricidades regionais, com Stephen Root — um ator que, cientificamente comprovado, aumenta a qualidade de qualquer projeto em 33,3% — devorando o papel de um velho lobo-do-mar no mesmo estilo em que Nick Offerman fez com Ron Swanson.

Mas é a parte Stephen King que ganha mesmo destaque aqui e, embora ele não esteja diretamente envolvido com a série, a criadora Katie Dippold e seus colaboradores pegaram a matéria-prima dos melhores livros do autor e foram em frente. Se nada mais, O Segredo de Widow's Bay funciona como uma coletânea da obra do Mestre do Macabro, reunindo arquétipos e situações clássicas do horror antes de passá-los por um filtro bizarro ao extremo. Uma pousada mal-assombrada permite que a série faça referência a O Iluminado e It de uma vez só. Uma lendária bruxa do mar coloca Loftis na mira e, digamos assim, ela tem um… jeito único de matar suas vítimas. Um livro antigo sobre como dar uma festa, com desenhos da era Eisenhower, acaba tendo uma pauta secundária quando você lê nas entrelinhas. Um cadáver reanimado se mostra uma dor no pescoço. Até filmes slasher entram no tratamento de remix.

A série mata a coceira que tanto Castle Rock quanto Welcome to Derry não conseguiram alcançar e, ainda assim, O Segredo de Widow's Bay não está interessada em fanfic de propriedade intelectual. Há uma excentricidade gloriosa pairando sobre a mistura de sitcom de humor seco e pavor de conto assustador, além de uma disposição de mexer com a sua cabeça que remete a uma era diferente, menos "segura", da programação. Sem falar numa marca corporativa diferente — a melhor coisa que se pode dizer sobre esta série da Apple TV+ é que ela não parece uma série da Apple TV+. Para cada Slow Horses e Severance, há outras sete séries no streaming com o verniz de "TV de prestígio" sem o peso e a profundidade associados ao termo. Esta primeira temporada poderia ter saído direto da era de ouro da FX, o que não surpreende, já que Hiro Murai — produtor executivo e diretor de quase metade dos 10 episódios — foi uma das mentes criativas-chave por trás de Atlanta.

O Segredo de Widow's Bay compartilha do amor daquele marco por surrealismo e formalismo, de um senso de humor torto (quando perguntado sobre os julgamentos de bruxas da cidade no passado, o historiador local diz que eles encaram aquele período sombrio com "um grande senso de orgulho… nós pegamos elas, nós queimamos elas…") e de zero medo de ficar bem esquisita. Também é um lembrete de que, assim como as fortunas, por trás de todo paraíso aparente espreita um crime ou dois. Quando a série finalmente chega a um episódio de flashback (dirigido por Ti West, de Pearl) e mergulha nas raízes puritanas por trás do que acontece na ilha, dá para sentir como a nação que construímos está assentada sobre os ossos do que Greil Marcus chamou de "a velha e estranha América". Não dá para fugir dos fantasmas do passado. Não dá nem para domá-los em nome do turismo. O melhor que se pode fazer é honrar os espíritos inquietos que vieram e se foram. Ou, pelo menos, garantir que todos aqueles corpos continuem enterrados.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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