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Nova biografia de Machado de Assis traz novidades e hipótese sobre ação da maçonaria

Ancorado em extenso trabalho de pesquisa, o livro 'Machado: O Filho do Inverno', de C. S. Soares, tenta descobrir quais teriam sido os caminhos que levaram o autor a triunfar no restrito cenário intelectual da sociedade escravocrata brasileira

14 abr 2026 - 05h45
(atualizado às 07h24)
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De fato e de direito, Joaquim Maria Machado de Assis e suas obras ocupam lugar central no universo literário brasileiro. Lugar, aliás, que não foi seu de imediato, mas conferido pela inegável prova dos nove do tempo, sempre ele, que atesta a perenidade de qualquer livro na tradição literária.

Pois, desde imprecisos momentos, a permanência histórica da obra machadiana tem sido reconhecida - e com o provável endosso de José Dias - por conta do elevadíssimo número de estudos, seja em forma de artigos ou de livros, tanto os escritos por aqui, quanto, em menor escala, os que vieram de fora, articulados ambos em função das mais díspares (e algumas até inusitadas) perspectivas críticas.

Se tais revelações indicam, nas palavras de Soares, que "Machado de Assis já carregava no próprio nome uma herança silenciosa", o livro também desvenda um outro e simbólico problema histórico-literário, a identidade da mulher a quem o então jovem poeta dedicara o seu primeiro poema, publicado em outubro 1854 no Periódico dos Pobres, o soneto "À Ilma Sra. D. P. J. A", cujo nome, Petronilha, aparecia no último verso. O nome completo da homenageada, ressalte-se, foi descoberto pelo sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, que, em pesquisas de arquivos, conseguiu identificá-la como Petronilha Júlia de Almeida.

Mas, de modo geral, pode-se dizer que, resguardadas as eventuais diferenças de percursos individuais, o caminho da inserção social de Machado de Assis é semelhante ao de outros intelectuais oitocentistas, que, sempre por meio das providenciais relações de favor e dos consequentes apadrinhamentos políticos, inicia-se pelo trabalho na imprensa, passando pela desejada obtenção, embora de precária estabilidade, de emprego público e chegando até mesmo, aos mais engajados, à carreira política.

Novo livro sobre Machado de Assis é significativo para os estudos biográficos sobre o autor; na foto retrato de Machado feito pelo fotógrafo Marc Ferrez em exposição
Novo livro sobre Machado de Assis é significativo para os estudos biográficos sobre o autor; na foto retrato de Machado feito pelo fotógrafo Marc Ferrez em exposição
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Ação da maçonaria

Em igual sentido, C. S. Soares apresenta outra sugestiva novidade biográfica, levantando a suposição de que outro possível modo de proteção ao autor poderia estar ligado à ação da maçonaria, ou melhor, à ação direta de maçons negros. De fato, ao se pensar, como exemplos óbvios, nas figuras emblemáticas de Francisco de Paula Brito e de Saldanha Marinho, a hipótese torna-se, por assim dizer, muito plausível.

Se, por um lado, Paula Brito não apenas empregou o jovem Machado em sua tipografia como lhe abriu as portas da Marmota Fluminense, em que sairiam muitos de seus textos, além, é claro, de ter sido o responsável pela publicação em livro de suas primeiras obras; por outro, Saldanha Marinho, ao comprar em 1860 o Diário do Rio de Janeiro, tendo à frente da redação o igualmente maçom Quintino Bocaiúva, também empregaria Machado.

Após a venda do jornal, e por conta do desejo de mudança do emprego, que talvez não devesse ser tributado a um mero lance do acaso, mas antes ao resultado de outro arranjo protetivo, Machado de Assis conseguiria obter finalmente um cargo no funcionalismo público, ingressando na redação do Diário Oficial do Império do Brasil a partir de abril de 1867.

Além disso, no entanto, existem dois aspectos desta biografia que geram alguns ruídos: o primeiro, a despeito de escolha consciente do autor e de produzir impactos positivos na fluidez da linguagem, é o uso, um tanto exagerado, da estratégia de ficcionalizar o texto, a ponto de, em alguns momentos, hibridizá-lo ora como romance ora como biografia.

Já, o segundo aspecto, retomado ao longo do livro, é o argumento de que Machado de Assis ocuparia reiterada posição à margem da sociedade, apenas observando, em silêncio, as entranhas sociais, para depois retratá-las em literatura, o que, de certo modo, poderia ser válido para os tempos iniciais, mas não a partir de sua inserção na grande imprensa.

Pois, do trabalho no Diário do Rio de Janeiro em diante, o escritor, exercendo sua mais que conhecida sociabilidade, participaria de inúmeros encontros e/ou iniciativas culturais, ou ainda, por meio de suas crônicas, atuaria tanto política quanto literariamente, ou, por fim, ainda ocuparia lugares de destaque, sobretudo literários, reverberados pela própria imprensa.

Em outras palavras, ainda que se reconheça as muitas dificuldades do caminho, é preciso considerar que, a rigor, Machado de Assis não viveu inteiramente à margem da sociedade. Assim, a reiteração do argumento, quase sempre acompanhada pela palavra "silêncio" e/ou de seus congêneres, pode sugerir aos leitores a impressão de que Machado teria uma posição algo passiva em relação à sua efetiva atuação social como homem público.

Enfim, pontuais discordâncias à parte, é importante enfatizar mais uma vez o exaustivo trabalho de pesquisa e as consequentes novidades biográficas levantadas por C. S. Soares - e não somente as citadas aqui - que deram vida a este Machado: O Filho do Inverno.

Além de obviamente abrir novas perspectivas interpretativas para os leitores, novos ou antigos, o livro é, sem dúvida, contribuição significativa para os estudos biográficos sobre o autor, sobretudo no que tange à necessária reafirmação de sua negritude, o que, de partida, já lhe confere mérito próprio. Inclusive, pelo fato, não desprezível, de também configurar outro e alentado passo adiante no difícil caminho, aparentemente sem fim, dos que se atrevem a decifrar os enigmas que compõem a imagem esfíngica - e, por isso mesmo, fascinante - de Joaquim Maria Machado de Assis, escritor brasileiro.

Capa do livro 'Machado: O Filho do Inverno', de C. S. Soares
Capa do livro 'Machado: O Filho do Inverno', de C. S. Soares
Foto: Ação Editora/Divulgação / Estadão

Machado: O Filho do Inverno

  • Autor: C. S. Soares
  • Editora: Ação Editora (640 págs.; R$ 129,90)
Estadão
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