'Notes on Collagen': atriz brasileira discute o medo do envelhecimento em peça em cartaz em Nova York
Uma palavra simples, cada vez mais presente no cotidiano, colágeno, virou ponto de partida para que a atriz, escritora e diretora brasileira Fabiana Mattedi construísse uma reflexão sobre envelhecimento, identidade e pressão estética.
Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York
Fabiana Mattedi conta que a inspiração veio de uma percepção pessoal ao longo dos últimos anos. A artista relata que passou a notar como o termo "colágeno" começou a aparecer com frequência em seu dia a dia. "Era uma coisa que, antes de vir para Nova York, antes de eu ter 40 anos, não sabia do que se tratava", confessa.
O estalo definitivo veio de uma cena aparentemente banal no metrô da cidade. Durante uma viagem no L Train, Mattedi ouviu duas jovens, na casa dos vinte anos, discutindo preocupações com envelhecimento e com a necessidade de "cuidar" do corpo desde cedo.
A conversa chamou atenção justamente pela antecipação dessa ansiedade. Para a artista, esse comportamento reflete uma mudança geracional.
Ela observa que pessoas mais jovens já estão conectadas a preocupações estéticas e corporais que, para gerações anteriores, sequer eram conhecidas. Segundo Mattedi, muitas vezes há um medo de perder algo que nem se sabe exatamente o que é.
A partir dessa experiência, o que começou como uma crônica cotidiana evoluiu para uma investigação mais profunda, quase uma escavação, sobre o corpo, o tempo e as pressões sociais.
A atriz afirma que o espetáculo nasce de uma inquietação central: o envelhecimento passou a ser tratado como problema. E, para ela, existe uma cobrança mais intensa e complexa em relação à aparência feminina. "Tem um questionamento dessa ditadura de beleza, de padrão de beleza, principalmente com nós mulheres. Com a gente tudo é mais complicado, mais difícil", analisa.
No palco, esse conflito aparece com humor, mas também com densidade reflexiva. Mattedi explica que utiliza a comédia como ferramenta para abordar temas mais profundos. Segundo ela, o riso funciona como um filtro para expressar questões filosóficas e experiências pessoais.
Mas a trajetória que levou à criação de "Notes on Collagen" começa muito antes de Nova York.
Natural da Bahia, a artista se formou em teatro em Salvador, onde iniciou sua carreira e construiu suas primeiras referências.
Ela destaca que participou de um projeto marcante ao lado da companhia baiana Os Argonautas, experiência que considera fundamental em sua formação.
Foi nesse ambiente que surgiram encontros importantes com nomes como Vladimir Brichta e Emanuelle Araújo, além de uma rede de contatos que segue presente em sua trajetória.
Anos depois, já com o projeto em andamento em Nova York, esses vínculos se transformaram em apoio concreto: Brichta e Araújo participaram da produção com vídeos que ajudaram na arrecadação de recursos para viabilizar a montagem.
Para Mattedi, essa continuidade revela como a construção artística também depende de comunidade e colaboração.
Ela também destaca a influência de suas origens. Segundo a atriz, a Bahia, que "deu régua e compasso para um monte de gente", teve papel fundamental na formação de sua identidade artística, funcionando como base para sua trajetória.
Hoje, essa história ganha uma nova camada com a experiência de viver e atuar em outra língua.
Construir identidade em outro idioma
Apresentar a peça em inglês, segundo Mattedi, exige precisão técnica na fala, mas também envolve uma dimensão mais profunda: a de construir identidade em outro idioma.
Ela afirma que atuar em uma segunda língua é um desafio que vai além da comunicação, e passa pela própria forma de existir em um novo contexto. "Tem o desafio técnico de falar as palavras com cuidado e com atenção para poder ser entendida. Mas, ao mesmo tempo, como eu falo em inglês é quem eu sou. E tem que ser assim, porque senão eu perco a minha autenticidade", explica, defendendo o "desafio de 'ser' em outra língua".
Nesse processo, o sotaque também se torna parte central da discussão. A atriz critica a pressão, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, para neutralizar a forma de falar. Segundo ela, há uma "padronização" da linguagem que privilegia determinados sotaques, especialmente os do eixo Rio-São Paulo, em detrimento de outras identidades regionais.
A montagem de "Notes on Collagen" também reflete os desafios do teatro independente em Nova York, com equipe reduzida, direção compartilhada e soluções cênicas simples para se adaptar à dinâmica intensa dos festivais.
O espetáculo integra o circuito do Fringe Festival, conhecido por abrir espaço para produções autorais e independentes.
Nesse contexto, a peça encontra um ambiente propício para dialogar com o público.
Mais do que falar sobre estética ou colágeno, o trabalho levanta uma questão mais ampla: em que momento o envelhecimento deixou de ser um processo natural e passou a ser motivo de medo?
"Notes on Collagen" terá quatro apresentações em abril, no teatro Under St. Marks, no East Village, em Nova York.
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