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Nos 250 anos dos EUA, museus e parques buscam preservar história conturbada do país

3 jul 2026 - 11h37
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A poucos minutos a pé do Independence Hall, na Filadélfia — onde os ideais ‌fundadores dos Estados Unidos foram debatidos e proclamados —, outra parte da história norte-americana tornou-se um ponto de tensão.

Na President's House, uma das primeiras residências utilizadas pelos presidentes George Washington e John Adams, uma exposição ao ar livre examina o que o Serviço Nacional de Parques descreve como "o paradoxo entre escravidão e liberdade". Ela tem como foco a vida de pessoas escravizadas, incluindo Oney Judge, uma mulher escravizada por George e Martha Washington, que fugiu em 1796 e permaneceu livre apesar das tentativas de recapturá-la.

Em janeiro, o Serviço Nacional de Parques removeu painéis relacionados à escravidão do local depois que o ⁠presidente Donald Trump emitiu, no ano passado, uma decreto instruindo agências federais e instituições culturais a revisar e alterar programas que, segundo ele, promovem uma "ideologia divisiva".

Autoridades ‌do governo afirmam que as mudanças restauram o equilíbrio em instituições que, segundo elas, se concentravam excessivamente nas injustiças dos Estados Unidos, enquanto críticos argumentam que elas restringem a discussão sobre a escravidão e a questão racial.

A medida tomada na Filadélfia desencadeou uma batalha judicial, e um juiz federal ‌ordenou a restauração dos painéis em fevereiro. Em seguida, um tribunal federal de apelação decidiu no ‌mês passado que o governo Trump poderia remover e substituir a exposição.

Alan Spears, diretor sênior de recursos culturais da organização sem fins lucrativos ⁠National Parks Conservation Association, disse que as implicações da controvérsia vão além da Filadélfia, levantando questões sobre se locais históricos podem oferecer interpretações sem censura.

"Quando você retira esses painéis, está expurgando, suavizando, encobrindo e apagando a história americana", declarou Spears.

À medida que os Estados Unidos comemoram seu 250º aniversário, o debate sobre a inclusão histórica tornou-se parte de uma discussão nacional mais ampla sobre como o país deve contar sua história: como uma celebração dos ideais fundadores e das conquistas nacionais ou como uma reflexão mais matizada que inclua escravidão, expropriação dos povos indígenas, imigração, exclusão e lutas de grupos marginalizados ‌para garantir os direitos prometidos nos documentos fundadores da nação.

Museus, locais históricos, parques e instituições culturais em todo o país passaram anos preparando eventos com o ‌objetivo de atrair milhões de visitantes durante o semi-quincentênio. ⁠Mas esses planos se envolveram em ⁠uma disputa mais ampla sobre memória histórica, patriotismo e poder político.

Na Flórida, o Stonewall National Museum Archives and Library, um dos principais arquivos LGBTQIA+ do país, enfrenta pressões ⁠próprias.

O presidente do Stonewall, Robert Kesten, disse que a perda de financiamento pode limitar os ‌esforços para preservar e divulgar registros históricos, à ‌medida que doadores corporativos e privados se tornam mais cautelosos em apoiar organizações que consideram politicamente controversas. O museu espera perder entre US$70.000 e US$90.000 em verbas do condado até o final do ano. Kesten atribuiu os cortes a autoridades republicanas da Flórida que, segundo ele, se opuseram à inclusão da comunidade LGBTQ+.

"É uma quantia enorme de dinheiro para uma organização como a nossa conseguir compensar", afirmou.

Historiadores, dirigentes de museus ⁠e defensores da cultura disseram à Reuters que a pressão federal corre o risco de restringir a variedade de histórias que museus e locais históricos podem contar.

A disputa se desenrola mesmo enquanto museus que oferecem relatos mais completos da história norte-americana continuam sendo grandes atrações. No ano passado, o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana do Smithsonian, em Washington, D.C., recebeu 1,4 milhão de visitantes, enquanto o Museu Nacional do Índio Americano atraiu mais de 620 mil.

A Instituição Smithsonian não respondeu a um pedido de comentário sobre se ‌seus museus haviam alterado exposições ou o trabalho curatorial para se adequar à ordem de Trump intitulada "Restaurando a Verdade e a Sanidade à História Americana".

O Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana afirmou que sua programação para o 250º aniversário irá "explorar a busca da nação por uma união ⁠mais perfeita".

"História é lembrar todo o alcance do passado, quer ele apoie ou prejudique um objetivo político", disse Ibram X. Kendi, professor de história da Howard University.

Enquanto isso, novas diretrizes para a solicitação de subsídios federais destinados a museus de história e cultura afro-americana levaram muitos a desistir de se candidatar, segundo John Dichtl, presidente da Associação Americana de História Estadual e Local, o que pode deixar alguns museus de longa data em situação financeira incerta.

O Instituto de Serviços de Museus e Bibliotecas, uma pequena agência federal que distribui os subsídios, agora acolhe projetos que "promovam em todas as gerações uma maior valorização… por meio de narrativas inspiradoras e positivas de nossa experiência norte-americana compartilhada".

"Isso nos faz questionar o que foi deixado de lado para abrir espaço para isso", disse Dichtl. O Instituto de Serviços de Museus e Bibliotecas não se pronunciou sobre o assunto.

Autoridades do governo rejeitam as acusações de apagamento histórico, afirmando que o objetivo não é eliminar capítulos difíceis da história norte-americana, mas restaurar uma maior ênfase nos ideais fundadores da nação, incluindo a liberdade religiosa e de expressão.

A iniciativa Freedom 250, apoiada pela Casa Branca, tem promovido a educação patriótica e programas públicos ligados à fundação da nação por meio de uma organização de parceria público-privada.

"Nosso papel é integrar diferentes iniciativas para que os norte-americanos possam comemorar por meio de uma experiência única e conectada", disse Keith Krach, presidente-executivo da Freedom 250, em uma entrevista concedida à Reuters em maio.

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