Woodstock 40 anos: lenda do festival ainda vive
Esta semana foi difícil para diversas gerações de americanos, a saber, aquelas que precedem ou sucedem a chamada geração baby boom. Como já se tornou costume, os envelhecidos filhos do baby boom estão uma vez mais alardeando sua história, dessa vez usando como pretexto o 40° aniversário do festival de Woodstock.
Talvez você tenha ouvido falar dele: realizado entre 15 e 18 de agosto de 1969, diante de 400 mil jovens espectadores, em uma fazenda de 240 hectares perto de Bethel, no interior do Estado de Nova York. Lá foi lançada a Era de Aquário, e os presentes puderam assistir a alguns dos maiores talentos da era do rock, em meio a um clima de amistoso caos. E, o que é mais irritante, esse pessoal não consegue parar de falar do assunto.
Se considerarmos que a história parece crescer a cada vez que é relatada, fica difícil avaliar qual foi o impacto real de Woodstock sobre nossa história cultural. Mas parece existir acordo generalizado no sentido de que, apesar de toda a desorganização, o festival foi uma espécie de milagrosa realização dos ideais utópicos, ainda que de maneira muito passageira.
"É difícil que grandes grupos de pessoas se reúnam sem que coisas horríveis terminem por acontecer", diz Dennis McNally, 59, escritor e historiador do Grateful Dead, um dos conjuntos que tocaram no festival. "Woodstock parecia oferecer muitas provas de que nossa geração era diferente".
"Embora isso se tenha provado transitório, inspirou muita gente, inclusive eu, a acreditar que podíamos fazer melhor", diz McNally. "E o mundo precisa melhorar". O que se perde em meio às recordações de paz e amor é o fato de que a Nação Woodstock não era muito inclusiva. A audiência do festival pode ter sido de meio milhão de pessoas, como cantou Joni Mitchell (ela não se apresentou em Woodstock porque tinha presença marcada no Dick Cavett Show), mas é fácil perceber quem estava ausente, naquele mesmo grupo geracional: negros e outras minorias raciais, o pessoal que estava servindo às forças armadas, e certamente qualquer jovem forçado a colher alface na Califórnia ou a trabalhar nas fábricas têxteis do sul rural do país.
Mas graças a Woodstock, o documentário e trilha sonora de 1970 sobre o festival, e mais a cobertura que o evento recebeu da grande mídia (especialmente o New York Times e a revista Life), as imagens e mensagem de Woodstock se espalharam pelo país.
Lá elas ganharam popularidade por uma estação e logo se comercializaram em forma de música, moda e política. Woodstock se tornou mito, ainda que a crise da era tenha começado poucos dias depois do festival, com os assassinatos liderados por Charles Manson. Menos de quatro meses mais tarde aconteceu o fiasco no show dos Rolling Stones em Altamont, no qual um espectador foi morto a facadas por um membro da gangue de motociclistas Hell's Angels, que estava cuidando da segurança.
Barry Fey, um conhecido empresário das artes em Denver, tinha 31 anos quando foi a Woodstock. Já maduro, ele tinha dois anos de experiência como promotor de shows e havia abandonado há muito a visão rósea sobre a nova era. Foi ao festival como convidado de Chip Monck, o apresentador.
"Fiquei admirado com o que vi", disse Fey. "Tantos adultos reunidos naquelas condições, sem comida ou segurança, costumam resultar em problemas rapidamente. Mas todo mundo se uniu e se comportou de maneira respeitosa e gentil. Era mesmo algo que merecia ser visto".
O festival deu aos adultos um respeito hesitante pela capacidade dos jovens e pelo seu comportamento", acrescenta. Fey tinha acabado de participar da produção do Festival Pop de Denver, acontecido semanas antes na cidade. Alguns dos maiores astros do rock, entre os quais Jimi Hendrix em seu último show com o Experience, antes que ele desmontasse o grupo.
O Denver Pop teve alguns problemas, entre os quais um confronto entre policiais e espectadores desprovidos de ingressos que tentaram invadir o local. Fey relembra o seu festival como "três dias de música e dois de gás lacrimogêneo".
Michael Lang, o organizador de Woodstock, foi ao festival de Denver e estava determinado a evitar confrontos semelhantes. Mas o festival que ele montou teve desafios próprios a enfrentar.
Os organizadores abriram mão de controlar o acesso logo no começo, e decretaram entrada gratuita. Houve problemas logísticos graves com os serviços sanitários e de alimentação. A principal rodovia vinda de Nova York foi fechada quilômetros antes de Bethel, o que requeria longa caminhada até o local. E, ao chegar, as pessoas mal conseguiam ouvir as bandas.
Depois veio uma chuva torrencial que transformou em lodo o pasto de Max Yasgur. Fey aguentou um dia e meio e se foi. "Woodstock era como o treinamento dos Fuzileiros Navais", ele conta. "Um lugar ruim para se estar, mas um bom lugar pelo qual passar. Orgulho-me por ter ido". Milhões de outros espectadores concordariam. Como muitas ocasiões históricas, de batalhas a eventos esportivos, as pessoas que alegam ter participado superam em muito o número das efetivamente presentes.
"Era uma verdadeira comunidade de ideais hippies, mesmo que muitos dos garotos presentes só fossem hippies naquele final de semana", diz McNally. Agora preparando um livro sobre a história da boemia nos Estados Unidos, ele não está certo quanto ao legado de Woodstock. ¿Em última análise, creio que seja apenas uma memória, visão e ideal acalentados sobre a contracultura¿.