Di Ferrero fala sobre show no The Town e a cena pop atual: 'O playback não joga a favor da música'
Cantor prepara show mais 'dançante' para o festival, onde se apresentará no mesmo dia de Backstreet Boys, CeeLo Green e Luísa Sonsa; veja vídeo
Di Ferrero anda às voltas com os ensaios de sua primeira apresentação no The Town, festival que ocorre entre 6 e 14 de setembro, em São Paulo.
Ex-vocalista da banda NX Zero, e ídolo do pop rock nacional, nos anos 2000, Ferrero, desde 2018 está em carreira solo, batizou a apresentação de The Hard Pop Party, uma mistura de estilos e vontades que sempre estiveram com ele: o hardcore (melódico) ou, para muitos, o emo; o pop, que está em sua formação e que lhe rendeu críticas e patrulhas; e, por fim, uma vontade de colocar a plateia para dançar.
Ferrero, 40 anos, vai abrir o palco The One em 12 de setembro, no espaço que, neste dia, terá um line-up 100% nacional: Luísa Sonza, Pedro Sampaio e Duda Beat. No Palco Skyline, reservado aos headliners, estarão, nessa data, CeeLo Green, Jason Derulo e Backstreet Boys. "Será legal para mim, até porque vai ser o meu lado mais pop que vai falar mais alto nesse show", diz o cantor, em entrevista realizada na redação do Estadão.
Para ele, assumir esse "lado mais pop", é como se libertar finalmente de qualquer amarra que possa impedir um vocalista de rock olhar e experimentar um dos estilos mais populares do momento, que guia a maioria das produções musicais ao redor do mundo - no Brasil, por exemplo, está no sertanejo, no funk e no samba.
O repertório da apresentação de Ferrero no The Town terá, entre sucessos do NX Zero e da carreira solo, músicas da cantora americana Britney Spears e o mashup (música criada a partir da mistura de duas ou mais canções preexistentes) que uniu banda de rock Paramore ao pagodeiro Péricles, Misery Business Até Que Durou.
De novidade, as canções do EP 7, lançado em abril deste ano e com o qual Ferrero excursiona no momento. Uma das canções, Além do Fim, que tem o refrão "Cê gosta de me ver sair com coração partido/Ontem eu tava bem, hoje eu tô fudido", virou meme nas redes sociais para representar desde dores de amor até uma manhã de ressaca.
Na entrevista, além de contar como é se apresentar em um grande festival - ele se esteve duas vezes com o NX Zero e uma solo no Rock in Rio -, Ferrero reflete sobre nostalgia, diz que nunca quis ser exemplo para a geração que o idolatrou e analisa o mercado atual para o pop rock nacional, desfavorável em números de players nas plataformas digitais, mas que, segundo ele, ainda com o poder de lotar plateias pelo País.
O que você está preparando para sua apresentação no The Town?
É o dia em que o headliner vai ser o Backstreet Boys. E isso será legal para mim, até porque vai ser o meu lado mais pop que vai falar mais alto nesse show, que batizei de The Hard Pop Party. Será uma festa, mas do meu jeito, um pouquinho mais apimentada, bastante musical. Vou com uma big band. Será bem para frente, dançante, com um setlist que passa pelas minhas músicas e pelo meu passado com o NX Zero. Terá várias surpresas, com músicas que eu acho que tem a ver com o dia, coisas que me influenciaram, principalmente do pop.
O que você ouvia de pop que foi capaz de te influenciar ou te influencia até hoje?
O pop veio para mim por osmose. Nos anos 2000, quando eu comecei a surgir tocando, estávamos na era das boybands, como o Backstreet Boys e o 'N Sync. Também tinham a Britney, Nelly Furtado, com quem, depois, eu fiz uma música (All Good Things). A Nelly me escolheu para fazer essa versão. Eu ouvia tudo que estava nessa cultura pop, mas sem deixar a minha essência (o rock). E era criticado por isso (ouvir pop).
Foi uma vítima de preconceito, então?
Não digo que fui uma vítima, porque isso não tirou meu sono à noite. Mas lembro dos julgamentos, não só para mim, mas para a banda e para uma geração nova naquele momento, que hoje é a que põe o rock para frente. Porque o rock não é duas guitarras distorcidas fazendo um som. É uma linguagem, uma atitude, um jeito de ser, de falar, ele está em vários lugares. Já éramos dessa geração, naquele tempo. Quando surgiu a Rihanna, eu falei: "Nossa, que incrível!". Eu ouvi e falei: "Pô, que som, olha que legal!". Meu pai me deu o Dangerous do Michael Jackson, que tinha tudo misturado, um pouco de rock, muito pop, soul. Depois, aquele álbum azul da Madonna (True Blue), que eu ouvi muito. Tudo o que o Paul McCartney fez com Michael e com o Steve Wonder. Ouvi todo esse mundo, até chegar no pop dos anos 2000. E, de repente, não podia falar que você gostava das boybands, não podia falar isso, não podia falar aquilo...
Foi o Tico Santa Cruz (líder do Detonautas) que mais te incomodou?
Tico é meu 'parceiraço'. Hoje, estamos super amigos. O Tico era mais um que falava, mas era geral. Era o começo da internet. Eu lembro que tinha o Rock Gol e todas as as coisas rolando na MTV, a cena que veio rotulada como emo. As bandas começaram a tomar o espaço. Como tudo que é novo e ocupa espaço, tem a galera que perde, que é normal, ou tem que dividir o espaço. Isso começou a irritar. Mas já estávamos com outro pensamento. Lembro de todo mundo reclamando que não vendia CD, que o mercado estava horrível - e eu rindo à toa. CD? Eu nunca almejei vender CD. Eu estava na fase de baixar música na internet.
Tenho a impressão que nos festivais há uma margem muito pequena para errar e também para agradar. Tem gente que foi lá para assistir a outros artistas, tem sempre o roqueiro insatisfeito, a TV transmite ao vivo, a imprensa faz a lista de melhores e piores, há os artistas internacionais. Como esquecer um pouco desse entorno para entregar um bom show?
Antes, esse entorno pesava muito em mim. O primeiro show do NX Zero no Rock in Rio (em 2011) foi complicadíssimo. Tecnicamente, várias coisas erradas deram errado. Nas primeiras músicas, as pessoas (na plateia) pareciam quadros nos olhando. Depois, quando toquei solo, foi diferente. Tirei esse medo de mim. Toquei com o Vitor Kley (2002) e foi o meu melhor show da vida. Ele também acha isso. Em 2024, houve a reparação, quando eu estive no festival novamente com o NX Zero. Foi lindo! Então, vivi todos esses momentos, de passar por um perrengue e também conquistar o público.
Falamos sobre pop e sobre apresentação ao vivo. O que pensa do uso do playback no palco? Não é algo novo, mas a discussão permanece, sobretudo na música pop.
O playback é diferente do VS (Virtual Sound, trilhas de áudio pré-gravadas para acrescentar ou executar no show), que é o som que você põe junto na banda, que é diferente do autotune, que as pessoas usam como textura ou para dar uma ajuda (na afinação). A maioria dos artistas, por exemplo, usam dobras de coisas. O cara vai lá com uma banda, toca guitarra e tem outra guitarra junto gravada, fazendo uma base da mesma coisa que o cara está tocando ao vivo. Acho que esse tipo de coisa é ok, vem desde lá de trás, com Michael Jackson e outros. O playback é o cara dublar. Atualmente, as pessoas estão bem mais ligadas nisso. O playback não joga a favor da música. Não é legal. O artista não pode se acomodar e parar de estudar. Eu sou cantor e sou meu instrumento. Vou continuar dando sangue! Se eu quiser ouvir algo perfeito (no palco), prefiro ouvir a música em casa. Você vai ao show para ver as coisas ocorrerem, não é?
Voltando ao NX Zero, porque é uma parte importante da sua carreira, te incomoda ser visto como uma nostalgia desse som, desse período?
Não me incomoda. Não acho a nostalgia algo ruim. Mas, se eu puder falar para as pessoas também não se apegarem a ela... Esses dias, eu assisti a um filme com o Al Pacino (Danny Collins) no qual ele é um cantor tipo Rod Stewart e tem uma música na qual ele fala: "Hey, baby doll". Ele faz uma dança meio ridícula. Ele queria fazer algo novo, de coração, mas, quando ele ia tocar, alguém falava: "Toca Baby Doll!", Isso incomodava ele, sabe? Mas ele não teve a força para tocar a nova e falar: "Não, não vou tocar essa!". Então, tem que haver um equilíbrio.
Pergunto porque a nostalgia virou também um filão do mercado, não?
Sim. Mas está aí uma coisa que não conseguiria fazer. Nem como artista, nem como pessoa. Isso é o que me põe me para baixo, abre uma janela de coisas obscuras dentro de mim, sabe? Claro, vou usar tudo que eu já trabalhei com as músicas antigas, mas eu preciso mostrar o que eu estou fazendo agora. Compor e continuar.
Foi esse sentimento também que te levou para uma carreira solo?
De certa forma, sim. Eu precisava conhecer outras pessoas, fazer músicas com outras ideias. Minha primeira música (solo) é super pop, Sentença. Pensei: "Eu vou levar porrada". Ela é meio death punk, tem um pouco dos 2000. E foi o contrário. Foi aceita, acharam legal. Essa é a minha gasolina.
Você lançou um EP, '7', com três novas canções. O título tem a ver com o anoitecer, é isso?
Começou com um lance bem introspectivo mesmo, depois de um ano sem lançar música nova, fazendo bastante show. Foi bem orgânico, dando uns passos para trás nesse sentido, no violão. Não abri o computador para fazer (as músicas). Esse horário é a mudança do dia para noite. Representa o começo de um novo momento para mim, Daqui a pouco virão mais músicas, e elas vão anoitecendo, entrando na noite, digamos assim.
Nessas novas canções, você fala de imperfeição, defeitos, e também de amor. É importante um ídolo assim como você falar dessas questões e se mostrar vulnerável?
Eu sempre fui super vulnerável. Nunca tive medo de dar a cara à tapa. Falar de sentimentos que hoje talvez seja mais normal de se falar. Ninguém é perfeito. Inclusive, não tem como se mostrar perfeito, ninguém vai aguentar, nem o próprio artista vai se aguentar. A música Além do Fim, que está nesse EP, fala sobre isso. Quando você termina uma relação, o que que vai sobrar além do fim? Não vai acabar. O mundo é assim, as pessoas são assim. A imperfeição toda é bonita, é legal, é o que eu gosto nelas.
Você começou a carreira muito jovem e fugiu do padrão do ídolo de rock problemático. Não há grandes grandes escândalos relacionados ao seu nome. Isso é algo da sua personalidade ou uma decisão profissional? Foi algo combinado para segurar a onda no momento de loucura da fama do NX Zero?
Eu já vinha de uma banda. Eu cantava na igreja, fazia tour pelo Brasil, tinha clipe gravado, singles lançados. Meus pais saíram dessa igreja e eu nem fui expulso da banda, fui ignorado mesmo. Não pude mais participar. Foi meu momento de revolta, com 13 anos. Eu saí sem querer sair, queria ter continuado com a banda. Foi quando eu comecei a ouvir rock na Galeria do Rock, em São Paulo. Então, eu já sabia o que era perder algo, sabe? Não foi nada profissional mesmo (não se envolver em polêmicas), foi o meu jeito de ser e dos meninos (do NX Zero) também. Respirávamos fundo, engolíamos o ego um pouco e tentávamos seguir em frente, porque estávamos vivendo um sonho, e eu sabia o que era perder isso. Em vários momentos, quase escorregamos, de brigar dentro do estúdio e, ao sair dele, estava tudo bem. As pessoas começaram a usar isso contra nós. Lembro que teve uma capa de revista que demos uma puta entrevista, falamos bastante, e o título foi: "Rock sem transgressão". Pensamos: "Ah, cara, beleza, a gente tá bombando, vamos fazer o som e e vamos por esse caminho aí".
Você sentia a responsabilidade de falar e representar uma geração toda?
Eu não sentia o peso, não pegava isso para mim. Não levantava bandeiras para a galera me seguir. Porque eu sou muito mutante, poderia mudar a qualquer momento e decepcionar as pessoas. Mas, entendo. Muita gente me fala: "Cara, você salvou minha vida!". A pessoa mostra o pulso cortado e fala: "Tal música me fez crescer!". Só queria ser o mais sincero comigo mesmo, e não dar conselhos para ninguém.
Atualmente, você quer falar com quem? Ou, quer falar o quê? Para quem?
Eu tenho que achar sempre uma uma verdade, senão eu prefiro não falar. Por isso eu demorei um pouco para lançar novas músicas. Quero realmente ser sincero comigo e quem conseguir se conectar, ótimo. Tem que ter alma mesmo, meu coração. Para mim, sempre tem que ser muito visceral.
Na lista das mais músicas mais ouvidas no Brasil nas plataformas estão o pagode, sertanejo, o rap, o funk, o trap - todos eles muito pop hoje em dia. E todos com elementos do rock também. Onde fica o tradicional pop rock nessa história? Ou, por que ele não se comunica tanto com esse público que está no digital? O que que está faltando ou o que se perdeu pelo caminho?
Eu acho que não se perdeu. Nas plataformas, o rock vem crescendo nesses últimos tempos Você está falando de números, não? Eu não me apego a números porque eu já vi piorar, crises, agora vai melhorar, agora vai piorar... Tanto faz. Tanto faz. O rock sempre foi um estilo meio às margens disso. Por isso, vira o rock alternativo e sempre acaba estourando. Um artista, uma banda, uma influência...Se você for ver, na constância, os artistas que mais vendem ingresso de shows, em festivais, são os artistas de rock. Tem muitos artistas pop que nem fazem tour.
Há uma inconsistência nisso, não?
Sim, há. Eu não posso reclamar - e nem a maioria das bandas (de rock) podem, até as mais novas. Elas levam uma galera, começam uma cena, porque estão ali para curtir, entendeu? Claro, você quer viver disso, você sonha viver disso, mas você não precisa morar em Alphaville... Não é esse o grande lance. Você quer continuar tocando, trocar ideia com bandas novas, ver alguém novo. O rock, em geral, é isso.
Há uma artificialidade dessas listas ou é uma questão de mercado? A pessoa ouve, mas não vai ao show? O que ocorre?
Boa pergunta. Acho que é o jeito a música é consumida. Tem várias maneiras. Tem muita gente que escuta rádio, que é mais eclética. Tem pessoas que escutam as playlists, que não se preocupam muito em ir atrás de novidades. A democratização da internet fez com que tudo se ramificasse muito. A galera que curte rock é mais religiosa nesse sentido: "eu vou ao show, eu vou no rolê, eu quero ouvir as músicas novas". É muito sincero. Tem alguns artistas de trap, de pop, que conseguem sacar essa linguagem e se expandem também. A música não pode perder essa essência. Tem mercado, tem fórmula, mas música sempre em primeiro lugar.