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Thamires Tannous liberta o canto de todas as obrigações

Cantora sul-mato-grossense mostra neste sábado (30), na Vila Madalena, o repertório do edificante 'Canto-Correnteza', uma apologia ao ato de fazer música pela própria música

29 nov 2019
20h14
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Quase deu para acreditar que não havia mais canções assim paridas nos últimos anos, de apagar a tensão da vida e colocar caboclo a dois palmos do chão. Uma leveza despudorada de contornos políticos e harmonias enlaçadas, movida por uma vontade de cantar não para ser a voz, mas o veículo; não a estrela, mas a luz, de um canto sem os egos em forma de vibratos, melismas e tudo o que nem sempre é para a canção, mas a quem a usa. Quase deu pra acreditar que não existisse mais isso.

Uma parte do jeito de pensar música de Thamires Tannous vem do Mato Grosso do Sul, Campo Grande, cidade onde nasceu e viveu até vir para São Paulo, em 2005. Antes de Canto-Correnteza, que ela lança agora, houve Canto para Aldebarã, produzido por Dante Ozzetti (que parece ter deixado marcas ainda no novo trabalho) e um dos vencedores do Prêmio Grão de Música em 2015, idealizado pela cantora Socorro Lira. Thamires trazia ali suas informações genéticas árabes. Aqui, ela assume um canto do Norte que move moinhos pulando às vezes para o Centro-Oeste sem tocar no Nordeste. Um movimento bem peculiar que será mostrado neste sábado (30), na Casa de Cultura Os Capoeira, que fica na Rua Belmiro Braga, 186.

Há ali um toque político desses vistos nas existências mais simples. Negar o discurso do manifesto quase obrigatório a uma geração, a essa altura, é como apontar que existem outros discursos, muitas vezes, mais eficientes - e muitos artistas começam a atuar nesse campo. O álbum tem leveza em faixas sempre bem arranjadas. Serena, uma parceria com Consuelo de Paula, é coisa do Amapá, como ensina Patricia Bastos. Michi Ruzitschka, o produtor, faz as cordas de guitarra e violão. O baixo é de Fábio Sá e a percussão de Nena Silva, uma autoridade nos marabaixos. Levita tem uma linguagem deliciosamente pop, com frases de guitarra pontilhadas que nunca se sabe se são caribenhas, africanas ou paraenses. Não importa.

Catimbó, parceria com Michi, é mais festa, com a temperatura elevada por um trio de metais e uma divisão vocal leve e folgada. A única regravação é feita de Espumas ao Vento, de Accioly Neto, com um tempo mais quebrado marcado pela percussão sempre fora da caixa de Guegué Medeiros, e Desaviso, um dos mimos do disco com um clipe de exaltação à felicidade, tem arranjo de cordas e violinos de Ricardo Herz. O ponto que queima a curva é Caipora, uma canção espetacular e dramática, feita em parceria com Chico Cesar, que tem no roteiro real de sua criação uma história tão curiosa quanto a própria letra. Thamires ligou para Chico Cesar em busca de uma letra. Ele disse que não tinha, mas que a faria. Dez minutos depois, Chico liga de volta, dizendo que havia acabado de fazê-la. Thamires se emociona, desliga o telefone e começa a criar a música. Em dez minutos, está tudo terminado. A marca de Chico, a palavra desconstruída ditando o sentido do verso, fica assim: "Quem a mata mata / Onde o rio chora / Incendeia casa / Onde o índio mora / Quem com moto serra / Finda o cerrado / E a vida encerra / No arame farpado."

Thamires Tannous estudou primeiro publicidade antes de se decidir pela música. "Eu tentei fugir por ter medo da vida dos músicos", ela conta. Em 2010, quando o ser ou não ser não se tratava mais de uma decisão, largou os planos publicitários e começou a sonhar a sério. Se formou em música na Faculdade Souza Lima em 2015 e passou um tempo na França estudando na escola do violinista de jazz Didier Lockwood, morto em 2018. Ouviu a música do mundo, conheceu linguagens de países dos mais distantes e, ao pensar em seu Canto-Correnteza, foi buscar na terra onde nasceu a meslhor versão de si mesma.

Thamires Tannus

Sábado (30), às 21h

Casa de Cultura Os Capoeira

Rua Belmiro Braga, 186 - Vila Madalena

Ingressos: R$20 a R$ 35

Estadão
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