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Sepultura: Andreas Kisser fala à RS sobre 'The Cloud of Unknowing' e despedida

Guitarrista detalha EP final, celebra shows derradeiros — incluindo data especial no Rock in Rio — e confirma: irmãos Cavalera recusaram convite para última apresentação

24 abr 2026 - 00h14
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Nem mesmo Andreas Kisser esperava que o Sepultura lançasse músicas inéditas na reta final de sua carreira. Em meio à turnê de despedida Celebrating Life Through Death, a maior banda de metal da história do Brasil disponibiliza, nesta sexta-feira, 24, o EP The Cloud of Unknowing, com quatro faixas gravadas de forma espontânea durante uma viagem aos Estados Unidos para participar do cruzeiro 70,000 Tons of Metal, no início de 2025.

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Kisser, o vocalista Derrick Green, o baixista Paulo Jr e o baterista Greyson Nekrutman — que entrou em 2023 e faz sua estreia em material gravado pelo grupo — foram ao Criteria Studios conceber e registrar as canções. "Eu levei algumas ideias, pois sempre estou compondo", conta Andreas à Rolling Stone Brasil. "O riff da 'The Place', por exemplo, surgiu na pandemia. Já a terceira música, 'Sacred Books', foi composta no estúdio. A balada, 'Beyond the Dream', foi criada com Sérgio Britto e Tony Bellotto, dos Titãs."

Sempre muito produtivo em relação a lançar músicas inéditas, o Sepultura disponibilizou 15 álbuns de estúdio entre 1986 e 2020, formando um catálogo com mais de 150 canções autorais. Pensar em retornar ao processo criativo após Quadra (2020), disco final do grupo, serviu como uma das razões para encerrar as atividades do Sepultura após a tour Celebrating Life Through Death. O guitarrista reflete:

"Esse EP não estava planejado. Quando anunciamos a turnê de despedida, não havia plano de lançar música nova. Um dos motivos para a despedida foi um certo sufoco de ter que entrar em processo para fazer um disco novo, com 10 ou mais músicas. Quando você não está no clima, é um inferno, pois você precisa entrar 100% e são meses de concentração. Mas nesse EP, houve uma falta positiva de planejamento e absorvemos as possibilidades do presente. Este EP tem um clima de ir atrás dos últimos desejos, ciente de sua vida estar no fim."

https://www.youtube.com/watch?v=o7anH4l8Ipc

E quem foi o responsável por mudar a percepção de Kisser nesse sentido? Nekrutman, que, no alto de seus 23 anos — quase metade da idade do Sepultura, fundado em 1984 —, trouxe elementos novos para o leque já amplo de referências do grupo. "Especialmente pelo background do jazz, algo que nunca tínhamos usado", afirma Andreas.

The Cloud of Unknowing, em detalhes

O título The Cloud of Unknowing ("A nuvem do não-saber", em tradução livre) surgiu para Andreas Kisser a partir de palestras de Alan Watts, um dos popularizadores do budismo e da filosofia hinduísta no Ocidente. Em suas palestras, o inglês emigrado aos Estados Unidos na década de 1950 fazia uso de um conceito do século 14 cuja proposta era chegar ao divino não pelo pensamento ou racionalidade, mas pelo silêncio interior. Watts levou essa ideia para além do campo religioso e estabeleceu: é importante aproveitar o presente e confie no não saber, sem tentar transformar tudo em explicação.

"Nesse movimento cristão do século 14, as pessoas questionaram toda essa parafernália de local, santo, imagem, livros, terço... coisas que atrapalham a conexão direta com o espiritual. Hoje, vemos a inteligência artificial criando uma realidade paralela. As pessoas vivem atrás de uma tela e esquecem de ter uma relação real com as pessoas, a natureza e os animais. Não à toa a gente vê tanta m#rda acontecendo. Desrespeito a tudo isso — seja por causa que uma pessoa é mulher, ou porque tem outra religião, ou por torcer para outro time. Besteiras que dividem as pessoas. Vi um paralelo muito forte do 'cloud of unknowing' com o que a vemos hoje, não apenas na religião."

O guitarrista, então, comenta sobre cada uma das quatro faixas presentes no EP:

— "All Souls Rising": "São riffs da época da pandemia. Compus sem muito foco no que estava fazendo, em uma expressão pura, para depois ver se fazia sentido no trabalho daquele momento. A ideia foi começar com todos juntos — no extremo, no máximo — e dar uma parada abrupta com outro timbre, com orquestra. E tem um solo de bateria com orquestra. A proposta era trazer uma sensação de: você está correndo e de repente está no abismo, sem chão. Abrir um EP de quatro músicas com uma porrada é bem característico do thrash metal — e o próprio formato de EP é típico do thrash metal. É um formato mais maleável, livre."

— "Beyond the Dream": "Começamos do zero: eu, Derrick Green, Tony Bellotto e Sérgio Britto, em um grupo no WhatsApp. O primeiro movimento veio do Tony, que pegou o violão e fez uma letra sobre a estrada; estar longe da família; gratidão aos fãs, familiares e amigos. Peguei esse rascunho no violão e desenvolvi na forma Sepultura, ao tirar do tom maior e colocar em tom menor. Sérgio mandou possibilidades da parte B no piano e enviou letra. Então, Derrick pegou e desenvolveu à maneira dele. Eles não fazem parte da gravação porque não estavam no estúdio, mas são co-autores. Tony e Sérgio são mais do que amigos: fazem parte da família. Foram eles que compuseram 'Polícia', música que tem história com o Sepultura há muito tempo."

https://www.youtube.com/watch?v=yIkZO7BPe6Q&list=RDyIkZO7BPe6Q&start_radio=1&pp=ygUQc2VwdWx0dXJhIGJleW9uZKAHAQ%3D%3D

— "Sacred Books": "Eu estava trocando cordas de guitarra nos intervalos enquanto a galera estava sentada. Comecei a testar e veio o riff. Greyson cresceu a orelha, achou interessante e fomos tocar. Nós dois desenvolvemos a ideia, quase como uma música instrumental, com o refrão sendo repetido três vezes e no meio ter solos, de guitarra, piano e bateria. Fomos praticamente criando e gravando. É difícil algo assim acontecer quando você entra no estúdio com tudo meio armado. Perde um pouco dessa espontaneidade."

— "The Place": "Tem uma pegada mais sombria, tipo Born Again [álbum do Black Sabbath de 1983]. Remete a 'Disturbing the Priest' no sentido de usar notas mais agudas junto de algo mais pesado. Tem um tempo meio torto, uma sensação de estar fora, mas está dentro do 4/4. A letra é introspectiva e política, sobre o que são as coisas, o que é uma nação, o que é ser estrangeiro, imigrante. Até hoje vemos a retórica do conservadorismo e fascismo, infelizmente. Falta até criatividade para essa retórica, pois falávamos disso na Segunda Guerra Mundial, quase 100 anos atrás. 'The Place' tem um questionamento interno sobre o que é ser brasileiro. Brasil e nos Estados Unidos são similares em relação a terem sido construídos por imigrantes. Então, fechar fronteira e criar muros é algo paradoxal."

Os últimos passos do Sepultura

A turnê de despedida Celebrating Life Through Death se encaminha para suas últimas etapas. Como prometido, o Sepultura realmente acabará em 2026. O penúltimo show está marcado para 5 de setembro, no palco Mundo do Rock in Rio, com um repertório reunindo apenas músicas gravadas por Derrick Green. Há material de sobra para escolher, visto que o cantor está na formação desde 1997 e participou de nove discos de estúdio, além de EPs.

Por que o grupo nunca havia realizado uma performance nesse formato? "Sempre pediram, mas acho que precisa de uma ocasião especial, pois não tem motivo para dividir a carreira do Sepultura por causa de um vocalista", explica Andreas Kisser. "Por outro lado, acho interessante pela representatividade do Derrick, que é tão Sepultura quanto qualquer outro que integrou essa banda. Não somos reféns de repertório: já fizemos shows sem tocar 'Roots Bloody Roots', 'Arise', 'Refuse/Resist', a depender do conceito da turnê."

Exaltando o parceiro de quase 30 anos, o guitarrista vê o set especial no Rock in Rio como "uma homenagem por tudo que Derrick fez e faz pela banda". "Ele passou por momentos dificílimos ao encarar o microfone quando lançamos Against (1998). Enfrentou críticas absurdas e comparações patéticas. Até hoje ouvimos coisas assim, com uma divisão estúpida. Mas ele vestiu a camisa mais do que ninguém e ele só cresceu — esse EP mostra isso, com um trabalho primoroso, técnico e cheio de emoção. Ele domina completamente a voz dele. Nunca faríamos uma música como 'Beyond the Dream' com outro vocalista. Não estaríamos aqui hoje sem as possibilidades e a capacidade dele", diz.

Ainda não há data e local previstos para o último show. Em 2025, o próprio Kisser contou à Rolling Stone Brasil que o plano era se apresentar em um estádio de São Paulo e chamar ao palco não apenas amigos, como também ex-integrantes, para um espetáculo especial. Por um bom tempo, permaneceu o mistério: será que os membros fundadores rompidos Max e Iggor Cavalera, respectivamente vocalista/guitarrista e baterista, topariam participar?

A resposta se tornou pública em março último. Kisser contou à revista inglesa Metal Hammer que os irmãos recusaram o convite. Gloria Cavalera, esposa e empresária de Max, veio a público dizer nas redes que nenhum dos dois recebeu contato. Agora, à Rolling Stone Brasil, Andreas afirma ter chamado os irmãos de duas formas diferentes: em conversa direta com Iggor e uma mensagem oficial por meio do management para Max. Ouviu "não" de ambos os jeitos.

"Liguei para o Iggor alguns meses atrás. Tivemos uma conversa sensacional e muito cordial. Falamos de outros assuntos: família, futebol... foi muito legal. Então, fiz o convite. Ele disse: 'cara, a gente não sente parte disso, a gente não se sente confortável'. Deu os motivos dele para não querer fazer parte disso. Ok. Por meio dos empresários, também enviamos oficialmente um contato lá [para Max] e também recebemos a negativa. Não sei se foi diretamente da Gloria ou do advogado, mas fomos pelos dois caminhos: um caminho direto, onde falaram 'não', e outro mais burocrático, onde também foi falado 'não'. Se chegou na Gloria ou não, isso não tenho como dizer. Só posso te dizer o que tivemos de retorno. E está de boa. Acho que tínhamos que fazer o convite. Seria muito legal a participação deles."

*"The Cloud of Unknowing", novo EP do Sepultura, está disponível nas plataformas de streaming via Nuclear Blast/ONErpm.

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Foto: Rolling Stone Brasil
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